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  BRASIL 05/04/2002
História

Em busca do tempo perdido
Trinta anos depois do desembarque de tropas do
Exército no Araguaia, segredos ainda rondam a guerrilha
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Luiza Villaméa e Cláudio Camargo

  Ichiro Guerra
Max G Pinto
 
Família: Josefa e João Carlos, mulher e filho de Micheas (acima), o “Zezinho”

No Jardim da Conquista, bairro pobre da periferia paulistana, ninguém prestava atenção quando o eletricista Antônio Pereira de Oliveira dizia, confusamente, que tinha participado de uma guerra. “Ele sempre falava nesse negócio de guerra, mas eu achava que era loucura”, lembra sua mulher, Josefa Rosendo de Oliveira. Uma noite, Antônio assistiu na tevê a uma reportagem com duas sobreviventes da guerrilha do Araguaia: Elza Monnerat e Criméia de Almeida. “Senti que aquelas duas mulheres tinham a chave para desvendar a minha história”, conta o eletricista, que só vislumbrava o passado entre brumas. “Nos meus sonhos ainda estavam o jatobá caído, com militares perto, e o córrego que a televisão também mostrou.” O eletricista era o lendário Zezinho do Araguaia, mas naquele momento ele se lembrava muito vagamente do movimento de resistência armada ao governo militar que o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) organizou, entre o começo de 1972 e o final de 1974, às margens do rio Araguaia, na atual divisa entre o Pará e o Tocantins.

Há exatos 30 anos, no dia 12 de abril de 1972, o Exército brasileiro deu início a uma megaoperação de combate aos guerrilheiros do PCdoB, que viviam em três destacamentos (A, B e C) espalhados dentro da mata. Nas semanas anteriores, homens armados haviam circulado pela região, apresentando-se como “amigos” que haviam perdido o contato com os “paulistas” – designação dada aos guerrilheiros pela população local. Avisados por “olheiros” que mantinham em pontos estratégicos, os integrantes do destacamento A tiveram tempo de se embrenhar pela floresta quando começou o desembarque. “Sabíamos que não eram amigos, mas tivemos certeza de que eram militares quando vimos os helicópteros”, lembra Criméia, que hoje é enfermeira em São Paulo. Embora tenham trancafiado dezenas de moradores da região em cadeias improvisadas, na primeira campanha os militares só prenderam um guerrilheiro: o atual candidato ao governo de São Paulo, deputado José Genoíno Neto (PT/SP), que fora incumbido de alertar o destacamento C sobre a presença da repressão.

O eletricista Antônio não se lembra se Genoíno apareceu na reportagem que tanto o intrigara, exibida em meados de 1996 pela Rede Globo. No dia seguinte, sem conseguir se concentrar em mais nada, ele deixou o trabalho para bater à porta da sede regional da emissora, no centro de São Paulo. “O repórter não concordou em reprisar a reportagem”, conta. “Ele foi gentil, mas não acreditou na minha história.” Na sequência da busca por Elza e Criméia, o eletricista procurou a então vereadora Tereza Lajolo (PT), depois de um debate. “Ela me fez um interrogatório, querendo saber do meu interesse pelas duas. Me apertou tanto que, de repente, lembrei que havia tirado a Criméia do Araguaia”, relata Antônio. Embora tenha facilitado o encontro do eletricista com Criméia, Tereza não percebeu que fora fundamental em um processo de recuperação de memória perdida. “Só me lembro de que ele estava muito ressabiado e, num determinado momento, mandei-o desembuchar”, afirma Tereza.

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