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CIÊNCIA
E TECNOLOGIA
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30/01/2002 |
Luta em nome da vida - continuação
Celina
Côrtes
| Renato
Velasco |
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| Eloan
trouxe da Índia a matéria-prima para a produção |
As mil e uma noites Batizado de castelo Mourisco,
a sede da Fiocruz lembra uma história de As mil e uma
noites. Em seu suntuoso prédio de tijolos, 40 profissionais
operam equipamentos de última geração avaliados
em US$ 1,5 milhão. Ali são produzidos anualmente 140
milhões de comprimidos, pomadas e cápsulas destinadas
ao tratamento dos soropositivos. É o suficiente para abastecer
40% da demanda brasileira de remédios antivirais com patente
pública e distribuição gratuita. Para evitar
riscos de desabastecimento, o restante da produção
é atendida por instituições públicas
de pesquisa, como o Laboratório Farmacêutico de Pernambuco
(Lafep) e a Fundação de Remédio Popular de
São Paulo (Furp). Hoje, Far-Manguinhos está apta a
suprir a demanda nacional pelos sete medicamentos do coquetel. Por
enquanto, os outros cinco remédios estão protegidos
por patentes asseguradas às companhias privadas, mas isso
não significa que o País não se capacite a
quebrá-las no futuro. Tudo aqui é feito com
recursos gerados pelo próprio laboratório, sem verbas
do governo, observa o carioca Marcos Mandelli, diretor de
negócios de Far-Manguinhos, cujo faturamento anual alcançou
R$ 200 milhões.
A equipe agora alça vôos mais longos e planeja exportar
seu conhecimento para outros países vítimas da Aids.
Em setembro de 2001, o castelo Mourisco recebeu uma missão
de Botsuana, país ao norte da África do Sul, e se
prontificou a partilhar o conhecimento adquirido na produção
de antivirais. Há negociações para repassar
a mesma tecnologia para Angola, que tem cinco milhões de
infectados pelo vírus HIV. Esses saborosos louros começaram
a ser colhidos quando entrou em cena a química Eloan dos
Santos Pinheiro, carioca de 56 anos com doutorado em tecnologia
farmacêutica pela Universidade de Farmácia de Londres.
Eloan chegou à Fiocruz em 1990. Sete anos depois, viajou
para a Índia e a China para resolver um dilema: conseguir
a matéria-prima para fabricar os antivirais brasileiros.
Até então, os dois países não reconheciam
as leis de patente em vigor. Sobretudo na Índia, Eloan encontrou
situações paradoxais: um contexto de miséria
associado a uma capacitação técnica de Primeiro
Mundo. Eloan trouxe na bagagem os princípios ativos utilizados
na fabricação de remédios anti-Aids. A essa
altura, Far-Manguinhos já possuía a outra ponta
profissionais com alto nível de especialização
, e o combate à doença ganhava status de prioridade
para o governo federal.
Em quatro anos, a Fiocruz passou a fabricar os sete componentes
do coquetel, engrossando a lista de genéricos produzidos
no País. São drogas que imitam a fórmula dos
medicamentos à disposição no mercado, mas não
carregam a mesma marca comercial. O que trouxe um especial sabor,
no entanto, foi dobrar os gigantes Merck e Roche. Conseguimos
sentar em igualdade de condições, festeja Eloan.
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