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| FHC
não deixa saudade |
O
deputado federal Delfim Netto diz que o presidente
quebrou o País e que a maioria dos brasileiros quer
mudanças na política econômica |
Célia
Chaim
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Delfim: “Governo ‘piromaníaco’ detonou o pânico nos mercados” |
Antônio Delfim Netto tem 74 anos e a eletricidade de um adolescente.
Acorda às cinco da manhã para ler ler não,
estudar , faz caminhadas, palestras, campanha política
para se reeleger deputado federal pelo PPB, o partido de Paulo Maluf.
Ele tem uma cabeça brilhante, frases eternas, conhecimento
indiscutível e um currículo que ocupa páginas
e páginas, desde seu primeiro emprego como auxiliar de escritório,
na indústria Gessy do Brasil. É um economista brasileiro
ilustre e erudito que entrou para a história do País
pelo bem e pelo mal , como Roberto Campos e Mário
Henrique Simonsen. Convidado, em 1967, pelo presidente Costa e Silva,
ocupou o cargo de ministro da Fazenda e ali permaneceu na Presidência
Emílio Garrastazu Médici, sendo ainda hoje apontado
como o ministro mais importante do pior período da ditadura
militar. Seu nome ficou associado à ditadura e à prosperidade:
seu período na pasta da Fazenda coincide com o ciclo de grande
expansão, batizado de milagre econômico,
que foi bom enquanto durou. Delfim Netto sobrevive com certa galhardia
a seus críticos. Não só através do painel
de centenas de suas caricaturas mantido no escritório em
São Paulo, mas pelo reconhecimento unânime de que,
ame-o ou deixe-o, o bordão do governo Médici, ele
é fundamental para a inteligência do País, como
foram Simonsen e Campos. Nesta entrevista a ISTOÉ, Delfim
Netto é Delfim Netto: polêmico, irônico, crítico
e, às vezes, avassalador. FHC deixa o Brasil quebrado.
ISTOÉ O que está acontecendo no mercado
financeiro?
Antônio Delfim Netto Internamente, até abril,
o câmbio se comportava bastante bem, o risco Brasil estava
em torno de 600 pontos, os indicadores eram praticamente iguais
aos de hoje, a relação dívida-PIB era a que
está aí, o Brasil estava crescendo pouco, a taxa de
juros era alta. As coisas estavam razoavelmente incorporadas pelo
mercado, os indicadores não eram maravilhosos, mas todo mundo
tinha se conformado com a dependência externa muito grande.
Aí eu acho que veio o grande problema: o governo virou piromaníaco.
Aquela declaração do presidente de que ou elege
o meu candidato ou o Brasil vai virar a Argentina criou uma
excitação e o que aconteceu foi que o pessoal pôs
o microscópio em cima de indicadores que já existiam.
Depois, o Fernando Henrique requisitou uma carga de coronel do Corpo
de Bombeiros e agora está pondo um pouco mais de calma. Agora,
sim, ele está na posição certa, mas é
um pouco tarde porque a situação externa não
é nada agradável. Ainda que a situação
interna possa até ter algum sintoma de melhoria, eu não
estou tão otimista de que vá ocorrer uma mudança
radical. Os fatores externos são predominantes. Essa agressão
ao bicho vai nos causar problemas porque a nossa dependência
externa é muito grande.
ISTOÉ O mercado tem poder para definir uma eleição?
Delfim O Brasil está funcionando. Podem-se ter
críticas daqui e dali, mas as instituições
estão funcionando. Nós estamos vivendo num regime
democrático e isso significa basicamente que há duas
instituições e não uma só. Não
é só o mercado. O mercado pode ser poderosíssimo,
mas ele tem uma outra instituição que o controla que
se chama urna. Quando o mercado exagera, a urna muda. Quem não
aceita esse fato nega o regime democrático. Dizer que não
pode haver uma transição com o fulano de tal porque
o fulano de tal não sabe nada é de uma arrogância
e de uma pretensão monumental. Se fosse assim, não
precisaria eleição nos Estados Unidos. Eles mandavam
buscar alguém no MIT (Massachusetts Institute of Technology),
entregavam a Presidência para ele e tudo funcionava maravilhosamente
bem.
ISTOÉ E o efeito gangorra da Bolsa, que despenca
quando o candidato do governo cai nas pesquisas?
Delfim Eles (o governo) produziram esse efeito. Já
havia um certo cuidado dos investidores com seus investimentos externos,
uma aversão crescente ao risco. De repente, acontece isso
que está acontecendo nos Estados Unidos: descobre-se que
o mercado financeiro é uma farsa, o que é uma coisa
gravíssima. Os americanos constituíram seu futuro
comprando ações, houve um roubo do futuro das famílias
americanas que terá consequências sobre o consumo,
sobre a perspectiva dos americanos em relação ao futuro.
A combinação desses fatos gera essa confusão
irritante que está aí, atribuindo a queda da Bolsa
e a subida do dólar ao efeito Lula, ao efeito Ciro. Isso,
na verdade, é uma coisa completamente despropositada porque
insiste na idéia de que o mercado é tão poderoso
que determina o resultado da urna. Acho muito pouco provável
que o eleitor aceite. O sujeito que viu nos últimos oito
anos cair a sua renda real, que viu o desemprego crescer, que viu
essa situação produzir uma certa insegurança
física, quer mudança. Dois terços dos brasileiros
disseram que queriam mudar a política econômica.
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