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 ENTREVISTA
15/01/2003
Caldeirão criativo
Ex-presidente da UNE, Ruy Cezar promove festival de artistas independentes e defende que o País seja o eixo da união
cultural entre as nações

Florência Costa

  Isabel Gouveia
  RUY CEZAR: “O Brasil
sediará em 2004 o 1º Fórum
Cultural Mundial”

Ruy Cezar Silva nasceu no interior da Bahia em 1960. Mas foi em 1977, aos 17 anos, que andou pela primeira vez de ônibus e viu uma peça de teatro. Ruy seguia para Salvador onde prestou vestibular para Comunicação na UFBA. Logo entrou para o movimento estudantil e ajudou na rearticulação da União Nacional dos Estudantes (UNE), na época fechada pela ditadura militar. Em 1979, na primeira eleição direta para presidente da entidade, venceu a chapa do então estudante e hoje ministro Ciro Gomes (PPS). Como muitos que chegaram ao poder no governo Lula, ele foi preso, torturado e, aos 22 anos, já era uma notável liderança política de esquerda. Mas o rapaz, inquieto e visionário, avesso à política partidária, queria mesmo era ser ator. Ao terminar o mandato na UNE, em 1981, resolveu, sob protestos dos companheiros de
militância, sumir do cenário para se dedicar à cultura e à educação.
Por mais de dez anos, rodou pelo mundo trabalhando na formação
de uma rede internacional de intercâmbio cultural. Hoje, é dono
de uma conceituada escola construtivista e organizador de um
festival anual com artistas independentes do mundo, o Mercado
Cultural. Ruy realizou ainda o grande sonho de tornar-se ator de
teatro. Sem partido, em silêncio e longe de Brasília, ele faz muita
política e tem contribuído para o desenvolvimento sociocultural
do País, ao mostrar para produtores mundiais o que é
produzido aqui e ignorado pelos barões da cultura brasileira.

ISTOÉ – O que é o Mercado Cultural, que já se realiza
há quatro anos em Salvador?
Ruy Cezar Silva
– A idéia foi fazer um ponto de encontro entre todas
as redes culturais alternativas fora da indústria. O que é o mangue
beat? O que é o maracatu, o afoxé, o samba do coco? Ou seja, o
agente ou diretor de um festival não precisa mais viajar toda a América Latina para encontrar esse material. Ele vem aqui e assiste de 13
a 15 espetáculos ao dia num curto espaço de tempo. Em uma semana, eles fazem centenas de contatos, levam material para preparar um
ano de turnês nas suas regiões. Recebemos 800 CDs por ano, a maioria de fora do Brasil, de artistas que querem participar do evento. O fenômeno foi a multiplicação da presença de especialistas de um
ano para o outro. No primeiro, tínhamos cerca de 120 produtores culturais, no segundo 250, no terceiro 800, e agora mais de mil.

ISTOÉ – A divulgação é restrita. Isso é proposital?
Ruy César
– O festival é divulgado boca a boca ou internet a internet, por revistas e sites especializados em música. A grande imprensa
não é o foco. Nosso foco é promover e dar visibilidade a trabalhos
de alta qualidade que estão fora da indústria. Os grupos que participam do Mercado Cultural têm uma trajetória, uma história, e não são
um fenômeno momentâneo, passageiro. Isso não nos interessa. Se estivéssemos apresentando 15 grandes estrelas da música mundial, nenhuma viria a Salvador. Elas vêm em busca do novo, de descobrir
o que ainda não foi visto. Buscamos o que está faltando, o que
foi excluído do mercado, e não o que já existe em excesso.

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