No
front inimigo
Mais de 600 favelas cariocas
vivem sob a égide do crime organizado. Seus líderes ditam regras,
colocam-nas em prática como decreto à população e executa seus
opositores. A questão é: o Estado democrático terá condições
de vencê-lo? |
Francisco Alves Filho e Marcos Pernambuco
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Vai
piorar: o traficante D., da velha guarda do Comando Vermelho:
“Os jovens são mais violentos e estão fora do controle” |
A guerra pode ainda não ter sido declarada, mas a população das
grandes cidades brasileiras, especialmente do Rio de Janeiro, vive
numa situação de tensão absurda, medo assumido, pavor mal disfarçado.
O estúpido assassinato do jornalista Tim Lopes e a descoberta de
que outras 60 pessoas, antes dele, também foram presas, torturadas,
julgadas, condenadas e cremadas vivas pelo tráfico, só na área dominada
por Elias Malu-co, acenderam todos os alarmes. O poderio bélico,
a movimentação financeira, a quantidade de soldados, a corrupção
policial, a degradação social, tudo isso fomenta o Estado paralelo
que precisa ser combatido.
Usada a partir dos anos 80 para definir o poderio do narcotráfico
no Rio, a expressão Estado paralelo não é mais
uma figura de linguagem. É difícil achar termo mais
fiel às condições em que vivem os moradores
das 600 favelas cariocas, governadas por traficantes com leis bem
distintas das vigentes no Brasil. Ao contrário do presidente
Fernando Henrique Cardoso (PSDB), da governadora Benedita da Silva
(PT) ou do prefeito César Maia (PFL), os chefões desse
outro Estado não receberam votos para se investir da autoridade
que têm. Eles a conquistaram a tiros de fuzis e metralhadoras,
aproveitando-se da quase total ausência do poder público
numa terra de ninguém, que ocupa mais de um terço
do território carioca, sem contar a populosa Baixada Fluminense.
Foi assim no caso da tortura e morte do jornalista Tim Lopes, da
Rede Globo, reconhecido pela quadrilha da favela Vila Cruzeiro,
na Penha, zona norte do Rio, quando fazia reportagem sobre um baile
funk com sexo explícito e venda de drogas. Os traficantes
exerceram o Poder Executivo ao prendê-lo como se fossem policiais,
julgaram como magistrados do seu macabro Poder Judiciário
e o executaram seguindo as penas criadas por seu Legislativo. Nesse
caso houve realmente uma ação estatal, admitiu
o ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, na segunda-feira
10. Pelos cálculos da Polícia Civil do Rio, o aparato
marginal que há anos domina as favelas do Rio movimenta mensalmente
cerca de R$ 30 milhões e expande a cada dia sua área
de influência, tomando ainda mais espaço do Estado
legal.
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| Terceiro
Comando: Uê, preso em Bangu I, é comandante da facção responsável
por ações ousadas, como instalar um painel com as letras T.C.
em neon no alto da favela Casa Branca, na Tijuca |
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O poder paralelo, basicamente dividido pelas facções
Comando Vermelho e Terceiro Comando, é tirânico. Sua
manifestação mais terrível é a execução
das penas às quais são submetidos os condenados pelo
tribunal dos traficantes. No episódio de Tim Lopes, um dos
carrascos, o motorista levou o repórter ao local da execução,
revelou que os bandidos deram uma pancada em sua nuca para fazê-lo
desmaiar, deram tiros em suas pernas, que foram depois decepadas
com uma espada de samurai. Por fim, teriam colocado seu corpo dentro
de um tonel cheio de gasolina e o incineraram. Durante as escavações
em busca do corpo de Tim, pelo menos outras seis ossadas foram encontradas,
sem que a polícia demonstrasse a menor curiosidade em saber
a quem pertenciam, tamanho o conformismo com a existência
de cemitérios clandestinos nas favelas. Nos últimos
anos, cerca de 60 pessoas foram executadas da mesma forma nesse
local, estimou o detetive Daniel Gomes, da 22ª Delegacia
Policial. É impossível contar o número de anônimos
submetidos aos carrascos nos grotões escuros dos morros.
O medo impõe o silêncio e são poucos os casos
que chegam ao conhecimento da polícia do Estado legal.
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