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EDUCAÇÃO
& CIDADANIA
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30/01/2002 |
Lar,
triste lar - continuação
Adriana
Souza e Silva
| Helcio
Nagamine |
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Os jovens têm a ilusão de uma vida melhor quando estão longe
de suas casas |
Mito Por mais incrível que possa parecer,
são muitos os casos em que a convivência entre mãe
e filho torna-se uma obrigação e não um prazer.
O amor materno é um mito, explica Maria de Lourdes
Trassi, supervisora da área da infância do Departamento
de Psicologia da PUC-SP. Como todas as outras relações,
a afeição entre a mulher e o seu filho precisa ser
desenvolvida, acrescenta ela. Quando a aproximação
não ocorre, o filho passa a ser encarado como um problema
a mais na já difícil rotina da família. Beto,
11 anos, dois deles longe de casa, sentiu na própria carne
que seu padrasto não o quer perto da mãe. Uma cicatriz
na perna direita, feita por um golpe de facão, é sua
mais viva lembrança do lar. Quando disse que ia embora,
minha mãe só disse tchau, conta o menino. Na
outra casa, apanhava da madrasta. Desistiu de vez de sua família
após a morte do pai e a prisão de sua companheira,
acusada de assassiná-lo. Hoje usa um outro nome para evitar
que alguém descubra onde ele mora. Roberto, 13 anos, também
viu na rua uma rota da fuga da violência da madrasta, mas
não perdeu a esperança: Se meu pai me pedisse
perdão e largasse ela eu voltaria. Sua mãe está
em Alagoas com os quatro irmãos, de quatro pais diferentes.
Problemas com padrastos e madrastas é o segundo argumento
mais usado pelas cerca de mil crianças que já passaram
pelo Arte & Vida. Ele se sente trocado, explica
a coordenadora Ana Célia de Oliveira. É uma
forma de violência tão grave quanto a surra que leva.
Ringue Em dois anos de funcionamento, o projeto,
pertencente à ONG Centro Comunitário da Criança
e do Adolescente, vive de doações e de uma parceria
com a prefeitura, mas a verba não é suficiente para
fazê-lo funcionar 24 horas. A casa recebe as crianças
às 19h, quando elas tomam banho, jantam e participam de uma
atividade. Acordam às 7h e saem depois do café. A
gente tenta devolver a auto-estima deles, mas as situações
que enfrentam nas ruas os levam de volta ao caminho errado,
avalia Ana Célia. A violência física é
o obstáculo mais difícil que os educadores do projeto
encontram para reaproximar as crianças das famílias.
Renato, 11 anos, diz que até não se importa de apanhar
na hora que ele apronta. Triste, tia, é
ser maltratado, explica o menino, mostrando como vê
a violência física e a psicológica. Quando
meu pai voltava bêbo, a casa virava ringue de luta
livre. Levava surra de cinta, pau e ferro, completa. Em menos
de dois anos, Renato já passou pela Febem e agora frequenta
o décimo abrigo. Nenhum projeto social o convence de que
a rua não é o lugar para ele. Em casa é
chato, não tem fliperama. Se falta comida ou cobertor é
só pedir que a gente ganha, diz. A adolescente Carla
é uma exceção no mundo perverso das crianças
de rua. Tinha apenas cinco anos quando abandonou a casa pela primeira
vez. De lá para cá, vem fazendo cursos de artesanato,
natação, capoeira e dança. Já se apresentou
em eventos sobre a infância e escreveu um livro, com outras
meninas de rua trabalho que lhe rendeu uma poupança.
Hoje, aos 13 anos, orgulha-se de ser a única de seus 23 irmãos,
a maioria deles na rua, que navega na internet e manda e-mails pelo
Projeto Clicar, da Estação Ciência, na zona
oeste. As boas lembranças, porém, acabam aí.
Saiu de casa porque seu pai é alcoólatra e a mãe
sofre de problemas mentais. Quando eu crescer quero ser cientista
e estudar a loucura, ou professora de crianças carentes,
sonha a menina, há seis meses morando na Associação
Marly Cury, em Pinheiros, que conseguiu devolvê-la para a
quinta série do ensino fundamental.
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