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 ENTREVISTA
07/06/2002
Por uma nova abolição
Cristovam Buarque defende projeto para acabar com a pobreza em uma década ao custo de R$ 40 bilhões por ano
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Liana Melo

  Ricardo Stukert
  Cristovam: “A riqueza não se espalha, concentra-se”

O economista, professor e ex-reitor da Universidade de Brasília Cristovam Buarque fez cerca de 80 viagens internacionais nos últimos três anos. Visitou principalmente quem tem muito dinheiro: megaempresários como Bill Gates e grandes banqueiros como George Soros. Seu périplo é em busca de financiamento para a bolsa-escola, idéia sua implantada quando era governador do Distrito Federal, copiada pelo governo federal e aplicada em vários países da África e da América Latina. Estrela do PT, partido pelo qual é candidato ao Senado, Cristovam ganhou o apelido de Mr. Children por sua insistência em defender escola gratuita e de qualidade. Aos 57 anos, depois que perdeu a eleição para Joaquim Roriz, dedicou-se à ONG Missão Criança, que trabalha para implantar a bolsa-escola pelo mundo. Para o Brasil, ele tem um sonho: terminar com a pobreza até 2022, ao custo de R$ 40 bilhões por ano. “Seria uma nova abolição. No discurso dos presidenciáveis, falta convocar o povo brasileiro para acabar com a pobreza”, provoca.

ISTOÉ – Criança continua sendo sua principal procupação?
Cristovam Buarque –
Continua. Toda criança na escola, toda escola de qualidade. Se fizermos isso, o resto se resolve. É claro que junto tem a erradicação da pobreza. Do ponto de vista conceitual, creio que estou contribuindo ao romper com a visão tradicional de que a pobreza se erradica através do crescimento econômico. Ele é um instrumento fundamental para aumentar a riqueza, não para reduzir a pobreza. Até há algumas décadas, havia lógica e evidências na idéia de que aumentando riqueza se reduziria a pobreza porque a riqueza se espalhava. A riqueza não se espalha, concentra-se. A estrutura econômica força a isso. E a maneira de erradicar a pobreza também não é desarticular a economia dos ricos como se pensava na época da proposta socialista.

ISTOÉ – O que tem que ser feito?
Cristovam –
Manter a economia gerando riqueza. Com os recursos que o setor público arrecada, através da política fiscal, investir diretamente na garantia de cinco bens e serviços básicos: alimentação para todos; conclusão do 2º grau com qualidade; atendimento médico satisfatório; que todos possam pagar um eficiente sistema de transporte público; e moradia com água potável, coleta de lixo e esgoto. Se todos tiverem isso, erradicaremos a pobreza, independentemente do nível de renda.

ISTOÉ – Aumentar o salário mínimo é um bom começo?
Cristovam –
Dobrar ou triplicar o salário mínimo em curto prazo é demagogia. Não pode ser feito porque não há dinheiro para isso no bolo da renda nacional, que hoje é de R$ 1,1 trilhão por ano. Retirando-se a parte de poupança e dividindo-se o restante pela população, dará menos de R$ 700 para cada um, mas, para isso, quem ganha acima desse valor terá que reduzir o salário. Aí quebra a economia brasileira, que foi montada para atender à demanda dos ricos e não às necessidades dos pobres. Estas não serão contempladas através do mercado nem da renda do trabalhador porque o salário mínimo não vai subir a ponto de o cidadão pagar a escola privada para o filho, ou seguro de saúde, muito menos colocar água e esgoto na própria casa. Mesmo mantendo o mínimo atual, pode-se garantir que todo mundo tenha escola de qualidade para os filhos, água e esgoto em casa, um satisfatório sistema de saúde e comida. FHC disse que este não é um país pobre, é um país injusto. Não. Somos um país terrivelmente injusto e razoavelmente pobre porque a renda está concentrada de maneira imoral. A solução para o problema da pobreza não está no salário e sim na garantia de que todos terão acesso a bens e serviços essenciais. É mais ou menos como na época da escravidão. A abolição não aconteceu para aumentar a renda do escravo nem para resolver um problema de crescimento econômico. Era uma questão ética.

ISTOÉ – O que o sr. propõe?
Cristovam –
Um conjunto de programas que podemos chamar de projeto áureo da abolição da pobreza. Por exemplo: mobilização dos desempregados para que produzam para acabar com a pobreza. Keynes fez isso nos anos 30, nos EUA, quando o governo dava uma renda ao desempregado para a sua manutenção porque lá já tinha escola e saúde. Lá, ele era desempregado. Aqui é pobre. A diferença entre o desempregado e o pobre é que o primeiro não tem renda, mas tem água na torneira, escola para os filhos.

ISTOÉ – Miserável não seria a melhor definição?
Cristovam –
Nenhuma dessas palavras é boa. A melhor é excluído. Mas não importa a palavra e sim o conceito que identifica quem não tem escola, comida, transporte, saúde e uma moradia com água, coleta de lixo e esgoto. A economia definiu uma linha da pobreza horizontal. Abaixo dela todos são pobres. Mas a linha tem que ser vertical. À esquerda dela estão os excluídos, é uma questão de posição social. Quem ganha menos de um dólar por dia, segundo definição econômica internacional, é pobre. Mas há muita gente que ganha acima desse valor por dia e continua muito pobre porque não tem escola para os filhos, sistema de saúde, água potável ou esgoto no barraco.

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