| CIÊNCIA
E TECNOLOGIA
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26/07/2002
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Em nome do filho
Os pais que impulsionam a ciência
e mobilizam
os médicos para estudar doenças hereditárias
Natália Azevedo
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Persistência:
a bancária Maria Odete conta num livro a luta para preservar
os 10% de visão que ainda restam ao filho, Pedro Henrique |
A bancária aposentada Maria Odete Moschen, 54 anos, estranhou
a queda no rendimento escolar do único filho, Pedro Henrique,
14 anos. Ele não prestava atenção às
aulas e levou para casa um boletim repleto de notas baixas. A capixaba
de origem italiana chamou o adolescente para uma conversa e ouviu
o que mais temia: Mãe, não estou enxergando
nada. Maria Odete se desesperou ao pensar na hipótese
de o garoto sofrer de um mal de família que provocou
cegueira em 30 parentes em sete gerações. Uma maldição.
Assim ela se referia à doença da qual nunca procurou
saber o nome ou a origem. Os exames em Pedro Henrique confirmaram
sua suspeita: ele era a mais jovem vítima da intrigante doença
da família Moschen.
A dor da descoberta levou Maria Odete a uma incansável peregrinação
e resultou no livro A trajetória de um sangue. Ela descobriu
que a praga genética chamada doença de Leber é
transmitida da mãe para o filho do sexo masculino e sua família
reúne o maior número de portadores do mal de que se
tem notícia.
De especialista em especialista, Maria Odete só recebia
prognósticos pessimistas. Com uma persistência hereditária,
ela mandou e-mails para 245 instituições. Foi a ONG
americana Fundação Internacional para Doenças
do Nervo Ótico que lhe trouxe a boa notícia: o caso
de sua família seria estudado pela ciência, o que aumentou
sua esperança de encontrar novos tratamentos. No dia 4 de
agosto, os 296 parentes de Maria Odete vão receber o resultado
dos exames de DNA feitos por uma equipe da Universidade Federal
Paulista (Unifesp), em parceria com a organização
americana. Os cientistas querem entender por que alguns portadores
do gene defeituoso ficam cegos e outros não, e se fatores
ambientais influenciam no surgimento dos sintomas. Maria Odete sabe
que o estudo não trará a cura, mas torce para dele
surgirem remédios capazes de preservar os 10% de visão
que restam ao filho.
Assim como ela, o aposentado paulista Luís Carlos Correa,
45 anos, portador da rara doença de Fabry, foi o elo entre
sua família e os pesquisadores da Unifesp. Ao saber da internação
de um sobrinho com insuficiência renal, sintoma comum dessa
doença, Correa deu a partida numa pesquisa entre seus parentes
e descobriu outros 31 portadores do mal de Fabry. A síndrome
afeta uma pessoa a cada 40 mil no mundo e a análise da família
de Correa foi apresentada num congresso sobre doenças hereditárias
em Dublin, na Irlanda. O mais difícil no tratamento
de males raros é reconhecer seus sintomas. O estudo de vários
casos na mesma família ajuda a orientar os médicos
no diagnóstico e no desenvolvimento de novas drogas,
diz o nefrologista Jaelson Guillen Gomes. Mesmo que a cura esteja
longe, as terapias para compensar falhas genéticas hereditárias
começam a mostrar resultados. A reposição enzimática
é um exemplo. Os pacientes que sofrem das doenças
de Fabry e Gaucher recebem injeções de enzimas saudáveis
proteína que metaboliza a gordura no organismo
para substituir as defeituosas, presentes em seu organismo. O método
é aplicado para suprir uma falha em determinado gene que
impede a metabolização de gorduras, que se acumulam
nos vasos sanguíneos e causam problemas renais, cardíacos
e cerebrais, além do inchaço no baço e no fígado.
Há dois anos, os economistas paulistas Daniela, 27 anos,
e Mário Cipriano, 34, souberam que seu filho Felipe era portador
de um mal genético batizado de mucopolissacaridose 1. Aos
dois anos e oito meses, Felipe acaba de iniciar o tratamento com
as injeções de reposição enzimática.
Seus pais são os fundadores de uma associação
que reúne 48 crianças portadoras da mesma doença
em Campinas, interior de São Paulo, e já comemoram
os resultados. Em três semanas, Felipe já anda
melhor e não sente dores nas articulações,
diz Daniela, que não pode esperar pelo processo convencional
de testes de novas terapias. Felipe é um exemplo de
que é possível lutar com as próprias mãos,
diz a mãe, com a satisfação do dever cumprido.
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