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  BRASIL 26/04/2002
Diplomacia

Faça o que eu mando
Pressão dos EUA e desinteresse brasileiro tiram
Bustani do controle de armas químicas

Eduardo Hollanda e Hélio Contreiras

  Serge Ligtenberg/AP
 
Para Bustani, seu afastamento é um precedente perigoso

A política externa do governo de George W. Bush fez, na terça-feira 23, mais uma vítima: o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, que dirigia a Organização para a Prescrição das Armas Químicas (Opaq). Bustani foi destituído do cargo depois que uma votação comandada pelos EUA decidiu, por 48 votos a favor, sete contra e nada menos que 43 abstenções, pela sua demissão. Eleito por unanimidade para o cargo em 1997, quando a Opaq foi criada, o embaixador Bustani em cinco anos aumentou o número de países membros da Opaq de 87 para 145 e, mais importante, estabeleceu um amplo programa de inspeção e destruição de armas químicas em todo o mundo. Sob a direção dele, a Opaq conseguiu a eliminação de pelo menos 15% dos estoques mundiais de armas químicas.

Mas os esforços de Bustani para que o Iraque, acusado pelos EUA de produzir e estocar armas químicas, se tornasse membro da Opaq o colocaram em rota de colisão com Washington. Entrando para a organização, o Iraque passaria a ser regularmente visitado pelos inspetores da Opaq, restabelecendo o regime de inspeções de armas que foi realizado pela ONU até 1998. Naquele ano, Saddam Hussein rompeu com a ONU, acusando os inspetores de serem “espiões” dos EUA. “Uma solução pacífica tiraria dos americanos o principal argumento para um ataque ao Iraque”, reforça Bustani. “Washington prefere ter o Iraque como inimigo”, emendou um embaixador a ISTOÉ. Bustani argumenta que Washington se recusou a aceitar uma composição entre a ONU e a Opaq para que se unificassem as regras de inspeção – segundo os EUA, a ONU é mais rigorosa – para permitir que o arsenal de destruição em massa do Iraque fosse inspecionado e eliminado. “Fui vítima de um linchamento porque contrariei a vontade unilateral dos americanos. O precedente coloca em risco qualquer organismo internacional”, acusa Bustani.

Para piorar a situação, o Brasil demorou a tomar uma atitude firme em defesa de seu diplomata, que estava licenciado do Itamaraty, cedido ao organismo internacional. Em troca da destituição de Bustani, funcionários americanos de segundo escalão chegaram a surgerir que o Brasil assumisse o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, em substituição à irlandesa Mary Robinson. “Basta verificar os votos dos países latino-americanos para constatar se houve ou não empenho do governo brasileiro. Quando o próprio governo brasileiro diz que a direção da Opaq não é importante para o Brasil, sinaliza para os outros países que não deseja o apoio deles”, disse a ISTOÉ o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-diretor do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais do Itamaraty.

Na verdade, Bustani se insere em um difícil xadrez que o Brasil cada vez mais vai ter de jogar contra os EUA e a política hegemônica de Bush. Situações como o frustrado golpe contra Hugo Chávez na Venezuela, onde o Brasil comandou, no Grupo do Rio, a reação à quartelada e colocou os EUA em situação difícil, são casos onde a diplomacia brasileira considerou importante enfrentar os americanos. Embates como o do aço, por exemplo, também estão na lista de prioridades do Itamaraty e até dos políticos – do governo ou da oposição. “O Brasil defendeu o embaixador Bustani? Sim. Pode não ter sido como gostaríamos, mas, diante do adversário, foi o possível”, admite o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).


Por Maurício Bernis
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