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  BRASIL 16/08/2002
Polícia  

Classe média no tráfico
Polícia do Rio muda de postura e agora procura traficantes também em condomínios da Barra da Tijuca e em bairros da
zona sul carioca

Ricardo Miranda

Celso Meira/Ag. o Globo  
FLAGRANTE Breno Gradel: preso por vender comprimidos de ecstasy  

A polícia do Rio de Janeiro anda atrás de um tipo raro nas delegacias, mas muito conhecido na fauna carioca: o “trafica de condomínio”. Pródiga em fazer batidas nos morros, onde a população mais pobre é refém de comandos de bandidos, a polícia fluminense decidiu nas últimas semanas sair do circuito favela para buscar traficantes em condomínios e bairros charmosos da zona sul e na Barra da Tijuca. Na sexta-feira 16, policiais apreenderam em uma casa no condomínio Nova Ipanema, na Barra, cocaína, maconha, skank, comprimidos de ecstasy e balança de precisão. De quebra, acharam passagens aéreas para cidades como Amsterdã e Frankfurt. Investigado por tráfico internacional, o dono das drogas, o estudante Yan Corte, 19 anos, que vive com os avós, está foragido. No sábado 17, o músico Breno Gradel Ferreira, 30 anos, filho de uma família de classe média da Gávea, na zona sul, foi preso por traficar comprimidos de ecstasy. A polícia da governadora Benedita da Silva (PT) anuncia para breve novas prisões nesse mundinho fechado e protegido. Traficantes de outros dois condomínios, na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, estão sendo investigados por distribuir drogas em boates e em festas rave no Rio e em São Paulo. Os “traficantes do asfalto” caçados pela polícia têm em comum a origem na classe média e o atendimento por telefone, o serviço apelidado de teledroga.

Michel Filho/Ag. o Globo  
O policial mostra drogas apreendidas numa casa no condomínio Nova Ipanema, na Barra: cocaína, maconha, skank, comprimidos de ecstasy e balança de precisão  

“Cada moleque desses que prendemos nós comemoramos como se fosse um chefão do morro”, exagera Marina Maggessi, inspetora-chefe do Serviço de Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil. Para ela, é preciso mostrar que não é só pobre que é preso por tráfico. “Não é o traficante do morro que serve as festas e boates frequentadas pela elite carioca. É o garotão de condomínio que transforma sua casa em um ponto de venda”, explica o delegado José Renato Torres, titular da 16ª DP, a delegacia da Barra. A verdade é que pescar filhotes do tráfico em condomínios fechados do Rio é coisa rara. Tubarões, mais ainda. A polícia sabe que em grandes condomínios de bairros como a Barra da Tijuca há traficantes que compram droga na Rocinha, maior favela da América Latina, com quase 200 mil habitantes, encravada num morro entre o Leblon e São Conrado, vizinho à Barra. As drogas são compradas no largo do Boiadeiro e entregues aos “traficantes do asfalto” de duas formas: venda pura e simples ou consignação. No segundo caso, os traficantes levam as drogas para seus condomínios, vendem o que conseguem e à noite voltam ao morro para acertar as contas. Um papelote de cocaína, com dez gramas da droga, comprada por R$ 10 na Rocinha, é vendido por R$ 50 na Barra. A favela é controlada pelo Comando Vermelho.

Ftávio Magalhães/AE  
PROTESTO A morte de Vado levou ao fechamento de escolas no Cachambi  

Delivery – “Vender drogas entre os amigos não pode ser visto como o bico de um garotão. É parte da engrenagem do tráfico, muitas vezes com ramificações internacionais”, afirma o delegado Torres. Yan Corte fazia viagens mensais para a Europa, segundo a polícia, levando maconha para trocar por comprimidos de ecstasy. Um frasco com 12 comprimidos da droga preferida nas raves é vendido por R$ 560, e o preço unitário varia de R$ 35 a R$ 50. O músico Breno Gradel Ferreira também traficava ecstasy, além de haxixe, maconha e ácido MDMA-4 (metilenedioximetanfetamina, princípio ativo de uma anfetamina usada para produzir o chamado brazilian ecstasy). A polícia apreendeu uma agenda com 100 nomes de consumidores, do Rio e de São Paulo, que usam o chamado delivery (encomenda por telefone).

Reprodução/Ag. o Globo  

Segundo a polícia, o envolvimento de filhos de famílias de classe média alta com o tráfico de drogas aumenta a cada dia no Rio. “A ação policial tem um aspecto educativo importante. A classe média, que todo dia reclama da violência e consome drogas em casa, precisa começar a olhar para o próprio umbigo”, diz o ex-procurador de Justiça José Carlos Biscaia. No caso do estudante Yan, as investigações começaram depois da denúncia do pai de um usuário. Mas a maioria chega por telefonemas anônimos ao disque-denúncia (21-2253-1177). Até quem defende a descriminalização das drogas, como o deputado federal Fernando Gabeira (PT), elogia a “repressão inteligente” da polícia. “Se é para prender, não podem discriminar classe social”, defende Gabeira. Ninguém sabe se as incertas nas “bocas de fumo cinco estrelas”, como são chamadas pela polícia, vão continuar. Mas já estão assustando muita gente.

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