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 ENTREVISTA
26/04/2002
O PFL vermelho
O prefeito do Rio, Cesar Maia, admite apoiar Lula no primeiro turno e diz que José Serra traz instabilidade e Garotinho é uma loteria
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Aziz Filho

Carlos Magno  
Cesar com Lenin ao fundo: “Lula e a direção do PT estão prontos para governar”  

Quando assumiu pela segunda vez a Prefeitura do Rio, em janeiro do ano passado, o economista Cesar Maia deu sinais de que trocaria a personalidade espalhafatosa que o consagrou como um maluco beleza criador de factóides por um comportamento sóbrio, com maturidade política e menos surpresas. De fato, o alcaide reduziu a produção de notícias amalucadas, mas não se livrou da vocação para o imprevisível. Depois de coordenar a natimorta candidatura de Roseana Sarney, o mais novo cacique do PFL pisca escancaradamente para o PT de Lula. A paquera começou tímida no segundo turno de 2000, ao receber o apoio da hoje governadora Benedita da Silva. Agora, acena com a retribuição. Para ele, José Serra ou Ciro Gomes seriam mais instáveis do que Lula na relação com o Congresso Nacional. Já o PT poderia “governar o Brasil totalmente sem sobressaltos”, desde que conseguisse enquadrar suas bases radicais, como faz em São Paulo e no Rio Grande do Sul. “O PT é um partido social-democrata, europeu, clássico”, define.

De olho no vácuo aberto à direita pela trapalhada do PFL no cenário nacional, Cesar descarta completamente uma aliança com Serra e diz que o partido deve trabalhar desde já uma candidatura forte para 2006. Ainda não admite publicamente o sonho de se projetar como o nome para levar o PFL ao Planalto como protagonista e não mais como coadjuvante, mas trabalha nessa direção. “Todo político deve ter ambição.” Aos 56 anos – completa 57 em 18 de junho, mesmo dia em que o presidente Fernando Henrique faz 71 –, o prefeito segue uma disciplina rigorosa, com leitura compulsiva de todas as pesquisas e o acompanhamento de todos os processos eleitorais relevantes no mundo. Apesar de comportado, Cesar continua surpreendendo. Em seu amplo gabinete no Piranhão, apelido da sede da prefeitura carioca, Cesar trabalha cercado por 40 cartazes da revolução soviética, que ele comprou em 1986, quando estava no PDT. Uma excentricidade para quem disputou eleições prometendo ser um misto de Jânio Quadros e Carlos Lacerda.

ISTOÉ – As pesquisas apontam Lula acima do tradicional teto dos 30%, projetando uma vitória no segundo turno. É a hora de Lula?
Cesar Maia –
É isso mesmo. O Brasil está há quatro anos em recessão e com crescimento medíocre. Isso tirou do governo a capacidade de gerar esperança. A população reconhece os méritos, mas é muito difícil projetar esperança nesse quadro. Isso abriu um grande campo para a oposição e o PT ocupou inteiramente esse espaço. Quando Ciro Gomes e Anthony Garotinho correram para esse campo, ele já estava ocupado.

ISTOÉ – O desgaste do governo pode abrir caminho para dois candidatos de oposição no segundo turno?
Cesar –
É possível, até porque a candidatura Serra confunde o eleitor. É governo, mas acha que pode ser diferente. A população não entende, é como usar o mesmo terno mudando a gravata. O governo está desgastado para propor algo como “fique comigo que vou ser melhor”. Se fosse uma recessão pontual, de um ano ou um ano e meio, poderiam dizer que tinham respondido bem a uma crise conjuntural, como a crise asiática. Mas depois vem a crise russa, a cambial, a crise argentina, o apagão. Como as crises são sucessivas, o eleitor desconfia que a crise é o próprio governo. Se a CPMF for plenamente cobrada, teremos uma carga tributária de 35% do PIB, uma carga nórdica para serviços de Terceiro Mundo. A cada ano a carga tributária tem crescido de 5% a 10% acima da inflação, enquanto o PIB cresce 2%. Como os pobres não podem pagar mais impostos e a classe média está empobrecida, cobram dos empresários e afetam a competitividade.

ISTOÉ – O sr. assumiu a coordenação da campanha de Roseana Sarney depois do escândalo da Lunus. Não se sentiu um síndico de massa falida?
Cesar –
A campanha só tentou se organizar depois dos fatos e foi quando eu assumi. Se tivéssemos organizado antes, nada disso teria acontecido. Numa campanha organizada, você tem as responsabilidades atribuídas, não tem nenhum tipo de captação feita por quem não é autorizado. O fato é que a Roseana resistiu muito e só admitiu a candidatura em janeiro. Isso atrasou demais a montagem da coordenação, as responsabilidades.

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