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30/08/2002
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| Saúde |
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Os
segredos da obesidade
A ciência intensifica o estudo
de substâncias naturais do corpo em busca de novas opções para
facilitar o emagrecimento |
Mônica Tarantino;
Colaboraram: Lena Castellón e Lia Bock
Antigamente, ter uns quilinhos a mais era comum, até para
mostrar que havia fartura à mesa. Com o tempo, o excesso
de peso perdeu a conotação positiva. Hoje, a obesidade
se alastra e tira o sono dos médicos por causa do impacto
que tem sobre a saúde. Ela facilita o surgimento de doenças
e encurta os anos de vida. Na semana passada, cinco mil especialistas
de várias nacionalidades vieram ao Brasil para dividir essas
preocupações e discutir as estratégias para
vencer os quilos a mais em três eventos internacionais de
porte, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por alguns dias,
o País, onde cerca de 40% da população está
acima do peso, foi o palco mundial da luta contra a obesidade.
Muita coisa pode mudar a partir dessas reuniões, já
que foram divulgados avanços suficientes para reformular
conceitos sobre obesidade. À luz das descobertas, não
dá mais para imaginar que o gordo com dificuldade de emagrecer
ou aquele que recupera peso após fazer um tremendo sacrifício
carece de disciplina. As pesquisas mostram que a fome e a vontade
de comer estão intimamente ligadas a aspectos genéticos
e a hormônios que agora começam a ser mais conhecidos.
“De doze substâncias presentes no corpo que interferem
nesses mecanismos, três têm papel importante: a grelina,
a leptina e o PYY3-36”, diz o endocrinologista Geraldo Medeiros,
autor do livro O Gordo absolvido e presidente do 9º
Congresso Internacional de Obesidade, realizado em São Paulo.
Decifrar esses compostos para aproveitá-los no controle
do peso é a meta dos estudiosos. Um dos mais investigados
é a leptina, fabricada pelas células gordurosas para
provocar a satisfação do apetite. Um estudo, feito
pelo cientista brasileiro Júlio Licínio, da Universidade
da Califórnia, mostrou a falta que a substância faz.
Ele tratou com doses de leptina dois irmãos e um primo de
uma família turca com problemas na fabricação
da substância. Nenhum deles comia exageradamente, mas todos
tinham obesidade mórbida, a mais perigosa e definida por
Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40 (obtém-se
esse índice dividindo-se o peso pela altura ao quadrado).
“Com o nível de leptina restabelecido, emagreceram
em dez meses, sem dieta”, conta Licínio.
A substância também faz parte de uma espécie
de conspiração do corpo para engordar ex-obesos. Quem
defende a teoria é o cientista americano Rudolph Leibel,
da Universidade de Columbia. “A perda do tecido gorduroso,
onde é fabricada a leptina, faz cair a quantidade desse hormônio
e também a queima de energia”, explica Leibel. O resultado
não é nada bom: como o mecanismo que dá o sinal
de saciedade está com defeito, come-se além do necessário
até sentir que chega. Por mecanismos como esse, está
em curso mais uma mudança na compreensão da gordura.
“Ela é um tecido inteligente, que produz dezenas de
substâncias”, diz o endocrinologista Alfredo Halpern,
presidente científico do encontro de São Paulo. Outro
hormônio associado ao apetite, a grelina (fabricada no estômago
para avisar o cérebro que é hora de comer) também
está envolvida nas sabotagens para impedir a perda de peso.
Estudos mostram que os ex-gorduchos apresentam duas a três
vezes mais grelina do que as pessoas que não fizeram dieta.
Isso também não é bom, porque quantidades maiores
de grelina significam mais sensação de fome.
Há
outras substâncias sendo esmiuçadas, entre elas a adiponectina
e o neuropeptídeo Y. “Elas nos ajudam a entender como
é regulado o nosso equilíbrio energético”,
explica o endocrinologista Walmir Coutinho, um dos organizadores
do Simpósio Internacional em Obesidade, Hormônios e
Síndrome Metabólica, que aconteceu no Rio. Porém,
o composto que mais entusiasma os cientistas é o hormônio
PYY3-36, fabricado no intestino após as refeições.
Em um estudo publicado em agosto na revista Nature, pesquisadores
injetaram a substância em voluntários e obtiveram resultados
impressionantes, como a redução de 35% do apetite
durante 24 horas. “É uma descoberta maravilhosa, mas
ainda cumprirá várias etapas de testes até
trazer benefícios práticos”, pondera o médico
Medeiros. Em busca de armas mais eficazes, a ciência se debruça
ainda sobre a genética. O canadense Claude Bouchard, autoridade
no assunto, sustenta que há alta probabilidade de que pacientes
com IMC superior a 33 tenham uma grande predisposição
genética para a obesidade. Até o momento, os especialistas
não identificaram os genes específicos para a doença,
embora contabilizem 60 genes relacionados ao mal.
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