| ARTES
& ESPETÁCULOS |
30/01/2002 |
Guerra
de absurdos
Terra
de ninguém expõe situações ridículas
do confronto entre bósnios e sérvios
Celso
Fonseca
| Divulgação |
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Bitorajc: cinismo em clima de humor negro
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Dentro de uma trincheira cavada numa verdejante paisagem, dois
soldados inimigos, um bósnio e um sérvio, ambos feridos,
tentam imputar um ao outro a responsabilidade pela guerra fratricida
que dizima suas etnias. Enfiado numa camiseta com a estampa da famosa
língua dos Rolling Stones, o bósnio Chiki (Branko
Djuric) encerra o assunto acusando o inimigo Nino (Rene Bitorajac),
a quem mantém prisioneiro sob a mira de um rifle. Seu argumento
é cínico, porque se considera o dono da situação:
Eu tenho a arma, você não. Este clima de
humor negro perpassa do começo ao fim o enredo de Terra
de ninguém (No mans land, França/Bélgica/Itália/Inglaterra/Eslovênia,
2001), sátira antibelicista dirigida pelo bósnio Danis
Tanovic, vencedora do Globo de Ouro de 2002 na categoria melhor
filme em língua estrangeira, em cartaz no Rio de Janeiro
e em São Paulo.
Passado o primeiro impacto, a situação entre os
dois soldados será invertida. Nino tomará a arma do
adversário e repetirá a mesma lenga-lenga sobre o
conflito. É uma situação meio absurda, que
nunca se resolve. O que os imobiliza dentro da trincheira, a terra
de ninguém do título, na verdade é uma armadilha
humana. Postado entre a dupla se posiciona mais um soldado bósnio,
o pobre Cera (Filip Savagovic), obrigado a ficar deitado de costas
sobre uma mina com o mecanismo de ativação ligado.
Para ele, não há opção. Se sair de cima
do artefato, ele e os outros vão para os ares. O caso acaba
sendo descoberto pela imprensa e termina num tremendo escândalo
envolvendo a incompetência das tropas de ajuda da ONU, encarregada
de salvar o homem-mina. Com experiência adquirida no documentário,
o diretor Tanovic enfatiza detalhes realistas do campo de batalha
e cria uma situação típica do teatro do absurdo.
Só erra na mão ao retratar de forma rasa a hipocrisia
humanitária e a fome de notícia dos correspondentes
de guerra. 
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