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& ESPETÁCULOS |
08/03/2002 |
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| Cinema |
As cores da violência
Em Dia de treinamento, Denzel
Washington
vive um policial envolvido com o submundo
Celso Fonseca
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Consagrado
por viver heróis, o ator concorre ao Oscar num papel atípico
na sua carreira
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Basta Hollywood pensar na biografia de um grande herói
negro para ser filmada que imediatamente um nome vem à tona.
Ele é Denzel Washington, 47 anos, que nas telas já
incorporou o ativista sul-africano Stephen Biko em Um grito de liberdade,
o líder negro Malcolm X, no filme de mesmo nome, e, mais
recentemente, o boxeador Hurricane em Hurricane o furacão.
Só não foi o boxeador Muhammad Ali, papel de Will
Smith, porque seria redundância demais. A insistência
da indústria cinematográfica americana faz sentido.
Depois que Washington encarnou os três mártires da
luta racial com empenho e muito suor, ele tornou-se o ator negro
de maior prestígio nos Estados Unidos. Não o suficiente,
porém, para ganhar um Oscar de melhor ator, categoria em
que ele concorre no dia 24 pelo seu trabalho em Dia de treinamento
(Training day, Estados Unidos, 2002), cartaz nacional na sexta-feira
15. Antes, a estatueta só lhe chegou às mãos
de forma inesperada, em 1989, quando levou o Oscar de melhor ator
coadjuvante por Tempo de glória, épico da guerra civil
americana no qual viveu um soldado rebelde que exalava dignidade
até sob as mais estaladas chibatadas. Agora, o intérprete
de mais de 30 filmes veste pela primeira vez um tipo do mal: Alonzo
Harris, tira amoral e de um egocentrismo doentio.
Washington criou um vilão dos melhores. Daqueles que parecem
lobo em pele de cordeiro. Sua vilania é destilada a conta-gotas
num personagem absolutamente ambíguo, no qual as boas intenções,
a princípio, são totalmente cabíveis. É
uma interpretação que praticamente sustenta o filme
do quase estreante Antoine Fuqua, cineasta negro promissor que dizem
ter respaldo para levar suas câmeras àquelas bibocas
de Los Angeles dominadas por inúmeras gangues, aliás
muito bem retratadas na trama. Fuqua acertou em deixar Denzel Washington
brilhar num semivôo solo. Só escorrega quando inventa
uma pancadaria exagerada, típica das produções
de artes marciais, que quase compromete seu filme. Resquício
evidente da sua estréia em Assassinos substitutos (1998),
cujo protagonista é o astro de ação made in
Hong Kong, Chow Yun Fat. A verdade é que o diretor conseguiu
tornar uma história batida o confronto entre o oficial
veterano Harris e o novato Jake Hoyt (Ethan Hawke) numa fita
contundente e realista, expondo com clareza a promiscuidade contaminante
de policiais e bandidos nos Estados Unidos.
Fuqua realizou uma obra sintonizada com a hipocrisia dos dias
atuais. O personagem de Washington é uma espécie de
retrato da falência da lei. Algo que seu candidato a parceiro,
o ingênuo Hoyt, custa a enxergar. Para ele, Alonzo Harris
é o rei do Departamento dos Narcóticos de Los Angeles
e trabalhar na sua equipe pode ser o passaporte para uma carreira
brilhante. Hoyt está disposto a suportar o tal dia de treinamento
do título, imposto por Harris, na verdade um ritual de iniciação
torturante e de cores violentas. Hawke se comporta como um coadjuvante
à altura da exuberância de Washington. Mostra de forma
concisa e convincente o intenso processo de transformação
que Hoyt sofre. Dia de treinamento torna-se assim um filme sobre
o amadurecimento que nasce a fórceps, sem anestesia.
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