|
Os
dois enigmas
 |
| Sem
crise: Isabel Fillardis e a filha Analuz desfilam no Fashion
Rio |
Que lições se pode tirar de um país que
promove uma semana internacional de moda
com estilistas saídos diretamente de uma favela, mas é
o quarto colocado no vergonhoso campeonato das piores concentrações
de renda do mundo? Na semana em que o dólar rompeu a emblemática
barreira dos R$ 3, os candidatos à Presidência da República
deveriam meditar sobre os números da indústria da
moda no Brasil, que movimenta US$ 22 bilhões, cria milhões
de empregos e dá um show de criatividade que encanta os países
ricos, além de exportar beldades como Gisele Bündchen
e Adriana Lima.
 |
| Em
crise: Armínio Fraga admite que o governo vai fazer
novo acordo com o FMI |
Também deveriam tentar buscar explicações
para os números divulgados pela Organização
das Nações Unidas que provam que a concentração
da riqueza vem piorando ano a ano, apesar de toda a prosa sobre
modernidade e globalização. É impressionante
constatar que no mundial da miséria o Brasil pentacampeão
nos gramados também sobe no pódio. Triste disputa.
Trágico resultado. Estar em companhia de países miseráveis
da África, onde a população vive a morrer em
guerras civis, deveria dar vergonha. Mas, aparentemente, só
temos indiferença. O aumento do dólar, a queda das
Bolsas, o desemprego que explode, a necessidade de um novo acordo
com o FMI. Tudo isso inquieta. Para o onipotente, onipresente e
onisciente mercado ainda temos mais um problema: a eleição
no meio do caminho. Isso sem falar na violência nossa de cada
dia. Tudo inquieta, mete medo, mata. Essa é a metade do enigma
que precisa ser resolvido pelo conjunto da sociedade brasileira.
Entender a outra parte é mais fácil. Basta deixar
fluir a imaginação, a alegria, a vontade de produzir,
de criar, de trabalhar. Nas passarelas, nos campos de futebol, na
música, na indústria, brasileiros empreendedores provam
todos os dias que este país pode acontecer. Quantos exemplos
temos de vitoriosos, gente que rompeu seu destino original, a morte
ou o crime, para sobreviver e brilhar. Se conseguissem responder
o porquê desses dois lados tão distintos do mesmo Brasil,
os candidatos ao Palácio do Planalto talvez pudessem começar
a mudar as coisas e fazer a roda da história voltar a girar.
Ramiro Alves, Editor
|