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& ESPETÁCULOS |
12/04/2002 |
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| Cinema
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A estrada perdida
Com Cidade dos sonhos, David Lynch
retorna esplendidamente ao seu estilo bizarro numa trama absurda,
enigmática e desnorteante
Ivan Claudio
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Lynch
dirigindo os atores
(ao centro) e... |
É noite. Uma limusine negra, mais parecida com um carro
funerário, serpenteia lentamente pela Mulholland Drive, uma
estrada sinuosa que corta a área montanhosa de Los Angeles,
onde ficam as mansões de nove entre dez estrelas hollywoodianas.
Elegantemente acomodada no banco de trás, uma morena lindíssima
exibe ares de Rita Hayworth. Súbito, o carro pára
e o motorista aponta uma arma para a vistosa mulher. Mas não
tem tempo de dispará-la. Antes, é atingido por um
conversível apinhado de adolescentes, no auge de um racha
desenfreado. Todos morrem, menos a mulher, que sai do carro e desce
cambaleante as encostas da estrada. Basta esta cena inicial de Cidade
dos sonhos (Mulholland Drive, Estados Unidos/França,
2001), cartaz nacional a partir da sexta-feira 19, para o espectador
ser completamente enredado pela atmosfera misteriosa e mórbida
imaginada pelo diretor americano David Lynch, o mestre do bizarro,
que volta esplendorosamente ao estilo depois de um ligeiro desvio
naturalista no sensível Uma história real.
Semelhante a um pesadelo recorrente, a trama surrealista surpreende
a todo momento com cenas absurdas, enigmas insolúveis e personagens
que se transmudam em outras sem a menor justificativa dramática.
Tudo muito David Lynch. A história, passada nos dias de hoje,
mas cheia de referências artificiais ao passado, começa
como um filme noir, seguindo os passos da morena vivida por Laura
Harring. Vítima de amnésia, ela busca refúgio
num apartamento da Sunset Boulevard a referência à
obra-prima de Billy Wilder não aparece por acaso. Enquanto
toma banho, ela é surpreendida pela loiraça Betty
Elms (Naomi Watts), um clone de Grace Kelly recém-chegada
a Los Angeles para tentar a carreira de atriz. Perguntada sobre
seu nome, a morena olha na parede um cartaz do clássico Gilda,
e diz que se chama Rita, de Rita Hayworth, a protagonista. A exemplo
da personagem da fita de Charles Vidor, a falsa Rita é uma
mulher fatal que inspira confusão só pelo jeito com
que vira os olhos ou acende um cigarro.
Quando começa a recuperar a memória, Rita cisma
que se chama Diane Selwyn. Cada vez mais interessada no drama da
nova amiga, enquanto faz seus primeiros testes nos estúdios,
Betty ajuda a morena a desvendar seu passado e, juntas, começam
a investigar o que nem a polícia suspeita. O périplo
das duas que acabam se apaixonando as leva ao corpo
em putrefação da suposta Diane e a um teatro chamado
Silencio, onde acontecem estranhíssimos shows de dublagem.
Apesar das aparições insólitas de um produtor
anão, de um cáuboi fantasma de falas enigmáticas
e de um homem perseguido por um pesadelo que sempre termina com
a visão de um mendigo horroroso, até a metade Cidade
dos sonhos é um filme sem grandes problemas de compreensão.
Mas, de uma hora para outra, o enredo de clichês propositais
e criativamente reciclados começa a trocar os sinais. O que
parecia normal passa a exibir uma contra-face perversa e corrompida.
É como se a própria amnésia da personagem de
Rita fosse transferida para a cabeça do espectador.
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...Laura
com Naomi: crítica à fábrica de sonhos de Hollywood
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Sarcasmo Tudo pode ser real ou delírio psicopata
da loira. Mais interessante, porém, é enxergar o filme
como uma sarcástica crítica à fábrica
de sonhos de Hollywood, equiparada a uma máfia em que diretores
e atrizes se vendem por muito pouco e produtores ditam as regras
pela lei do gatilho. Especialistas em bastidores do cinema americano
garantem que a personagem de Betty foi inspirada na atriz canadense
Marie Prevost conhecida pelos filmes mudos de Mack Sennett
e pelas comédias sofisticadas de Ernst Lubitsch , encontrada
em decomposição no seu apartamento, em 1937.
Embora nunca tenha realizado uma produção num grande
estúdio, o cineasta de A estrada perdida conhece muito
bem o ambiente corrompido da meca cinematográfica. A própria
produção acidentada de Cidade dos sonhos é
a melhor prova. Filmada ao custo de US$ 8 milhões, mas só
finalizada devido ao aporte de mais US$ 7 milhões vindos
do Canal + francês, a fita foi concebida para ser piloto de
uma série televisiva da rede ABC, a mesma que produziu o
marco Twin Peaks, em 1990. Mas
foi rejeitada pelos executivos, que acharam a narrativa lenta e
não gostaram nem um pouco de suas loucuras. As brigas iam
do cocô de cachorro numa das cenas aos olhos vermelhos do
mendigo, que eles temiam ser confundido com um alienígena.
Ao que Lynch retrucou:
Se existirem alienígenas na Terra, eles devem trabalhar
na televisão.
Ou em Hollywood.
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