| Faça
o que eu mando |
Pressão dos EUA e desinteresse
brasileiro tiram
Bustani do controle de armas químicas |
Eduardo Hollanda e Hélio Contreiras
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Para Bustani, seu afastamento é um precedente perigoso
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A política externa do governo de George W. Bush fez, na
terça-feira 23, mais uma vítima: o diplomata brasileiro
José Maurício Bustani, que dirigia a Organização
para a Prescrição das Armas Químicas (Opaq).
Bustani foi destituído do cargo depois que uma votação
comandada pelos EUA decidiu, por 48 votos a favor, sete contra e
nada menos que 43 abstenções, pela sua demissão.
Eleito por unanimidade para o cargo em 1997, quando a Opaq foi criada,
o embaixador Bustani em cinco anos aumentou o número de países
membros da Opaq de 87 para 145 e, mais importante, estabeleceu um
amplo programa de inspeção e destruição
de armas químicas em todo o mundo. Sob a direção
dele, a Opaq conseguiu a eliminação de pelo menos
15% dos estoques mundiais de armas químicas.
Mas os esforços de Bustani para que o Iraque, acusado pelos
EUA de produzir e estocar armas químicas, se tornasse membro
da Opaq o colocaram em rota de colisão com Washington. Entrando
para a organização, o Iraque passaria a ser regularmente
visitado pelos inspetores da Opaq, restabelecendo o regime de inspeções
de armas que foi realizado pela ONU até 1998. Naquele ano,
Saddam Hussein rompeu com a ONU, acusando os inspetores de serem
espiões dos EUA. Uma solução
pacífica tiraria dos americanos o principal argumento para
um ataque ao Iraque, reforça Bustani. Washington
prefere ter o Iraque como inimigo, emendou um embaixador a
ISTOÉ. Bustani argumenta que Washington se recusou a aceitar
uma composição entre a ONU e a Opaq para que se unificassem
as regras de inspeção segundo os EUA, a ONU
é mais rigorosa para permitir que o arsenal de destruição
em massa do Iraque fosse inspecionado e eliminado. Fui vítima
de um linchamento porque contrariei a vontade unilateral dos americanos.
O precedente coloca em risco qualquer organismo internacional,
acusa Bustani.
Para piorar a situação, o Brasil demorou a tomar
uma atitude firme em defesa de seu diplomata, que estava licenciado
do Itamaraty, cedido ao organismo internacional. Em troca da destituição
de Bustani, funcionários americanos de segundo escalão
chegaram a surgerir que o Brasil assumisse o Alto Comissariado da
ONU para os Direitos Humanos, em substituição à
irlandesa Mary Robinson. Basta verificar os votos dos países
latino-americanos para constatar se houve ou não empenho
do governo brasileiro. Quando o próprio governo brasileiro
diz que a direção da Opaq não é importante
para o Brasil, sinaliza para os outros países que não
deseja o apoio deles, disse a ISTOÉ o embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães, ex-diretor do Instituto de Pesquisas
em Relações Internacionais do Itamaraty.
Na verdade, Bustani se insere em um difícil xadrez que o
Brasil cada vez mais vai ter de jogar contra os EUA e a política
hegemônica de Bush. Situações como o frustrado
golpe contra Hugo Chávez na Venezuela, onde o Brasil comandou,
no Grupo do Rio, a reação à quartelada e colocou
os EUA em situação difícil, são casos
onde a diplomacia brasileira considerou importante enfrentar os
americanos. Embates como o do aço, por exemplo, também
estão na lista de prioridades do Itamaraty e até dos
políticos do governo ou da oposição.
O Brasil defendeu o embaixador Bustani? Sim. Pode não
ter sido como gostaríamos, mas, diante do adversário,
foi o possível, admite o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
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