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& ESPETÁCULOS |
26/04/2002 |
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| Cinema |
Meu ódio será tua herança
Abril despedaçado, de Walter Salles,
conta em ritmo lento
a história de duas famílias rivais que vivem num ciclo de
vingança e morte no sertão nordestino
Ivan Claudio
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Santoro
e Ravi (abaixo):
ótimas atuações como dois
irmãos agricultores
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Abril de 1910. No varal de roupas da decadente fazenda de cana-de-açúcar
da família Breves, perdida em algum lugar do sertão
nordestino, uma camisa branca manchada de sangue ondula ao vento
como se fosse um espantalho. É uma das primeiras imagens
de Abril despedaçado (Brasil/França/Suíça,
2001), o aguardado filme de Walter Salles, que finalmente estréia
no País, em grande circuito, na sexta-feira 3, depois de
passar na Inglaterra e nos Estados Unidos e ser o concorrente brasileiro
às indicações ao Oscar de melhor filme em língua
estrangeira. Inflada pelo vento, a camisa parece adquirir vida.
Era a peça usada pelo filho mais velho dos Breves ao ser
baleado por um membro do próspero clã rival, os Ferreira,
criadores de gado. Há tempos as duas famílias vivem
um ciclo de morte e vingança na briga pelas terras da região.
Segundo os rituais desta guerra entre vizinhos, quem mata um rival
tem os dias contados. Justamente o tempo que
a mancha de sangue da camisa da vítima leva para amarelar.
Depois da viagem transformadora da personagem de Fernanda Montenegro
pelo Nordeste em Central do Brasil, Walter Salles retorna
à mesma paisagem árida e castigada para narrar uma
história quase mítica, com toques de tragédia
clássica. Seu herói agora se chama Tonho, brilhantemente
interpretado por Rodrigo Santoro, um jovem de 20 anos que aguarda
a morte anunciada sem sequer ter conhecido a vida. Obrigado pelo
pai (José Dumont) a saldar a dívida de sangue do irmão
assassinado, Tonho mata Isaías Ferreira (Servílio
de Holanda) numa emboscada. O resto de seus poucos dias passa a
ser a espera pela sentença final. Salles encontrou este enredo
de ressonâncias épicas no romance homônimo do
escritor albanês Ismail Kadaré, publicado em 1982,
que ganhou de presente do irmão João, também
cineasta. Li Abril despedaçado e não
conseguia mais esquecer a história daquele rapaz que o pai
impele a cometer um crime que ele não quer, em relação
a um destino que ele não deseja, contou o diretor a
ISTOÉ.
Não se trata de uma transposição literal
do romance, passado na região montanhosa da Albânia
nos anos 30. Mas Kadaré adorou o resultado. Como é
normal em adaptações cinematográficas, personagens
foram excluídos ou viraram outros, caso do par de viajantes
que no filme se transformou numa dupla circense o palhaço
Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) e a engolidora de fogo Clara
(Flavia Marco Antonio), por quem Tonho se apaixona, numa desesperada
fuga das tradições que
o aprisionam. Apesar das mudanças, o cerne do romance foi
mantido. Melhor ainda: soa completamente brasileiro. Nos estudos
preliminares para a adaptação, os roteiristas Sérgio
Machado e Karim Aïnouz descobriram que muitos rituais de vingança
retratados por Kadaré
e determinados pelo rigoroso código de honra Kanun eram os
mesmos
do sertão nordestino, inclusive o uso da camisa ensanguentada
da vítima. Também o clima de ódio vivido entre
os fictícios Berisha e os Kryeqyg
do romance foi encontrado em famílias reais, como os Monte
e os Feitosa, do Ceará, retratados no livro Lutas de famílias
no Brasil,
de Luiz Aguiar da Costa Pinto.
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