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  CIÊNCIA E TECNOLOGIA 24/05/2002
Arqueologia

Kathia Tamanaha/AEAs palavras dos deuses
Pesquisadores brasileiros se especializam em hieróglifos, a complexa escrita sagrada dos faraós, e mostram que a história do Egito Antigo vai muito além das pirâmides

Tradutor ISTOÉ de hieróglifos

Lena Castellón

 
Relíquia: O brasileiro Schneider coordena um museu itinerante

Diz a lenda que a terrível esfinge, criatura alada que misturava o corpo de mulher ao de leão, se postava na entrada da cidade de Tebas e propunha um enigma aos moradores. Decifra-me ou te devoro. Quem não soubesse a resposta era aniquilado. O monstro se apresentou com essa mesma ordem a Édipo, o mitológico herói grego, que acertou a adivinhação e despachou o bicho para sempre. Possivelmente, estudiosos de diversas eras também se sentiram devorados pelo enigma formado por uma série de símbolos que compõem os hieróglifos, a escrita sagrada egípcia estabelecida 3.200 anos antes de Cristo. Tinham ânsia de saber o que a civilização que floresceu no vale do rio Nilo queria dizer com aqueles desenhos curiosos de animais, plantas, objetos e seres humanos presentes principalmente em
tumbas e monumentos.

Na história real, quem se transformou no Édipo dos hieróglifos foi o linguista francês Jean-François Champollion, que dominava os mais variados idiomas. Em 1822, ele decifrou o enigma estampado numa peça de basalto, a famosa Pedra de Roseta, que continha três versões de um mesmo texto, sendo que uma delas era em grego, língua que conhecia. A partir desse feito, os especialistas compreenderam a complexa estrutura da escrita egípcia. Com o fim do mistério nascia uma ciência dedicada ao estudo do Egito Antigo, a egiptologia. No mundo científico, a busca por esse passado até hoje rende novidades. No início de maio foi descoberta a 110ª pirâmide, num sítio arqueológico localizado na capital Cairo. Em abril, anunciou-se o encontro de um suposto registro figurativo, o qual sugere que a escrita pode ter nascido no Egito antigo, e não na Mesopotâmia, como se acredita. Os ideogramas egípcios são um conjunto de desenhos estilizados com mais de cinco mil anos de idade. Suspeita-se que as figuras estejam ligadas ao rei Escorpião, personagem que teria existido antes da formação das dinastias egípcias e que ganhou versão “anabolizada” no filme homônimo atualmente em cartaz.

Reprodução  
Papiro: O julgamento final dos mortos em trecho de livro sagrado egípcio

Da pirâmide aos desenhos estilizados, estas notícias percorrem como rastilho de pólvora os círculos internacionais de egiptologia, entre eles o Brasil. Há quem diga que dom Pedro II foi o primeiro egiptólogo do País. Em 1871, o imperador visitou o Egito, para onde voltou em 1876. Registros históricos mostram que o imperador entendia um pouco dos significados da escrita. Há por aqui representantes especializados em hieróglifos. São pessoas capazes de traduzir estelas (espécie de coluna com inscrições) e textos em papiros, uma tarefa nada fácil. Afinal, para dominar a escrita hieroglífica não basta decorar os 700 sinais que compõem a estrutura clássica do idioma – há tantas variações dos símbolos que, se forem somadas, chegam a cinco mil ideogramas. “Muitas palavras mudaram com o tempo. Na egiptologia existem estudiosos para diversas áreas e há quem estude a língua do antigo reino”, diz o arqueólogo carioca Cláudio Prado de Mello, especializado em egiptologia.

Gramática – Como se as evoluções linguísticas já não fossem desafio suficiente para os historiadores, ainda é preciso estar atento às normas gramaticais. Sabe-se que existiam regras para a escrita, que pode ser lida da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e de cima para baixo, o que nos soa como um verdadeiro samba do escriba doido. E os textos contêm estruturas como preposição e artigo, e os gêneros masculino ou feminino. “Existe a teoria de um especialista americano que aborda a forma como se usavam os tempos verbais”, conta o historiador curitibano Maurício Schneider, cujo trabalho de doutorado na Universidade de São Paulo trata de tumbas do período saita, iniciado cerca de 600 anos antes de Cristo. Schneider, que coordena um museu itinerante com relíquias egípcias, recorreu à ajuda internacional para trilhar seu caminho na egiptologia. Um de seus dois orientadores é o americano Ray Johnson, da Universidade de Chicago, que acompanha a distância o aprimoramento de suas traduções.

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