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 ENTREVISTA
07/06/2002

ISTOÉ – Como fazer isso?
Cristovam –
Proponho os incentivos sociais. Nos incentivos fiscais, o Estado deixa de arrecadar para que o empresário invista, crie emprego, crie renda ao pagar salário. Isso é mentira. Mesmo os incentivos fiscais aplicados corretamente e não desviados para ranários não conseguem erradicar a pobreza porque não haverá emprego para todos. Os incentivos sociais seriam diretos e indiretos: diretos são os pagos ao pobre para que ele produza. Não é como no programa dos EUA, que dava renda em troca de nada, nem vale-alimentação ou vale-gás. Paga-se em troca de produção. A bolsa-escola não é uma ajuda nem uma política compensatória. É incentivo social que provoca um produtivismo social. A mãe ganha para que o filho estude. Faltou à aula, não recebe. O melhor exemplo de incentivo social que eu tive no meu governo foi a bolsa-alfa. Pagava-se ao analfabeto adulto para que ele aprendesse a ler e escrever. O governo comprava a primeira carta que ele escrevesse em sala de aula. Hoje, os 20 milhões de adultos analfabetos podem aprender a ler com universitários, que teriam esta função como currículo obrigatório. Outro exemplo foi a poupança-escola, que era o pagamento de R$ 100 por ano para cada aluno do setor público que fosse aprovado e se matriculasse para estudar no ano seguinte. Era uma poupança que o aluno só sacava quando concluísse o 2º grau. Cerca de 50 mil crianças receberam essa poupança durante três anos, mas o atual governador acabou o programa e ninguém sabe onde está o dinheiro.

ISTOÉ – O que fazer com as famílias pobres com filhos
até cinco anos?
Cristovam –
A direita propõe o crescimento econômico para aumentar a renda e possibilitar o pagamento das creches particulares. A esquerda quer garantir creches para todas as crianças até cinco anos. As duas são fantasiosas. Para essas crianças seriam necessárias entre 30 mil e 50 mil creches. O Estado não tem dinheiro para fazer nem competência para gerenciar isso. Imagine contratarmos gente para trabalhar em 50 mil creches. A minha proposta é mais simples e dentro do mercado: garantir licença remunerada para toda mulher, trabalhadora ou desempregada, para que ela crie os filhos até cinco anos.

ISTOÉ – E os incentivos indiretos?
Cristovam –
São os que vão para o bolso dos que não são pobres, mas que vão produzir para os pobres. Por exemplo: contratar 500 mil professores para o ensino básico e dobrar seus salários. Este é o único item caro deste programa. Crianças na escola implica construção de novas escolas e compra de computadores, o que significa aquecer o setor de construção civil e de informática. Ao pôr água e esgoto em todas as casas haveria incentivo direto e indireto.

ISTOÉ – Mas isso é distribuir renda e na sua tese o problema não está na concentração de renda?
Cristovam –
Isso é distribuir renda, mas o que vai tirar da pobreza não é a distribuição de renda e sim o aumento da oferta dos bens e serviços essenciais. Quando, se paga uma bolsa-escola a uma mãe, distribui-se renda, mas o que vai tirá-la da pobreza é o filho dela terminar o 2º grau. A distribuição da renda é meio. Nós temos que sair da armadilha da economia. Precisamos distribuir renda, mas antes temos que erradicar a pobreza. A distribuição de renda é difícil de fazer politicamente, provoca desequilíbrios no aparelho produtivo, que é feito para um modelo concentrador e ao mesmo tempo não será suficiente para tirar todos da pobreza. A bolsa-escola quase nada resolve pelo que paga, mas resolve quase tudo pela escola. Isso é ruptura no pensamento tradicional da esquerda e da direita.

ISTOÉ – A reforma agrária não seria a base de todos esses programas sociais?
Cristovam –
Seria. Ela faz parte do que chamo de projeto áureo e está dentro da mesma lógica: mobilizar uma quantidade de terras sem homens e de homens sem terra para que juntos produzam comida. Isso resolve o primeiro problema da pobreza, além de gerar renda para aqueles que vão trabalhar no campo. Esse é um dos itens mais caros do meu projeto, R$ 5 bilhões por ano. O programa completo de incentivos sociais que erradicaria a pobreza, incluindo crianças antes dos cinco anos, bolsa-escola, poupança-escola, jovens, adultos, habitação, contratação de professores e aumento de salário, habitação, hospitais, saneamento, tudo isso custaria R$ 40 bilhões ao ano em dez anos.

ISTOÉ – No Brasil só se aboliu a escravidão porque já não era viável economicamente para o fazendeiro manter escravos. Hoje, analfabeto também se tornou um custo a mais para as empresas. É por isso que, para viabilizar suas idéias, o sr. vem tentando convencer os banqueiros internacionais de que elas também são boas para as empresas?
Cristovam –
Erradicar a pobreza custa pouco e traz vantagens para o País. Em 20 anos completaremos dois séculos de independência. Quando os americanos comemoraram o bicentenário, já tinham mandado 12 homens à Lua, vencido guerras, eram a maior economia do mundo, tinham educado quase todas as crianças, não havia fome.

ISTOÉ – Não é uma comparação injusta com um país de
Terceiro Mundo?
Cristovam –
Não. A pobreza brasileira é culpa dos brasileiros. FMI e imperialismo podem impedir o crescimento, mas não são eles os culpados da existência da pobreza.

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