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  BRASIL 05/07/2002

Anjo do cárcere
Helcio Nagamine  
Livro: Renzo, Emiliano e Clara Charf, viúva de Carlos Marighella, na noite de autógrafos  

De longe, tudo era festa. Muitos abraços, sorrisos carinhosos de velhos companheiros de luta que não perderam a esperança de ver um País mais justo, menos desigual. De perto, uma lágrima ou outra no rosto de alguns convidados traziam à tona o lado mais sombrio da história brasileira: a tortura na ditadura militar. É nesse cenário de terror dos anos 70 que o jornalista e vereador de Salvador Emiliano José (PT) apresenta à sociedade brasileira aquele que foi, além do unguento de muitas dores, peça-chave nas greves de fome dos presos políticos, no contato com as famílias, na luta contra a tortura e pela anistia. No livro As asas invisíveis do padre Renzo Rossi, lançado na quarta-feira 3, em São Paulo, na sede da editora Casa Amarela, Emiliano conta a história de um personagem cuja atuação de resistência e solidariedade foi revelada por ISTOÉ em setembro de 1999 na edição 1561. São 432 páginas sobre Renzo e seu trabalho com os presos políticos. “Pude testemunhar o início da atividade dele nas prisões e sua solidariedade aos presos políticos durante sete anos (de 1974 a 1980), correndo todos os riscos. Ele rodou 14 presídios e dez países do mundo visitando presos e divulgando a anistia”, afirma o escritor.

 

Para Maria Amélia de Almeida Telles, presa e barbaramente torturada no Doi-Codi paulista por ser militante do PcdoB, o padre nascido em Florença, na Itália, mas que se diverte ao afirmar que é baiano, “foi o articulador de uma rede invisível entre os presos”. Emocionado, o candidato do PT ao
governo de São Paulo, José Genoíno, preso
durante a guerrilha do Araguaia, definiu Renzo
como “uma espécie de elixir de esperança e de amor para nós da cadeia. Se existe eternidade, é esse tipo de relação”.

Para esse padre – que não era um progressista em termos doutrinários – correr risco para manter a rede de informações dos presos “era uma coisa normal, que qualquer pessoa poderia ter feito”. Renzo, que deixou o Brasil em 1997, conta que sofreu duas grandes conversões: a primeira delas nos anos 50, quando conviveu com os operários de uma fábrica em Florença, a maioria atéia e ligada ao PC italiano. A segunda, se deu ao estreitar relações com os presos políticos no Brasil. “Eu era um pouco conservador. Mas descobri que aquele que não tem fé é capaz de se sacrificar, enfrentar a prisão, a tortura. Às vezes, Deus permite que alguém perca a fé para recuperar a esperança. Isso ajudou a entender o meu sacerdócio.” O livro será lançado na terça-feira 9, no Mosteiro de São Bento (BA) e na Igreja de São Paulo, na periferia de Salvador, onde Renzo começou seu trabalho religioso no Brasil, nos anos 60.

Ana Carvalho

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