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  CIÊNCIA E TECNOLOGIA 24/05/2002
Arqueologia

  André Lobo
Expedição: Mello reproduzirá tumbas

No Brasil, apenas uma instituição possui especialização na linha filológica, voltada para o estudo dos textos. Desde 1989, a Universidade Federal Fluminense, em Niterói, oferece pós-graduação nesse campo, ensinando a escrita do tempo dos faraós. À frente desse trabalho está o historiador Ciro Flamarion Cardoso, autor de Sete olhares sobre a antiguidade. Entre os amantes do Egito Antigo, ele é reverenciado como a maior autoridade no Brasil. Cardoso fez doutorado na França e domina com maestria a língua egípcia antiga. “São pouquíssimos os estudiosos brasileiros que sabem ler os hieróglifos”,
diz Cardoso.

Na seleta turma dos especialistas em escrituras sagradas está a historiadora Margaret Bakos, da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre. “A fascinação pelas criações dos antigos egípcios muitas vezes se dá a partir da escrita”, conta. O seu trabalho, entretanto, vai além dos textos. Ela pretende discutir a egiptomania no País para entender o que leva tantas pessoas a se sentirem atraídas por pirâmides, tem plos e objetos típicos. “Elementos da cultura egípcia foram reutilizados por aqui. Como o obelisco, um símbolo de perpetuidade”, explica. No Brasil atual, a egiptomania continua forte. Prova disso é o sucesso das exposições montadas no País no ano passado. O egiptólogo Antônio Brancaglion, professor do Museu de Arte de São Paulo (Masp), ajudou a montar as exposições Egito Faraônico, da Casa França-Brasil, na Faap, que teve um público de 400 mil pessoas, e da coleção do Museu do Louvre no Masp, exposição vista por 200 mil pessoas. “Os brasileiros estão entre os cinco grupos que mais visitam o Egito”, revela Brancaglion.

Para ser um egiptólogo também é possível trilhar o difícil caminho da arqueologia. Quem não gostaria de bancar o Indiana Jones? Maurício Schneider e Cláudio Prado de Mello participaram de uma escavação francesa. Ambos trabalharam para o egiptólogo francês Alain Zivie no sítio arqueológico de Saqqara, no Sul do Cairo. “Retirava escombros e fazia a reconstrução de sarcófagos”, lembra Schneider, que aproveitou a ocasião para estudar os hieróglifos in loco. Explorar o Egito tinha seus inconvenientes. No verão, o calor e as moscas não deixam ninguém trabalhar em paz, e escavar é realmente uma árdua aventura. Ainda mais porque tudo o que é descoberto passa a ser propriedade da missão, já que não existe uma equipe brasileira. Brancaglion sustenta que um sítio arqueológico nas mãos dos brasileiros colocaria o País em melhor situação. “O Uruguai e a Argentina têm grupos escavando no Egito. Possuem mais tradição em egiptologia”, justifica.

Sipa Press  
Ao decifrar a Pedra de Roseta, o francês Champollion forneceu as bases para a compreensão dos hieróglifos

Egito para iniciantes – Uma forma de ampliar esse conhecimento é a criação de cursos para leigos. O engenheiro carioca Júlio Gralha planeja abrir este ano um programa aos que sonham estudar hieróglifos. Ele fez mestrado com Ciro Flamarion Cardoso e integra o Centro de Egiptologia do Clube Naval, no Rio. É por meio da instituição que quer ampliar o círculo de candidatos a especialistas. “Comecei a estudar egiptologia aos 20 anos. Cacei livros para entender o que era verbo, artigo, onde uma palavra se iniciava e terminava”, recorda-se. Gralha agora quer passar esse conhecimento
a outros.

Schneider também se esforça para oferecer alternativas aos que desejam saber mais sobre este intrigante universo. Ele acaba de colocar no ar o site www.egitovirtual.com, com um dicionário virtual do Egito antigo. Coordenador do Instituto de Egiptologia (www.institutodeegiptologia.hpg.com.br), com sede no Rio, Prado de Mello fará uma segunda viagem ao sítio de Saqqara. O francês Alain Zivie o convidou para dar continuidade ao trabalho de reprodução das paredes das tumbas escavadas. Além de egiptólogo, o brasileiro é artista plástico. Ele levará na bagagem pincéis, espátulas e canetas especiais. Seu trabalho deve ser incluído num livro preparado pela equipe francesa. “Talvez eu seja o primeiro brasileiro a ter o nome numa publicação de egiptologia”, afirma. Que os deuses o ajudem nessa missão.

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