| ARTES
& ESPETÁCULOS |
30/01/2002 |
Transgressão
vigiada
Choque
cultural, série do canal pago GNT, mostra
como a arte foi vítima dos puritanos
Celso
Fonseca
| Sipa-press/Weber/sipa-press |
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Olympia, de Manet (à esq.), e Cagney e Harlow em Inimigo público:
escândalo
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Nudez feminina não era exatamente novidade nas artes plásticas,
no ano de 1865, quando o pintor impressionista Édouard Manet
(1832-1883) exibiu em Paris sua tela Olympia. Por que então
o escândalo foi tão grande, a ponto de serem necessários
dois policiais para resguardar a obra da fúria dos conservadores?
O que se enxergava entre as molduras não era apenas o nu,
mas o retrato da prostituição, da cortesã tão
em voga na época, recebendo flores de um possível
cliente. De certa forma, a cena escancarava o que a sociedade francesa
tentava a todo custo esconder, como esmiúça o episódio
O choque do nu: a Olympia de Manet, um dos quatro capítulos
da série Choque cultural, produção da PBS
rede de televisão pública americana , que será
exibida da segunda-feira 28 até a sexta-feira 1º, sempre
às 23h20, pelo canal pago GNT. Trata-se de um programa raro.
Principalmente pelo fôlego das pesquisas, pelo rico acervo
de imagens e fotos de época e pela disposição
em abranger temas sempre relacionados à polêmica cultural.
Didática, a série mostra como as artes mantiveram
permanente queda-de-braço com a intolerância e como
conseguiram driblar as imposições moralistas até
se firmarem no gosto popular. Foi assim, por exemplo, com um dos
livros mais importantes da literatura americana analisado no episódio
Nascido para incomodar: As aventuras de Huckleberry Finn, que percorre
toda a trajetória de incompreensão que cercou o famoso
livro de Mark Twain, escritor considerado o grande renovador da
prosa americana por aproximar-se do linguajar popular e ser o primeiro
a humanizar um personagem negro. Mesmo assim, a obra foi acusada
de racista, em parte por conter pelo menos duas centenas de vezes
a palavra nigger, considerada depreciativa. A exemplo de Twain,
outros dois pilares da cultura americana, o jazz e o cinema, sofreram
com as interferências puritanas. Quando surgiu no início
do século, o jazz só era associado à cultura
negra, como mostra o capítulo A música do demônio:
o jazz de 1920. A elite branca tratava aquela música sincopada
e irresistível dizendo ser um retrocesso que levava
às selvas africanas e defendia a excelência da
música clássica. Hoje, o jazz é sinônimo
de sofisticação.
Da mesma forma, em seu início o cinema se tornou vítima
de ligas de decência, capitaneadas pela Igreja Católica.
Hollywood censurada: filmes, moralidade e o código de produção
revela como as obras cinematográficas nasciam cercadas de
restrições. Fitas de gângster, a maioria estrelada
por James Cagney, não podiam glamourizar o crime. O bandido
tinha de ser sempre exemplarmente punido e nem sequer podia ter
uma morte, digamos, heróica. Mesmo com tanta vigilância,
surgiram mulheres fatais e sedutoras, como a provocante Jean Harlow,
perfeita em papéis de mulheres inescrupulosas. Ou seja, na
Hollywood daquele tempo, qualquer tentação era mesmo
um problema. 
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