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ISTOÉ Como fazer isso?
Cristovam Proponho os incentivos sociais. Nos incentivos
fiscais, o Estado deixa de arrecadar para que o empresário
invista, crie emprego, crie renda ao pagar salário. Isso
é mentira. Mesmo os incentivos fiscais aplicados corretamente
e não desviados para ranários não conseguem
erradicar a pobreza porque não haverá emprego para
todos. Os incentivos sociais seriam diretos e indiretos: diretos
são os pagos ao pobre para que ele produza. Não é
como no programa dos EUA, que dava renda em troca de nada, nem vale-alimentação
ou vale-gás. Paga-se em troca de produção.
A bolsa-escola não é uma ajuda nem uma política
compensatória. É incentivo social que provoca um produtivismo
social. A mãe ganha para que o filho estude. Faltou à
aula, não recebe. O melhor exemplo de incentivo social que
eu tive no meu governo foi a bolsa-alfa. Pagava-se ao analfabeto
adulto para que ele aprendesse a ler e escrever. O governo comprava
a primeira carta que ele escrevesse em sala de aula. Hoje, os 20
milhões de adultos analfabetos podem aprender a ler com universitários,
que teriam esta função como currículo obrigatório.
Outro exemplo foi a poupança-escola, que era o pagamento
de R$ 100 por ano para cada aluno do setor público que fosse
aprovado e se matriculasse para estudar no ano seguinte. Era uma
poupança que o aluno só sacava quando concluísse
o 2º grau. Cerca de 50 mil crianças receberam essa poupança
durante três anos, mas o atual governador acabou o programa
e ninguém sabe onde está o dinheiro.
ISTOÉ O que fazer com as famílias pobres
com filhos
até cinco anos?
Cristovam A direita propõe o crescimento econômico
para aumentar a renda e possibilitar o pagamento das creches particulares.
A esquerda quer garantir creches para todas as crianças até
cinco anos. As duas são fantasiosas. Para essas crianças
seriam necessárias entre 30 mil e 50 mil creches. O Estado
não tem dinheiro para fazer nem competência para gerenciar
isso. Imagine contratarmos gente para trabalhar em 50 mil creches.
A minha proposta é mais simples e dentro do mercado: garantir
licença remunerada para toda mulher, trabalhadora ou desempregada,
para que ela crie os filhos até cinco anos.
ISTOÉ E os incentivos indiretos?
Cristovam São os que vão para o bolso dos
que não são pobres, mas que vão produzir para
os pobres. Por exemplo: contratar 500 mil professores para o ensino
básico e dobrar seus salários. Este é o único
item caro deste programa. Crianças na escola implica construção
de novas escolas e compra de computadores, o que significa aquecer
o setor de construção civil e de informática.
Ao pôr água e esgoto em todas as casas haveria incentivo
direto e indireto.
ISTOÉ Mas isso é distribuir renda e na
sua tese o problema não está na concentração
de renda?
Cristovam Isso é distribuir renda, mas o que vai
tirar da pobreza não é a distribuição
de renda e sim o aumento da oferta dos bens e serviços essenciais.
Quando, se paga uma bolsa-escola a uma mãe, distribui-se
renda, mas o que vai tirá-la da pobreza é o filho
dela terminar o 2º grau. A distribuição da renda
é meio. Nós temos que sair da armadilha da economia.
Precisamos distribuir renda, mas antes temos que erradicar a pobreza.
A distribuição de renda é difícil de
fazer politicamente, provoca desequilíbrios no aparelho produtivo,
que é feito para um modelo concentrador e ao mesmo tempo
não será suficiente para tirar todos da pobreza. A
bolsa-escola quase nada resolve pelo que paga, mas resolve quase
tudo pela escola. Isso é ruptura no pensamento tradicional
da esquerda e da direita.
ISTOÉ A reforma agrária não seria
a base de todos esses programas sociais?
Cristovam Seria. Ela faz parte do que chamo de projeto
áureo e está dentro da mesma lógica: mobilizar
uma quantidade de terras sem homens e de homens sem terra para que
juntos produzam comida. Isso resolve o primeiro problema da pobreza,
além de gerar renda para aqueles que vão trabalhar
no campo. Esse é um dos itens mais caros do meu projeto,
R$ 5 bilhões por ano. O programa completo de incentivos sociais
que erradicaria a pobreza, incluindo crianças antes dos cinco
anos, bolsa-escola, poupança-escola, jovens, adultos, habitação,
contratação de professores e aumento de salário,
habitação, hospitais, saneamento, tudo isso custaria
R$ 40 bilhões ao ano em dez anos.
ISTOÉ No Brasil só se aboliu a escravidão
porque já não era viável economicamente para
o fazendeiro manter escravos. Hoje, analfabeto também se
tornou um custo a mais para as empresas. É por isso que,
para viabilizar suas idéias, o sr. vem tentando convencer
os banqueiros internacionais de que elas também são
boas para as empresas?
Cristovam Erradicar a pobreza custa pouco e traz vantagens
para o País. Em 20 anos completaremos dois séculos
de independência. Quando os americanos comemoraram o bicentenário,
já tinham mandado 12 homens à Lua, vencido guerras,
eram a maior economia do mundo, tinham educado quase todas as crianças,
não havia fome.
ISTOÉ Não é uma comparação
injusta com um país de
Terceiro Mundo?
Cristovam Não. A pobreza brasileira é culpa
dos brasileiros. FMI e imperialismo podem impedir o crescimento,
mas não são eles os culpados da existência da
pobreza.
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