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 ENTREVISTA
24/05/2002
‘‘Sou um cadáver caro’’
Na mira de um crime por encomenda, Denise Frossard diz que tem medo de morrer e lança estudo que mostra o aumento de mulheres no tráfico
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Aziz Filho e Eliane Lobato

Renato Velasco  
Pesquisa: Denise Frossard constatou que as mulheres encabeçam quadrilhas de fraudadores do INSS  

Exatamente em 21 de maio, dia em que completou nove anos da histórica sentença na qual a juíza Denise Frossard condenou toda a cúpula do jogo do bicho à prisão máxima por formação de quadrilha (seis anos), o ex-PM Jadir Simeone Duarte prestou depoimento no IV Tribunal do Júri, no Rio de Janeiro, e contou que receberia R$ 1 milhão para executar a juíza. A “encomenda”, feita por Rogério Andrade, deveria ser “entregue” após o assassinato, ocorrido em outubro de 1998, do primo Paulinho de Andrade, filho do capo do bicho carioca Castor de Andrade, um dos condenados por Frossard. A juíza escapou porque Jadir foi preso logo após assassinar Paulinho, comprometendo a execução da segunda parte do plano. Até quando? “Não sei. Mas acho que me tornei defunto caro”, diz ela.

Aposentada há cinco anos, Denise está voltada para trabalhos da filial brasileira da Transparência Internacional – ONG sediada em Berlim, dedicada ao combate à corrupção – e também para sua campanha para deputada federal pelo PSDB e para as pesquisas sobre criminalidade. Ela acaba de concluir o primeiro estudo sobre a participação da mulher no crime organizado no Brasil, revelado a ISTOÉ nesta entrevista. Em cada 100 presidiárias condenadas, 60 estão incursas na Lei dos Tóxicos; entre os homens, a proporção cai para 15 em cada 100 condenados, “o que permite afirmar que o tráfico de drogas é feminino”. A mulher também se destaca, para o mal, nas fraudes contra o INSS, chefiando praticamente todas as quadrilhas. O trabalho será publicado no livro Donne di mafia, pela Universidade de Palermo, na Itália, com autores de vários países.

Aos 50 anos, Denise é hoje uma das mais habilitadas especialistas do Brasil em corrupção e crime organizado, com cursos no FBI e participação em eventos como o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Candidata a deputada federal, ela explica por que escolheu se filiar ao PSDB: “Me considero uma conservadora esclarecida.” Sua primeira experiência nas urnas foi em 1998, quando concorreu ao Senado pelo PPS. Não ganhou, mas não deixou de sair vitoriosa. Foram 700 mil votos, nada mal para uma estreante cujos gastos de campanha, segundo seus cálculos, não passaram de R$ 35 mil. Uma de suas bandeiras é combater a arrecadação obscura para campanha.

ISTOÉ – Já foram divulgados alguns planos de pessoas interessadas em matá-la. A sra. tem medo?
Denise Frossard –
É lógico que tenho, sou humana.

ISTOÉ – O ex-PM Jadir Simeone Duarte acaba de confessar em depoimento que foi contratado para matá-la, mas não cumpriu
a tarefa porque foi preso antes. A sra. tinha conhecimento
desse plano?
Denise –
Soube por uma carta escrita por ele mesmo há dois meses. É necessário investigar essa história. Essas coisas assustam qualquer pessoa, mas acho que hoje em dia me matar não é um bom negócio porque a relação custo-benefício não compensa. Sou um cadáver caro.

ISTOÉ – A mulher brasileira está presente no crime organizado?
Denise –
Organização criminosa do tipo mafioso, no Brasil, é identificada em dois setores: jogo do bicho e fraudes contra a Previdência. No primeiro caso, a mulher ocupa papel coadjuvante. No segundo, é chefe da maioria das quadrilhas. Na criminalidade de modo geral, ela também se destaca. Entre a população carcerária feminina já condenada, 60% estão incursas na Lei de Tóxicos, por uso ou tráfico. Entre os homens, a proporção cai para 15%, segundo o Ministério da Justiça. Isso permite afirmar que o tráfico de drogas é feminino. A mulher ocupa papel de ponta no mercado varejista, vendendo entorpecentes pelas ruas ou então transportando-as até em viagens internacionais.

ISTOÉ – E no bicho, elas têm poder?
Denise –
Confirma-se a regra: onde há crime violento, as mulheres não são protagonistas. Temos poucos casos. Um é o da Arlete, filha do “banqueiro” José Baptista da Costa, o China da Saúde, que disputava poder com o irmão após a morte do pai. Ela desapareceu. Outra presença pode ser constatada na dinastia de Raul Capitão, através de Suely Correia de Mello, julgada e condenada por homicídio. Também integrante da cúpula, José Caruzzo Escafura, o Piruinha, teve 12 filhos e, ao que consta, todos trabalhavam com o pai, inclusive as filhas. As mulheres dos banqueiros não sucederam seus maridos quando eles foram presos. Até porque a cúpula jamais deixou de comandar os negócios, mudando apenas o endereço do bunker, que passou a ser a própria prisão.

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