EDIÇÃO Nº 1687
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 EDUCAÇÃO & CIDADANIA
30/01/2002
Infância continua...

Lar, triste lar - continuação

Adriana Souza e Silva

Helcio Nagamine
Os jovens têm a ilusão de uma vida melhor quando estão longe de suas casas

Mito – Por mais incrível que possa parecer, são muitos os casos em que a convivência entre mãe e filho torna-se uma obrigação e não um prazer. “O amor materno é um mito”, explica Maria de Lourdes Trassi, supervisora da área da infância do Departamento de Psicologia da PUC-SP. “Como todas as outras relações, a afeição entre a mulher e o seu filho precisa ser desenvolvida”, acrescenta ela. Quando a aproximação não ocorre, o filho passa a ser encarado como um problema a mais na já difícil rotina da família. Beto, 11 anos, dois deles longe de casa, sentiu na própria carne que seu padrasto não o quer perto da mãe. Uma cicatriz na perna direita, feita por um golpe de facão, é sua mais viva lembrança do lar. “Quando disse que ia embora, minha mãe só disse tchau”, conta o menino. Na outra casa, apanhava da madrasta. Desistiu de vez de sua família após a morte do pai e a prisão de sua companheira, acusada de assassiná-lo. Hoje usa um outro nome para evitar que alguém descubra onde ele mora. Roberto, 13 anos, também viu na rua uma rota da fuga da violência da madrasta, mas não perdeu a esperança: “Se meu pai me pedisse perdão e largasse ela eu voltaria.” Sua mãe está em Alagoas com os quatro irmãos, de quatro pais diferentes. Problemas com padrastos e madrastas é o segundo argumento mais usado pelas cerca de mil crianças que já passaram pelo Arte & Vida. “Ele se sente trocado”, explica a coordenadora Ana Célia de Oliveira. “É uma forma de violência tão grave quanto a surra que leva.”

Ringue – Em dois anos de funcionamento, o projeto, pertencente à ONG Centro Comunitário da Criança e do Adolescente, vive de doações e de uma parceria com a prefeitura, mas a verba não é suficiente para fazê-lo funcionar 24 horas. A casa recebe as crianças às 19h, quando elas tomam banho, jantam e participam de uma atividade. Acordam às 7h e saem depois do café. “A gente tenta devolver a auto-estima deles, mas as situações que enfrentam nas ruas os levam de volta ao caminho errado”, avalia Ana Célia. A violência física é o obstáculo mais difícil que os educadores do projeto encontram para reaproximar as crianças das famílias. Renato, 11 anos, diz que até não se importa de apanhar na hora que ele “apronta”. “Triste, tia, é ser maltratado”, explica o menino, mostrando como vê a violência física e a psicológica. “Quando meu pai voltava bêbo, a casa virava ringue de luta livre. Levava surra de cinta, pau e ferro”, completa. Em menos de dois anos, Renato já passou pela Febem e agora frequenta o décimo abrigo. Nenhum projeto social o convence de que a rua não é o lugar para ele. “Em casa é chato, não tem fliperama. Se falta comida ou cobertor é só pedir que a gente ganha”, diz. A adolescente Carla é uma exceção no mundo perverso das crianças de rua. Tinha apenas cinco anos quando abandonou a casa pela primeira vez. De lá para cá, vem fazendo cursos de artesanato, natação, capoeira e dança. Já se apresentou em eventos sobre a infância e escreveu um livro, com outras meninas de rua – trabalho que lhe rendeu uma poupança. Hoje, aos 13 anos, orgulha-se de ser a única de seus 23 irmãos, a maioria deles na rua, que navega na internet e manda e-mails pelo Projeto Clicar, da Estação Ciência, na zona oeste. As boas lembranças, porém, acabam aí. Saiu de casa porque seu pai é alcoólatra e a mãe sofre de problemas mentais. “Quando eu crescer quero ser cientista e estudar a loucura, ou professora de crianças carentes”, sonha a menina, há seis meses morando na Associação Marly Cury, em Pinheiros, que conseguiu devolvê-la para a quinta série do ensino fundamental.

Leia mais nas próximas páginas:

Duas em cada cinco famílias vivem com renda mensal inferior a meio salário mínimo

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