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  BRASIL 26/04/2002
Sucessão

Jogo de empurra
Candidatura de José Serra é questionada pela base
governista e enfrenta críticas até de membros do
governo, como o ministro Malan

Weiller Diniz

  Ricardo Stuckert
 
Furacão: O senador Serra se equilibra para fugir da crise: fogo amigo é o maior problema da pré-campanha

Os biólogos classificam os tucanos como aves pesadas, sem grande autonomia, que necessitam sempre pousar para intercalar os vôos. Deslocamentos de grandes distâncias são um problema. A compleição da ave parece se assemelhar à candidatura do senador José Serra (PSDB-SP). Uma campanha tão longa foi tudo o que os tucanos tentaram evitar para fugir do desgaste. O que acendeu a luz amarela foram as pesquisas feitas após a implosão da candidatura de Roseana Sarney (PFL). Os tucanos apostavam que a maioria dos votos de Roseana cairia no colo de Serra. Não aconteceu, e o nervosismo passou a comandar os humores do PSDB.

As três pesquisas divulgadas após a renúncia de Roseana são coincidentes. A maioria dos votos do PFL migrou para a oposição. “O problema é que o Serra ficou inerte”, diz o secretário-geral do PMDB, Eunício Oliveira (CE). “Ele está péssimo. Outro, com a estrutura de governo, estaria perto dos 30%”, critica o adversário Inocêncio Oliveira (PFL-PE). “Acho excelente. Em abril, Serra tinha 6%, agora tem 18%”, rebate o líder do governo, Artur da Távola (PSDB-RJ). “A pauta é muito pesada, negativa, e não se está fazendo política”, arrisca o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), referindo-se ao tripé de adversidades enfrentadas por Serra: a área econômica do governo, a desconfiança do PMDB e o modesto desempenho nas pesquisas, mesmo estando hoje no segundo turno.

Diferenças – Rivais no antagonismo entre “monetaristas” e “desenvolvimentistas”, José Serra e a área econômica não andam falando a mesma língua. Enquanto o candidato à Presidência verbalizava suas críticas aos critérios de reajuste dos combustíveis, foi surpreendido pelo aumento do preço da gasolina e de outros serviços, como a energia elétrica. Em seguida, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, anunciou a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Aumento de impostos e tarifas não transfere um voto sequer ao candidato tucano. Malan foi além. Esta semana, em Nova York, tangenciou a seara política. Sem mencionar o nome de Serra, cobrou que o candidato do governo tenha “um maior grau de afinidades eletivas com aquilo que este governo veio tentando fazer nos últimos sete anos”.

Na esfera política, a ansiedade dos tucanos também aumenta. Há 20 dias, o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu a cúpula do PMDB e dos tucanos para tentar apressar a indicação do nome do vice. Acertaram que os dirigentes das duas legendas tentariam superar a belicosa convivência entre os dois partidos em vários Estados. Nada foi feito. Ao contrário, pipocaram novos conflitos entre os noivos. Em São Paulo, Orestes Quércia, que controla o PMDB no Estado, anunciou que disputará o governo paulista, fechando as portas para o governador Geraldo Alckmin (PSDB). No Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB) quer disputar o Senado ao lado do candidato Garotinho. No Acre, o senador Nabor Júnior (PMDB) se irritou com uma liberação de R$ 40 milhões do BNDES para o governador Jorge Viana, do PT, apoiado pelo PSDB. Em Alagoas, o PSDB está lançando um candidato com 2% nas pesquisas, o usineiro João Tenório, que inviabiliza a composição com o PMDB de Renan Calheiros. No Mato Grosso, o ex-governador Dante de Oliveira (PSDB) não retorna as ligações para discutir uma aliança com o PMDB do senador Carlos Bezerra.

O exemplo mais emblemático está na Bahia. O acordo pelo qual tucanos e PMDB se uniriam em torno do deputado Benito Gama (BA) para enfrentar o arquiinimigo Antônio Carlos Magalhães (PFL) foi feito no dia 1º de março. FHC demitiria todos os apadrinhados de ACM que ainda ocupam cargos federais. Ficou na promessa e Benito saiu do páreo. Os chefões do PMDB também estão irritados com a sucessão de vetos aos nomes indicados para vice de Serra. O PMDB apresentou dois nomes: os deputados Henrique Eduardo Alves (RN) e Luís Henrique da Silveira, ex-prefeito de Joinville (SC). Serra insiste no senador Pedro Simon (RS) ou na deputada Rita Camata (ES).

Serra enfrenta ainda uma sistemática conspiração de parte do PFL para desestabilizá-lo (leia entrevista do prefeito Cesar Maia à pág. 7). O partido fez uma pesquisa interna, e, dos 118 deputados do PFL, apenas seis aceitam apoiar Serra. De outro lado, 90% da pefelândia apoiaria um outro tucano, como Tasso Jereissati (PSDB-CE) ou Aécio Neves (PSDB-MG). Até o cordato PPB recusou o apoio formal a Serra. Dentro do partido, há quem defenda a saída do candidato tucano. “O Serra não decola. A solução é lançar Aécio (presidente da Câmara) e como vice o deputado Michel Temer (PMDB-SP)”, defende o líder do baixo clero Severino Cavalcanti (PPB-PE). Com tantos flancos, Serra terá de se desdobrar em três para fechar o acordo com o PMDB, driblar a área econômica e trazer de volta o PFL.

De caçador à caça
Leopoldo Silva
Cifrado: Em Nova York, Malan solta o verbo e cobra “afinidades eletivas”

procurador Roberto Santoro ficou conhecido na investigação que levou à cassação do deputado Hidelbrando Pascoal (AC) e por outros casos de combate à corrupção. Agora, pode passar de investigador a investigado. Na segunda-feira 22, o Conselho Superior do Ministério Público recomendou à Corregedoria do MP que investigue as ligações de Santoro com o candidato José Serra (PSDB-SP), baseado em dois casos: a denúncia do lobista Alexandre Paes Santos sobre cobrança de caixinha de campanha no Ministério da Saúde, onde Santoro trabalhava, e o episódio da Lunus. Segundo o relatório, Santoro não tinha designação para atuar na empresa de Roseana Sarney. “Não atuei na Lunus. O Mário Lúcio (procurador de Tocantins) me pediu orientações e só”, diz ele. O que chamou a atenção do Conselho foram as viagens de Santoro a
Palmas (TO).

As últimas coincidem com a blitz na empresa da então governadora e de seu marido, Jorge Murad. Nenhuma das autorizações de viagem menciona o caso Lunus. No ano passado, quando Alexandre Paes dos Santos denunciou a existência de uma caixinha para o pré-candidato Serra, Santoro escolheu o procurador responsável pelo caso. De denunciante, o lobista passou a ser o alvo da investigação. As peças que levantam suspeitas sobre Santoro não explicitam o nome de Serra, mas insinuam a possibilidade de “assessoria a pessoa de notória posição política”. “Ao contrário de outros, não tenho vinculações políticas. Investigo roubalheiras”, afirmou Santoro. É mais um caso que expõe a guerra interna no MP.

Weiller Diniz

 


Por Maurício Bernis
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