| EDUCAÇÃO
& CIDADANIA
|
26/04/2002 |
Escreveu, não leu…
Acusada de cometer equívocos em
livro, a professora Zilda Iokoi se defende e propõe novos rumos
para o ensino de história
Camilo Vannuchi
| |
 |
| |
Zilda
Iokoi: “Na hora de editar, muita coisa foi cortada e os
erros apareceram. Foi uma maldita infelicidade”
|
Um cartaz chama a atenção de quem visita o prédio
do departamento de história da Universidade de São
Paulo. Escrito em letras coloridas, um velho ditado popular: Escreveu,
não leu, o pau comeu. A frase se dirige à chefe
do departamento, Zilda Grícoli Iokoi, 55 anos, alvo de críticas
na imprensa desde o dia 31 de março. Naquela edição
da Folha de S. Paulo, a coluna do jornalista Elio Gaspari
listou pela primeira vez 14 erros encontrados em um dos livros de
Zilda, O Brasil atual e a mundialização (Edições
Loyola, 1997), quinto volume da coleção paradidática
História temática retrospectiva. No livro,
os nomes do senador americano McCarthy e do ex-presidente Eisenhower
foram grafados McArthur e Eisenhauer e a anistia política
aparece como se tivesse sido assinada em 1988 (o correto é
1979). Estes erros não impediram que a Secretaria de Educação
do Estado de São Paulo indicasse a obra para um concurso
de admissão de professores.
Assim que leu a coluna, Zilda colocou o cargo de chefe à
disposição do departamento o que foi recusado
pelos colegas e acertou com a editora o recolhimento da publicação.
O episódio mostrou o perigo que livros mal revisados trazem
para a formação do aluno e os critérios duvidosos
que movem as instituições responsáveis por
zelar por sua qualidade. De volta à rotina, Zilda ainda não
se refez do linchamento público de que foi vítima,
como gosta de dizer. É moda bater nos professores.
Não precisava chamá-los de idiotas, repreende.
ISTOÉ Como surgiu a coleção História
temática retrospectiva?
Zilda Iokoi Percebemos que um dos maiores obstáculos
para o ensino de história era o racismo. Na rede pública,
os negros são considerados baderneiros, enquanto os descendentes
de imigrantes são vistos como detentores de cultura. Estudamos
os negros, os índios, os movimentos sociais e a conquista
dos direitos e fizemos quatro livros. O quinto, O Brasil atual e
a mundialização, seria a síntese e eu me encarreguei
de escrevê-lo. Em vez de apresentar a história cronológica
do Brasil, traz uma análise da influência no País
dos acontecimentos internacionais.
ISTOÉ Traçar a história a partir
dos movimentos sociais é positivo?
Zilda Este é o modelo da nova historiografia,
desenvolvida sob uma concepção marxista. Não
devemos estudar o passado pelo passado nem simplesmente apresentar
informações. A base da história está
nos movimentos sociais. Não foram os parlamentares que incentivaram
a assinatura da Lei Áurea. A abolição da escravatura
nasceu de uma luta popular que obrigou o governo a criar a curadoria
dos negros e deu a eles muitos ganhos de causa. Esta forma de trabalhar
a história tem uma proposta política: dar à
população da periferia uma expectativa de futuro.
Não dá para estudar o governo Fernando Henrique sem
estudar o MST. Ele só assenta gente porque existe um movimento
social pressionando.
ISTOÉ A maioria dos livros didáticos
de hoje faz isso?
Zilda A maioria ainda segue a história do ponto
de vista das elites. Inovar é muito difícil. A indústria
de livros didáticos é poderosíssima. Para muitos
autores, é mais cômodo agradar ao Ministério.
Alguns vendem um milhão de livros quando indicados. Mas os
parâmetros curriculares estão cada vez mais positivos.
Promover conexões com diferentes áreas do conhecimento
é uma de suas propostas. Elio Gaspari cismou com um trecho
do livro em que afirmo que Gláuber Rocha era mais tolerante
com os militares do que com a esquerda. Ele fez uma revolução
no cinema, mas demonstrava simpatia pelo projeto militar, principalmente
por Geisel. E achava que a esquerda fazia patrulha ideológica.
ISTOÉ Como aconteceram os erros?
Zilda Ainda estávamos escrevendo quando as Edições
Loyola toparam publicar os livros e estipularam um prazo curto para
entrega. Tive de me debruçar sobre os outros quatro e o meu
ficou sem revisão. Na hora de editar, muita coisa foi cortada
e os erros apareceram. Foi uma maldita infelicidade. Tenho 30 anos
de atividade e já escrevi 500 coisas. Notei que havia problemas
assim que o livro saiu. Íamos corrigir para a segunda edição,
mas a Secretaria da Educação indicou o livro como
bibliografia para um concurso de ingresso de professores e mais
de dois mil livros foram comprados.
ISTOÉ Por que a editora preferiu vender os livros
assim mesmo?
Zilda Não sei. Denota, talvez, uma certa inexperiência
do grupo. A Loyola foi muito positiva, mas, em determinado momento,
permitiu falhas.
ISTOÉ Como Gaspari soube?
Zilda Alguém deve ter sugerido a pauta. Vamos
supor que ele tenha espontaneamente resolvido ler um paradidático.
Normalmente, quando os leitores percebem erros, escrevem para a
editora. Ele preferiu produzir um artigo, fazendo dos erros uma
campanha, que seria muito positiva se realmente contribuísse
para melhorar a avaliação dos materiais de ensino,
o que é necessário. Eu estava em um congresso nos
Estados Unidos e soube da coluna lá. Fiquei incomodada por
ele promover um linchamento público sem avaliar o conjunto
da obra.
ISTOÉ A sra. não acha justo que ele questione
a escolha de um livro com erros para um concurso?
Zilda Deveria perguntar para a comissão o motivo
da escolha. Cada livro tem um problema. Um é muito factual,
outro é abstrato. Mas não precisava chamar os professores
de idiotas. É moda bater neles. O artigo de Gaspari desqualificou
toda a rede pública.
ISTOÉ Qual foi sua atitude após ler o texto?
Zilda Ainda dos Estados Unidos, liguei para o diretor
da faculdade e coloquei meu cargo à disposição.
Ele não aceitou. Discutimos o assunto em plenária
e novamente abri mão da chefia. Os professores recusaram
e redigiram um documento manifestando confiança na minha
integridade. Até os alunos, com quem travo constantes conflitos
por conta de temas como a proibição de bebida alcoólica
no departamento, demonstraram repúdio ao tratamento dado
ao caso.
ISTOÉ Na faculdade há uma faixa com a frase
Escreveu, não leu, o pau comeu.
Zilda Esta foi uma minoria na plenária realizada
pelos estudantes. Em nenhum momento eles foram tolerantes comigo
dizendo que podia haver erros. Mas, na assembléia, houve
80 votos de apoio e 20 contrários.
ISTOÉ A sra. nunca notou um erro em um livro e
teve o impulso de chamar o autor de estúpido?
Zilda Estúpido é o autor que não
consegue formular uma proposta. No curso de história, a gente
aprende a ler todos os autores para descobrir os pontos com os quais
concordamos ou discordamos. Os adversários nos ensinam a
argumentar. No meu tempo, tínhamos o vício de não
ler os adversários. Eu leio Gaspari.
|