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 EDUCAÇÃO & CIDADANIA
30/01/2002
Infância

Lar, triste lar - continuação

Adriana Souza e Silva

Ricardo Giraldez
“O amor materno é um mito”
Maria de Lourdes Trassi, psicóloga

Limites – Maria Amélia Azevedo, coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança da USP, explica que a criança suporta a violência da rua porque, quando a sente, já é tarde demais para voltar. “Elas fazem uma análise de custo e benefício e percebem que não compensa ir para casa”, diz a especialista. Nas ruas, não têm hora para dormir, escola ou obrigação de tomar banho. Julgar a casa como um lugar “chato” é, aliás, a terceira resposta mais usada pelas crianças quando explicam o motivo de não estarem lá. Essa liberdade, tão valorizada, também os afasta de projetos sociais que oferecem escola e moradia, mas cobram disciplina e força de vontade. “Impor limites é imprescindível, mas é preciso equilibrar essa cobrança com a possibilidade de construírem as regras da instituição”, aconselha às ONGs o secretário-executivo do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Aluísio Guimarães.

Por causa da indisciplina, João Carlos, 13 anos, destacava-se entre os demais meninos na hora de frequentar algum projeto social. Não queria tomar banho, escovar os dentes ou comer numa mesa. Bastou, porém, uma só visita à casa do menino para desvendar o mistério. Sua família não tinha nenhuma noção de higiene. O lugar cheirava mal em virtude das fezes e do esgoto que se espalhavam pelo quintal. A sujeira se misturava aos colchões dos adultos e aos brinquedos das crianças que engatinhavam naquele chão. Patos e galinhas completavam o cenário. Ao contrário das outras histórias, dessa vez a mãe ficou feliz ao rever o filho. Fez o garoto prometer que não fugiria mais, pois morrera de saudades. O problema ali não era rejeição. “Sua família é que estava condenada”, avalia Roseli Faria, assistente social que acompanhou o caso.

Ninguém duvida que, quanto maior é a pobreza, maior é a dificuldade de a criança enfrentar suas adversidades. No Brasil, duas em cada cinco famílias com crianças de zero a 14 anos vivem com renda mensal inferior a meio salário mínimo por morador. “São pais tão miseráveis que nem sequer garantem sua própria manutenção”, completa o professor Antônio Marcos Chaves, da Universidade Federal da Bahia, que tem um trabalho com crianças carentes no Estado. No entanto, o presidente da Associação Brasileira de Magistrados e Promotores da Infância, Leoberto Brancher, questiona por que, em situações idênticas de miséria, uma família se desagrega, e outra não. “A que se mantém unida tem uma força interior, que está nos valores. É preciso resgatar aquilo que torna seus pais capazes de agarrar as oportunidades”, avalia. No Rio Grande do Sul, onde trabalha, Brancher convidou a ONG Escola de Pais para acompanhar as famílias de adolescentes infratores do Estado. Em Paranavaí, no Paraná, a solução foi fazer com que os moradores da própria comunidade aconselhassem as famílias de carentes. Apesar das conquistas vindas por essas iniciativas, muitos resultados ficam comprometidos pela falta de uma política pública eficiente. Por enquanto, o trabalho dessas pessoas só vem aumentando.

*Os nomes das crianças são fictícios

 

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