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25/09/2002
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“Nós
não podemos garantir que os testes psicológicos sejam eficazes”
Odair Furtado, presidente do CFP |
Não entendo
como, por duas vezes, fui aprovado e em outra, reprovado”, questiona
Rodrigues. Por causa da disparidade, resolveu entrar na Justiça
para reclamar da falta de critérios, o que, inclusive, limita
as possibilidades de os candidatos pedirem revisão de prova.
“Há cerceamento do direito de defesa”, reclama.
Ele acabou se tornando involuntariamente um expert no assunto, já
que nos três concursos foi obrigado a fazer ao todo 19 testes
na bateria de avaliação psicológica. Uma das
principais críticas de Rodrigues é endereçada
à técnica denominada Dinâmica de Grupo, em que
várias pessoas são avaliadas por um psicólogo.
“A avaliação depende das impressões desse
profissional. Se eu não concordar com o resultado, como outros
psicólogos poderão revisar uma análise tão
particular?”, indaga.
Reprovação
– Há outras distorções. Sargento
do Exército, o gaúcho Cleyton Bell, 28 anos, fez há
três anos o concurso para escrivão da Polícia
Federal. Foi reprovado pelo mau aproveitamento na avaliação
psicológica, feita pelo teste Wartegg (um conjunto de seis
quadrados, nos quais há uma marca colocada em posições
diferentes, serve como ponto de partida para um desenho do candidato).
“Fiquei preocupado e logo depois da reprovação
me submeti ao mesmo teste no consultório de um psicólogo
e fui aprovado”, conta. Este ano, Bell tentou novamente ingressar
na PF, no mesmo cargo. Não foi aplicado o Wartegg e ele passou.
O sargento suspeita que o teste foi descartado no segundo concurso
porque os próprios organizadores da prova teriam concluído
que não era o adequado para a seleção. “Vou
processar os promotores do concurso anterior por danos morais”,
avisa. Os testes aplicados nos concursos são escolhidos a
partir do tipo de vaga a ser ocupada. A idéia é a
de que os promotores usem os testes para tentar identificar qualidades
e habilidades que sejam úteis ao desempenho da função.
Administrador do Centro Editor de Psicologia Aplicada (Cepa), uma
das mais tradicionais editoras de testes psicológicos do
Brasil, Waldyr de Abreu vê com bons olhos a iniciativa do
CFP. “Ela está de pleno acordo com as funções
da instituição”, elogia. “Alguns profissionais
deixaram de considerar conceitos básicos e usam instrumentos
inadequados, sem padronização ou adaptação
para a população brasileira”, lamenta, referindo-se
a testes trazidos do Exterior e aplicados sem as modificações
necessárias. Antes de publicar um teste, o Cepa o aplica
em pelo menos mil pessoas. Outro que critica o uso indiscriminado
do recurso e a falta de adaptação dos testes estrangeiros
à realidade do País é o psicólogo mineiro
Lincoln Bustamante. Ele oferece uma preparação aos
candidatos a concursos públicos para que tenham um bom desempenho.
“De acordo com o teste a que o candidato vai se submeter,
tento identificar seus pontos fracos e desenvolvê-los para
que ele se saia bem.” Bustamante diz que existem, inclusive,
vários sites em que são oferecidos os testes para
quem quiser fazê-los com antecedência.
Denúncia – No início da década
de 50, o Instituto de Seleção e Orientação
Profissional (Isop), da Fundação Getúlio Vargas,
começou a fazer uma análise dos testes, mas o trabalho
foi interrompido há mais de 20 anos. Mesmo assim, o Isop
não era ligado ao Ministério da Saúde ou à
entidade representativa da categoria profissional. Do Rio de Janeiro,
a advogada Lívia Figueiredo enviou, no início do mês,
ao Ministério Público Federal um pedido de providências,
denunciando a inexistência de registro ou fiscalização
pelo Ministério da Saúde, segundo ela órgão
competente para cuidar da tarefa. “É um assunto de
saúde pública, interessa a todos e não pode
ser fiscalizado e regulamentado por um conselho representativo de
uma categoria profissional. O conselho não tem competência
para tratar disso”, argumenta. Lívia entrou na briga
depois de ver um amigo ser reprovado em um dos testes quando fazia
concurso para um cargo na Polícia Federal. Procurada por
ISTOÉ, a Coordenação de Saúde Mental
do Ministério da Saúde admitiu, pela assessoria de
imprensa, que não faz qualquer tipo de avaliação
dos testes existentes no País e atribui ao conselho a competência
para tratar do tema. Mas afirma que poderá considerar o assunto
caso seja acionado “pela sociedade”. A advogada discorda
e reclama da omissão do governo federal. “Essa atitude
é ainda mais grave porque deixa sem fiscalização
um produto cuja lógica está restrita a quem os elaborou
e a quem irá interpretá-los e corrigi-los”,
critica Lívia. De qualquer forma, a iniciativa do conselho
tem o mérito de abrir debate sobre um tema que, por muitos
anos, ficou fechado entre os próprios psicólogos e
que, a partir de agora, talvez passe a ser tratado com o devido
cuidado – pelos profissionais e pela sociedade.
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