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 ENTREVISTA
26/04/2002

ISTOÉ – O sr. parte do pressuposto de que aquele dinheiro todo era captação de financiamento eleitoral?
Cesar –
Tenho certeza. Isso deveria ter sido feito pelo próprio partido. A improvisação foi o principal responsável pelo amadorismo dos fatos.

ISTOÉ – E agora, quais são os caminhos do PFL?
Cesar –
Com a verticalização das alianças, o PFL trabalha em dois cenários. O primeiro é com o atual quadro de candidatos, em que o PFL não terá candidato e vai liberar suas seções regionais. O outro cenário é com a hipótese de nomes novos. O PFL poderia apoiar um candidato novo dentro da base do governo.

ISTOÉ – Isso significa pressionar o PSDB para substituir José Serra por Aécio Neves, por exemplo?
Cesar –
Não, o Tasso Jereissati. E não é pressionar. Se os fatos demonstrarem que a melhor alternativa é apresentar outro nome como o Tasso, o PFL vai estar aberto. A probabilidade hoje é muito pequena e um partido como o PFL deve trabalhar com os fatos, em vez de agredi-los. Por isso a opção de não ter candidato, liberar as coligações regionais, é amplamente majoritária.

ISTOÉ – Para um partido tão acostumado a ser governista, essa opção não é muito perigosa?
Cesar –
Não. Se o governo fosse a alternativa mais forte, você poderia dizer que os pragmáticos estariam prontos para aderir, mas não é o caso. A opção pelo governo é de risco. Mais fácil para os pragmáticos é ser contra o governo. O governo tem problemas para ir ao segundo turno e terá enormes dificuldades para vencer, porque políticos da dimensão de Antônio Carlos Margalhães, José Sarney, Paulo Maluf não estarão com Serra. O pragmatismo nessa conjuntura não leva ao adesismo.

ISTOÉ – Não existe a hipótese de o PFL apoiar outro candidato, como Ciro Gomes ou Anthony Garotinho?
Cesar –
Não há hipótese, pelas dificuldades da verticalização. Isso, sim, produziria uma fratura. O PFL é uma confederação de grupos regionais, de inspiração liberal, de centro ou conservadora, que delega à direção nacional um poder que tem como amálgama uma grande bancada federal consciente de que a unidade é a razão da força do partido e de cada um dos parlamentares. Então o PFL tem um limite, que é a fragilização dessa bancada montada regionalmente.

ISTOÉ – A queda do senador ACM e da família Sarney no cenário nacional foi um golpe em duas oligarquias. Não é positivo para
o País?

Cesar –
Não posso acreditar num sistema que manipula a Policia Federal para montar escuta e espionagem e destruir a candidatura de um parceiro. Havia 100 telefones grampeados numa investigação de tráfico no Maranhão, que não tem aeroporto internacional, não é ponto de atracação de navios internacionais a não ser dos que levam minério, não é passagem de droga para a Europa nem para os Estados Unidos. É risível imaginar que um expediente desses signifique luta contra as oligarquias.

ISTOÉ – Isso não mostra que o PFL precisa de uma reciclagem?
Cesar –
O que o PFL precisa é pensar a longo prazo numa disputa de poder nacional. Se a candidatura Roseana tivesse sido organizada já no fim das eleições de 2000, a situação seria outra. Em 2000, o PFL foi alijado pelo PSDB de ser o maior partido no Congresso e parceiro preferencial. Foi retirado das mesas da Câmara e do Senado. Talvez o erro tenha sido não entender que já em 2000 deveríamos buscar uma alternativa própria. Isso só veio depois da exclusão do PFL da Mesa da Câmara, com a derrota de Inocêncio Oliveira para Aécio Neves. Os que imaginaram que aquela decisão do PSDB era isolada, não teria consequências, atrasaram o processo. O PFL hoje sabe que precisa ser alternativa de poder nacional e vai se preparar desde já, para daqui a quatro anos.

ISTOÉ – O sr. tem a pretensão de ser o candidato?
Cesar –
Não estou dizendo isso, mas é claro que qualquer político tem ambição. Os nomes vão surgir das urnas. Se eu eleger o governador do Rio, sou um nome natural, mas se meu candidato só tiver 3%, é claro
que não sou.

ISTOÉ – Sarney e ACM vão apoiar Lula no segundo turno
contra Serra?

Cesar –
Não tenho dúvidas. E não serão só esses setores.

ISTOÉ – Por que o PFL não pode lançar outro candidato?
Não tem nomes?

Cesar –
Por falta de tempo. Nomes o partido tem. O próprio senador Antonio Carlos seria forte, imediatamente. Em 30 dias estaria cabeça a cabeça com Serra, Ciro e Garotinho. Mas uma candidatura não se constrói em poucos meses, é com tempo, programaticamente.

 

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