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  INTERNACIONAL 24/05/2002
Timor Leste

O nascimento de uma nação
Depois de quatro séculos e meio de domínio estrangeiro,
país conquista independência praticando democracia à
espera de dias melhores
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Rosely Forganes (texto e fotos) – Díli (Timor Leste)

Rosely Forganes  
Herói: O líder da resistência e atual presidente Xanana Gusmão vestindo trajes típicos de guerreiro liurai  

Ao se transformar no mais novo país independente do planeta no domingo 19, o Timor Leste finalmente pôs fim a 450 anos de domínio estrangeiro sobre o território, mas, sobretudo, a 24 anos de brutal ocupação militar indonésia, que provocou o extermínio de quase um terço da população, cerca de 200 mil pessoas. Segundo o Congresso Judaico americano, o genocídio cometido no Timor é, proporcionalmente, o pior desde o holocausto nazista. Quando o Exército indonésio finalmente se retirou, em outubro de 1999, forçado pela pressão internacional, depois de um plebiscito em que a esmagadora maioria dos timorenses optou pela independência, deixou um país arrasado, queimado, pilhado, destruído em cerca de 90%. Nenhuma escola, nenhum hospital, nem casas ficaram para contar a história. Destruído, mas livre. “Queimado, queimado, mas agora nosso”, diziam na época os timorenses, ao contemplar o país reduzido a cinzas. As Nações Unidas governam o Timor desde novembro de 1999, com um governo transitório comandado pelo diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Enquanto a maioria dos países do Terceiro Mundo que saíram de processos de libertação manteve a luta armada durante anos ou acabou em ditaduras, o Timor vem dando um exemplo de democracia. Mal iniciada na vida política, a jovem nação já demonstra um pluralismo que outros países, como a França, levaram séculos para alcançar. Por exemplo: o governo do Timor e a maioria dos deputados da Assembléia Nacional pertence a um partido político, a Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin). Já o presidente Xanana Gusmão é de outra agremiação. Ou melhor, oficialmente de nenhuma, até agora.

Aliás, as relações entre Xanana Gusmão e a Fretilin, da qual ele já foi um dos dirigentes, estão péssimas. O presidente eleito e o futuro primeiro-ministro, Mari Alkatiri, nem se falam, a não ser o estritamente necessário. A Fretilin fez de tudo para que a vitória de Xanana fosse a menos esmagadora possível. O Timor é, provavelmente, um caso único no mundo onde um partido que conquistou a maioria das cadeiras no Parlamento não se atreveu a lançar um candidato próprio à Presidência. A final, Xanana ainda é o grande herói nacional, e lançar um candidato contra ele poderia ser politicamente perigoso para a Fretilin.

Xanana e Alkatiri têm concepções diferentes da democracia e do funcionamento das instituições. A Fretilin considera que, com a maioria dos votos, pode governar sozinha. Xanana acha que, mesmo sob a direção da Fretilin, todas as forças políticas devam estar representadas numa espécie de governo de “união nacional”. O primeiro-ministro não quer saber e já ameaçou se demitir. Já Xanana hesitou muito antes de se candidatar à Presidência, como o país inteiro clamava. Ele só registrou a candidatura meia hora antes do encerramento do prazo. Uma verdadeira tortura para vários outros políticos, que estavam com a papelada pronta, mas só entrariam na disputa se Xanana não fosse candidato. Ninguém quer concorrer contra o líder da resistência. O único que se atreveu – mais por dever cívico de evitar que Xanana fosse candidato único, o que diminuiria o brilho da vitória – foi Xavier do Amaral, ex-presidente da efêmera República Democrática do Timor Leste (RDTL), em 1975. Sem a menor ilusão de vencer, Xavier fez uma campanha digna e acabou levando 17% dos votos.

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