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| Caldeirão
criativo |
Ex-presidente
da UNE, Ruy Cezar promove festival de artistas independentes
e defende que o País seja o eixo da união
cultural entre as nações |
Florência
Costa
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RUY
CEZAR: “O Brasil
sediará em 2004 o 1º Fórum
Cultural Mundial” |
Ruy Cezar Silva nasceu no interior da Bahia em 1960. Mas foi em
1977, aos 17 anos, que andou pela primeira vez de ônibus e
viu uma peça de teatro. Ruy seguia para Salvador onde prestou
vestibular para Comunicação na UFBA. Logo entrou para
o movimento estudantil e ajudou na rearticulação da
União Nacional dos Estudantes (UNE), na época fechada
pela ditadura militar. Em 1979, na primeira eleição
direta para presidente da entidade, venceu a chapa do então
estudante e hoje ministro Ciro Gomes (PPS). Como muitos que chegaram
ao poder no governo Lula, ele foi preso, torturado e, aos 22 anos,
já era uma notável liderança política
de esquerda. Mas o rapaz, inquieto e visionário, avesso à
política partidária, queria mesmo era ser ator. Ao
terminar o mandato na UNE, em 1981, resolveu, sob protestos dos
companheiros de
militância, sumir do cenário para se dedicar à
cultura e à educação.
Por mais de dez anos, rodou pelo mundo trabalhando na formação
de uma rede internacional de intercâmbio cultural. Hoje, é
dono
de uma conceituada escola construtivista e organizador de um
festival anual com artistas independentes do mundo, o Mercado
Cultural. Ruy realizou ainda o grande sonho de tornar-se ator de
teatro. Sem partido, em silêncio e longe de Brasília,
ele faz muita
política e tem contribuído para o desenvolvimento
sociocultural
do País, ao mostrar para produtores mundiais o que é
produzido aqui e ignorado pelos barões da cultura brasileira.
ISTOÉ – O que é o Mercado Cultural,
que já se realiza
há quatro anos em Salvador?
Ruy Cezar Silva – A idéia foi fazer um ponto
de encontro entre todas
as redes culturais alternativas fora da indústria. O que
é o mangue
beat? O que é o maracatu, o afoxé, o samba do coco?
Ou seja, o
agente ou diretor de um festival não precisa mais viajar
toda a América Latina para encontrar esse material. Ele vem
aqui e assiste de 13
a 15 espetáculos ao dia num curto espaço de tempo.
Em uma semana, eles fazem centenas de contatos, levam material para
preparar um
ano de turnês nas suas regiões. Recebemos 800 CDs por
ano, a maioria de fora do Brasil, de artistas que querem participar
do evento. O fenômeno foi a multiplicação da
presença de especialistas de um
ano para o outro. No primeiro, tínhamos cerca de 120 produtores
culturais, no segundo 250, no terceiro 800, e agora mais de mil.
ISTOÉ – A divulgação é
restrita. Isso é proposital?
Ruy César – O festival é divulgado
boca a boca ou internet a internet, por revistas e sites especializados
em música. A grande imprensa
não é o foco. Nosso foco é promover e dar visibilidade
a trabalhos
de alta qualidade que estão fora da indústria. Os
grupos que participam do Mercado Cultural têm uma trajetória,
uma história, e não são
um fenômeno momentâneo, passageiro. Isso não
nos interessa. Se estivéssemos apresentando 15 grandes estrelas
da música mundial, nenhuma viria a Salvador. Elas vêm
em busca do novo, de descobrir
o que ainda não foi visto. Buscamos o que está faltando,
o que
foi excluído do mercado, e não o que já existe
em excesso.
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