| Em
busca do tempo perdido |
Trinta anos depois do desembarque
de tropas do
Exército no Araguaia, segredos ainda rondam a guerrilha |
|
|
Luiza
Villaméa e Cláudio Camargo
| |

 |
| |
Família:
Josefa e João Carlos, mulher e filho de Micheas (acima), o
“Zezinho”
|
No Jardim da Conquista, bairro pobre da periferia paulistana,
ninguém prestava atenção quando o eletricista
Antônio Pereira de Oliveira dizia, confusamente, que tinha
participado de uma guerra. Ele sempre falava nesse negócio
de guerra, mas eu achava que era loucura, lembra sua mulher,
Josefa Rosendo de Oliveira. Uma noite, Antônio assistiu na
tevê a uma reportagem com duas sobreviventes da guerrilha
do Araguaia: Elza Monnerat e Criméia de Almeida. Senti
que aquelas duas mulheres tinham a chave para desvendar a minha
história, conta o eletricista, que só vislumbrava
o passado entre brumas. Nos meus sonhos ainda estavam o jatobá
caído, com militares perto, e o córrego que a televisão
também mostrou. O eletricista era o lendário
Zezinho do Araguaia, mas naquele momento ele se lembrava muito vagamente
do movimento de resistência armada ao governo militar que
o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) organizou, entre o começo
de 1972 e o final de 1974, às margens do rio Araguaia, na
atual divisa entre o Pará e o Tocantins.
Há exatos 30 anos, no dia 12 de abril de 1972, o Exército
brasileiro deu início a uma megaoperação de
combate aos guerrilheiros do PCdoB, que viviam em três destacamentos
(A, B e C) espalhados dentro da mata. Nas semanas anteriores, homens
armados haviam circulado pela região, apresentando-se como
amigos que haviam perdido o contato com os paulistas
designação dada aos guerrilheiros pela população
local. Avisados por olheiros que mantinham em pontos
estratégicos, os integrantes do destacamento A tiveram tempo
de se embrenhar pela floresta quando começou o desembarque.
Sabíamos que não eram amigos, mas tivemos certeza
de que eram militares quando vimos os helicópteros,
lembra Criméia, que hoje é enfermeira em São
Paulo. Embora tenham trancafiado dezenas de moradores da região
em cadeias improvisadas, na primeira campanha os militares só
prenderam um guerrilheiro: o atual candidato ao governo de São
Paulo, deputado José Genoíno Neto (PT/SP), que fora
incumbido de alertar o destacamento C sobre a presença da
repressão.
O eletricista Antônio não se lembra se Genoíno
apareceu na reportagem que tanto o intrigara, exibida em meados
de 1996 pela Rede Globo. No dia seguinte, sem conseguir se concentrar
em mais nada, ele deixou o trabalho para bater à porta da
sede regional da emissora, no centro de São Paulo. O
repórter não concordou em reprisar a reportagem,
conta. Ele foi gentil, mas não acreditou na minha história.
Na sequência da busca por Elza e Criméia, o eletricista
procurou a então vereadora Tereza Lajolo (PT), depois de
um debate. Ela me fez um interrogatório, querendo saber
do meu interesse pelas duas. Me apertou tanto que, de repente, lembrei
que havia tirado a Criméia do Araguaia, relata Antônio.
Embora tenha facilitado o encontro do eletricista com Criméia,
Tereza não percebeu que fora fundamental em um processo de
recuperação de memória perdida. Só
me lembro de que ele estava muito ressabiado e, num determinado
momento, mandei-o desembuchar, afirma Tereza.
Próxima
>>
Onde
aconteceu a guerrilha
|