EDIÇÃO Nº 1687
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 CIÊNCIA E TECNOLOGIA
30/01/2002
Aids continua...

Luta em nome da vida - continuação

Celina Côrtes

Renato Velasco
Eloan trouxe da Índia a matéria-prima para a produção

As mil e uma noites – Batizado de castelo Mourisco, a sede da Fiocruz lembra uma história de As mil e uma noites. Em seu suntuoso prédio de tijolos, 40 profissionais operam equipamentos de última geração avaliados em US$ 1,5 milhão. Ali são produzidos anualmente 140 milhões de comprimidos, pomadas e cápsulas destinadas ao tratamento dos soropositivos. É o suficiente para abastecer 40% da demanda brasileira de remédios antivirais com patente pública e distribuição gratuita. Para evitar riscos de desabastecimento, o restante da produção é atendida por instituições públicas de pesquisa, como o Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafep) e a Fundação de Remédio Popular de São Paulo (Furp). Hoje, Far-Manguinhos está apta a suprir a demanda nacional pelos sete medicamentos do coquetel. Por enquanto, os outros cinco remédios estão protegidos por patentes asseguradas às companhias privadas, mas isso não significa que o País não se capacite a quebrá-las no futuro. “Tudo aqui é feito com recursos gerados pelo próprio laboratório, sem verbas do governo”, observa o carioca Marcos Mandelli, diretor de negócios de Far-Manguinhos, cujo faturamento anual alcançou R$ 200 milhões.

A equipe agora alça vôos mais longos e planeja exportar seu conhecimento para outros países vítimas da Aids. Em setembro de 2001, o castelo Mourisco recebeu uma missão de Botsuana, país ao norte da África do Sul, e se prontificou a partilhar o conhecimento adquirido na produção de antivirais. Há negociações para repassar a mesma tecnologia para Angola, que tem cinco milhões de infectados pelo vírus HIV. Esses saborosos louros começaram a ser colhidos quando entrou em cena a química Eloan dos Santos Pinheiro, carioca de 56 anos com doutorado em tecnologia farmacêutica pela Universidade de Farmácia de Londres. Eloan chegou à Fiocruz em 1990. Sete anos depois, viajou para a Índia e a China para resolver um dilema: conseguir a matéria-prima para fabricar os antivirais brasileiros. Até então, os dois países não reconheciam as leis de patente em vigor. Sobretudo na Índia, Eloan encontrou situações paradoxais: um contexto de miséria associado a uma capacitação técnica de Primeiro Mundo. Eloan trouxe na bagagem os princípios ativos utilizados na fabricação de remédios anti-Aids. A essa altura, Far-Manguinhos já possuía a outra ponta – profissionais com alto nível de especialização –, e o combate à doença ganhava status de prioridade para o governo federal.

Em quatro anos, a Fiocruz passou a fabricar os sete componentes do coquetel, engrossando a lista de genéricos produzidos no País. São drogas que imitam a fórmula dos medicamentos à disposição no mercado, mas não carregam a mesma marca comercial. O que trouxe um especial sabor, no entanto, foi dobrar os gigantes Merck e Roche. “Conseguimos sentar em igualdade de condições”, festeja Eloan.

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