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  BRASIL 14/06/2002
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No front inimigo
Mais de 600 favelas cariocas vivem sob a égide do crime organizado. Seus líderes ditam regras, colocam-nas em prática como decreto à população e executa seus opositores. A questão é: o Estado democrático terá condições de vencê-lo?

Francisco Alves Filho e Marcos Pernambuco

  Carlo Magno
  Vai piorar: o traficante D., da velha guarda do Comando Vermelho: “Os jovens são mais violentos e estão fora do controle”

A guerra pode ainda não ter sido declarada, mas a população das grandes cidades brasileiras, especialmente do Rio de Janeiro, vive numa situação de tensão absurda, medo assumido, pavor mal disfarçado. O estúpido assassinato do jornalista Tim Lopes e a descoberta de que outras 60 pessoas, antes dele, também foram presas, torturadas, julgadas, condenadas e cremadas vivas pelo tráfico, só na área dominada por Elias Malu-co, acenderam todos os alarmes. O poderio bélico, a movimentação financeira, a quantidade de soldados, a corrupção policial, a degradação social, tudo isso fomenta o Estado paralelo que precisa ser combatido.

Usada a partir dos anos 80 para definir o poderio do narcotráfico no Rio, a expressão Estado paralelo não é mais uma figura de linguagem. É difícil achar termo mais fiel às condições em que vivem os moradores das 600 favelas cariocas, governadas por traficantes com leis bem distintas das vigentes no Brasil. Ao contrário do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), da governadora Benedita da Silva (PT) ou do prefeito César Maia (PFL), os chefões desse outro Estado não receberam votos para se investir da autoridade que têm. Eles a conquistaram a tiros de fuzis e metralhadoras, aproveitando-se da quase total ausência do poder público numa terra de ninguém, que ocupa mais de um terço do território carioca, sem contar a populosa Baixada Fluminense. Foi assim no caso da tortura e morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, reconhecido pela quadrilha da favela Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio, quando fazia reportagem sobre um baile funk com sexo explícito e venda de drogas. Os traficantes exerceram o Poder Executivo ao prendê-lo como se fossem policiais, julgaram como magistrados do seu macabro Poder Judiciário e o executaram seguindo as penas criadas por seu Legislativo. “Nesse caso houve realmente uma ação estatal”, admitiu o ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, na segunda-feira 10. Pelos cálculos da Polícia Civil do Rio, o aparato marginal que há anos domina as favelas do Rio movimenta mensalmente cerca de R$ 30 milhões e expande a cada dia sua área de influência, tomando ainda mais espaço do Estado legal.

Fernando Quevedo/Ag. O Globo - S.Viegas  
Terceiro Comando: Uê, preso em Bangu I, é comandante da facção responsável por ações ousadas, como instalar um painel com as letras T.C. em neon no alto da favela Casa Branca, na Tijuca  

O poder paralelo, basicamente dividido pelas facções Comando Vermelho e Terceiro Comando, é tirânico. Sua manifestação mais terrível é a execução das penas às quais são submetidos os condenados pelo tribunal dos traficantes. No episódio de Tim Lopes, um dos carrascos, o motorista levou o repórter ao local da execução, revelou que os bandidos deram uma pancada em sua nuca para fazê-lo desmaiar, deram tiros em suas pernas, que foram depois decepadas com uma espada de samurai. Por fim, teriam colocado seu corpo dentro de um tonel cheio de gasolina e o incineraram. Durante as escavações em busca do corpo de Tim, pelo menos outras seis ossadas foram encontradas, sem que a polícia demonstrasse a menor curiosidade em saber a quem pertenciam, tamanho o conformismo com a existência de cemitérios clandestinos nas favelas. “Nos últimos anos, cerca de 60 pessoas foram executadas da mesma forma nesse local”, estimou o detetive Daniel Gomes, da 22ª Delegacia Policial. É impossível contar o número de anônimos submetidos aos carrascos nos grotões escuros dos morros. O medo impõe o silêncio e são poucos os casos que chegam ao conhecimento da polícia do Estado legal.

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