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08/03/2002 |
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Debaixo dos lençóis
Gay Talese revela uma surpreendente
e minuciosa história da sexualidade americana
Luiza Villaméa
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As
coelhinhas da Playboy são um dos alvos do jornalista
e escritor |
Na comunidade de Oneida, a filosofia do altruísmo e da
partilha começava pelas relações entre homens
e mulheres. O amor livre fazia parte do cotidiano da mansão
de 100 cômodos da propriedade rural, que se espalhava por
um vale, entre as cidades de Syracuse e Utica, no norte do Estado
de Nova York. A cada semana, as mulheres da comunidade tinham, em
média, três parceiros diferentes. Entre as mais jovens,
a diversidade aumentava para sete. Num país marcado pelo
puritanismo, os rumores sobre bacanais em Oneida deixavam a vizinhança
escandalizada. Naquela época, no século XIX, ninguém
sequer sonhava repetir o slogan Faça amor, não
faça a guerra, obrigatório nos protestos hippies
contra a guerra do Vietnã (1964-1973). Criada mais de 100
anos antes pelo líder religioso John Humphrey Noyes, Oneida
sobreviveu ao cerco de seus adversários durante quatro décadas,
até 1880. As minúcias de sua trajetória são
algumas das preciosidades do passado que o jornalista e escritor
Gay Talese, recuperou no livro A mulher do próximo
uma crônica da permissividade americana antes da era da Aids
(Companhia das Letras, 483 págs., R$ 41,50).
Nascido em 1932 na ilha de Ocean City, em Nova Jersey, Talese
passou a infância excitado com a existência de um campo
de nudismo, o Sunshine Park, a apenas 30 quilômetros da casa
de sua família. Jamais teve coragem de concretizar o sonho
de espiar os naturistas de cima das árvores, mas, autor consagrado,
mergulhou na história da sexualidade americana como ninguém
jamais fizera antes. Durante nove anos de 1971 a 1980
entrevistou centenas de pessoas, algumas mais de 50 vezes, até
conquistar sua confiança e ganhar autorização
para publicar suas histórias, acompanhadas de nome e sobrenome.
Na busca da intimidade com o tema, trabalhou como gerente voluntário
em estúdios de massagem que ofereciam adicionais masturbatórios
mediante o pagamento de taxa extra. Para romper barreiras, Talese
tirou a própria roupa e se entregou a experiências
grupais, o que forneceu munição a críticas
antes mesmo do lançamento da obra, nos Estados Unidos, em
1980. No Brasil, é inédita. Pouco tempo depois, A
mulher do próximo já havia conquistado o status
de clássico sobre a história da sexualidade americana,
em especial das décadas de 1960 e 1970.
Rica em informações, a obra é de leitura
agradável e fluida, mesmo quando o autor descreve os embates
jurídicos entre os pornógrafos e os defensores
da moral, processos rumorosos que várias vezes chegaram
à Suprema Corte dos Estados Unidos. O prazer da leitura deve-se
muito ao talento de Talese em radiografar seus personagens em profundidade.
Alguns, como o editor Hugh Hefner, dono da marca Playboy, saltam
das páginas como se fossem nossos velhos conhecidos. Em 1960,
depois de fazer fortuna com sua famosa revista de mulheres nuas,
Hefner inaugurou em Chicago o primeiro Playboy Club, levando também
para sua vida particular coelhinhas dos mais diversos pontos do
país. Muitas delas não hesitaram em protestar quando
ele foi acusado de enriquecer graças à degradação
do corpo feminino. No decorrer da obra, Talese trata dos meandros
da indústria da sexualidade e da controversa moral americana
com a mesma familiaridade com que revelou, em 1969, os bastidores
jornalísticos no monumental O reino e o poder uma
história do The New York Times, sobre o prestigioso jornal
onde trabalhara por uma década. Não à toa ele
é considerado um dos principais expoentes do chamado novo
jornalismo, o gênero que reúne técnicas de apuração
da reportagem com recursos da ficção, como a ruptura
da linearidade cronológica e o registro de pensamentos e
estado de espírito dos personagens.
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