| ARTES
& ESPETÁCULOS |
26/04/2002 |
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| Televisão
I |
Do fundo do coração
Documentário sobre a biblioteca
de Mindlin emociona e esclarece
Luiz Chagas
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Mindlin:
vida dedicada à aquisição de livros raros, primeiras edições,
manuscritos e documentos originais |
Para muitos, é um tesouro incalculável. Para seu
criador e guardião, uma manifestação de loucura
mansa. É assim que o empresário paulistano José
Mindlin se refere ao seu amor pelos livros, que deu origem à
sua famosa biblioteca,
hoje composta de 28 mil itens, nos quais predominam documentos raros
e originais e primeiras edições. Parte deste universo
pode agora ser vislumbrado e saboreado no vídeo Biblioteca
Mindlin um mundo em páginas, realizado pela documentarista
paulistana Cristina Fonseca, a ser exibido pelo canal pago Rede
SescSenac de Televisão (STV) neste sábado 27 e pela
TV Cultura no dia 25 de maio, sempre às 21h. Inspirada no
célebre Toute la mémoire du monde, documentário
de Alain Resnais, de 1956, Cristina desejava contar a história
do livro do papiro ao e-book. No entanto, parafraseando Drummond,
o empresário, sua mulher, Guita, e a biblioteca que criaram
acabaram surgindo não como uma pedra no meio do caminho,
mas como o próprio caminho. Durante dois anos, Cristina reuniu
36 horas de imagens e depoimentos
de intelectuais como Antonio Candido, Arlindo Machado e Boris Schnaiderman,
o poeta Haroldo de Campos e o escritor José Saramago. Também
filmou os diretores Nelson Pereira dos Santos e Jean-Claude Carrière
falando das ligações entre livro e cinema, o crítico
Sábato Magaldi discorrendo sobre livro e teatro e as artistas
plásticas Maria Bonomi e Renina Katz relacionando livro e
arte. Em momentos mágicos, ainda ouviu a cantora Maria Bethânia
declamando, em participação expressiva, poemas de
João Cabral de Melo Neto. Comparo a emoção
de entrar na Biblioteca de Mindlin com a primeira vez que vi um
Van Gogh, confessa ela.
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Cristina,
a autora, e Maria
Bethânia: magia
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O trabalho de 54 minutos é dividido em três blocos:
O que vem do mar, com foco sobre as obras raras, incunábulos
(primeiros exemplares logo após a invenção
da imprensa por Gutenberg), livros de viajantes sobre o Brasil e
literatura portuguesa; O que vem das florestas, rios e cidades,
centralizando o modernismo brasileiro, as vanguardas e a brasiliana
de Mindlin, considerada a mais completa do País; e O que
vem do sertão, no qual discute tudo o que é árido,
do concretismo ao livro eletrônico. É um resultado
que surpreende, encanta e motiva. Afinal, aquela que é considerada
a maior biblioteca particular da América Latina e um dos
mais importantes acervos particulares do mundo transforma-se em
imensa metáfora da ânsia do saber. Logo no início
do vídeo, Mindlin que numa sessão para convidados,
realizada na semana passada, usava uma gravata-livro surge
sorridente na tela dizendo: Entrei pela primeira vez numa
livraria aos oito anos, num sebo aos 12 e logo comecei a criar a
minha própria biblioteca. O ensaísta Antonio
Candido diz que os livros de Mindlin não foram adquiridos
com dinheiro, mas com o coração. É com a mesma
devoção que Cristina Fonseca revela detalhes tão
preciosos.
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