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EDUCAÇÃO
& CIDADANIA
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30/01/2002 |
Lar,
triste lar
Um
número cada vez maior de crianças troca suas casas pelas ruas para
fugir da violência e da rejeição
Como
é a família da criança brasileira
Por
que você fugiu de casa?
Adriana
Souza e Silva
| Helcio
Nagamine |
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Meninos e meninas aproveitam as ONGs para comer, mas depois
voltam para as ruas |
Todos os dias são recolhidos pelo SOS Criança dezenas
de meninos e meninas que vivem perambulando pelas ruas de São
Paulo. Fogem de suas casas para se tornar ameaças em potencial
aos olhos da sociedade. Viram pedintes, limpadores de pára-brisas,
vendedores de balas, engraxates. Lotam abrigos à noite, onde
comem e dormem, e de manhã retornam para debaixo dos viadutos.
É ali que alguns dão os primeiros passos na criminalidade,
outros são explorados por adultos e muitos se entregam às
drogas. Todos temem a solidão. Seria fácil entender
por que essas crianças vivem dessa maneira se elas não
tivessem casa nem família. Mas elas têm. O problema
é que, para esse batalhão de guris, a rua, com toda
a sua crueldade, tem se tornado cada vez mais um lugar melhor do
que o ambiente onde moravam.
Do ano de 1999 para cá, o projeto Casa Arte & Vida
abrigo que atende a região central de São Paulo,
onde há a maior concentração de crianças
de rua aumentou em 50% o número de acolhimentos. O
perfil dos novos frequentadores também preocupa. Mostra que
o abandono do lar tem começado mais cedo, dos sete aos nove
anos. Juízes, promotores, assistentes sociais, psicólogos
e voluntários tentam entender o porquê desse fenômeno.
Durante três meses, ISTOÉ acompanhou o trabalho desses
profissionais e os relatos de meninos e meninas de rua. Suas histórias
já dão uma pista do que vem acontecendo. A miséria,
a violência e o fracasso das relações familiares
empurram essas crianças para fora de suas casas.
| Helcio
Nagamine |
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Carla tem até e-mail |
Minha mãe morreu, contou Rafael*, dez anos,
quando chegou ao Arte & Vida em março deste ano. Era
mentira. Mas aquela resposta escondia um fato tão triste
quanto a história inventada pelo garoto: a rejeição.
A mãe de Rafael não só existe como também
sabe o telefone e o endereço do albergue no qual seu filho
passa as noites. Nunca ligou para ele, tampouco visitou o lugar.
Mora numa casa simples, mas própria, de rua asfaltada, no
bairro Capão Redondo. Tem televisão, telefone e geladeira.
É até grande para três moradores,
descreve a assistente social do projeto Geni Cordeiro, referindo-se
à mãe, ao padrasto de Rafael e à filha do casal,
uma menina de três anos. Em poucos minutos de conversa, a
assistente descobriu o motivo de a criança estar na rua.
Para a mãe daquele órfão, sua nova
família é mais importante. Quando fui conversar
com a mãe, ela nem sequer quis saber por que o filho não
tinha ido comigo, lembra ela. Na volta, o garoto perguntou
à Geni: Minha mãe vem me buscar quando?
Foi a vez de a assistente mentir: Assim que ela puder.
Passados seis meses, Rafael ainda tenta entender por que sua mãe
não o procurou até hoje. Ao contar o episódio
à reportagem, interrompeu a entrevista para chorar.
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