EDIÇÃO Nº 1687
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 ENTREVISTA
30/01/2002

As pessoas querem estar
ricas, bonitas e gostosas
-
continuação

Marina Caruso

ISTOÉ – O consumidor brasileiro reclama muito que não se reconhece nos modelos expostos nos desfiles. Isso é universal?
Costanza – É. O consumidor padrão, que mobiliza a indústria, não tem interesse no processo de criação, quer saber do produto final. Eu vi muita gente comprar loucuras conceituais nos anos 80. Isso mudou. No Brasil, as pessoas querem estar bonitas, ricas e gostosas.

ISTOÉ – Você acha que atingimos essa pequena porcentagem da população que tem o hábito de consumir e pensar a moda de elite no Brasil?
Costanza
– Sim. Mas a mostra desse consumidor é infinitamente menor do que nos países onde a cultura de moda é estabelecida há tempos. Hoje, por exemplo, eu estava voltando da ginástica e vi uma moça simples falando ao orelhão. Ela estava com uma blusa coreana dessas que a gente vê aos montes no Bom Retiro e que são superbem-feitinhas, bem-acabadas, não amassam. Você acha que o brasileiro com menos grana não vai comprar roupas no Bom Retiro? Claro que vai. Lá, as coisas contrabandeadas são baratas e de qualidade. E isso detona com a indústria têxtil nacional. Estados Unidos, França e Itália, além de cultura de moda, têm um protecionismo maior. Lá não entram tantos produtos ilegais como aqui.

ISTOÉ – Até que ponto essa distância entre a massa consumidora e os estilistas é fruto do fracasso da economia nacional ou do elitismo da criação?
Costanza
– Os dois. Há quem faça moda para o brasileiro, para aquele nicho que quer atingir, seja ele de alta, seja de baixa renda. O problema é o que está correndo solto por fora, que acaba minando o processo de criação.

ISTOÉ – Esse marasmo da economia brasileira e a entrada em excesso de mercadoria estrangeira chegam a reverter o crescimento que a indústria têxtil nacional teve nos últimos anos?
Costanza – Houve uma refreada, mas a nossa indústria está no caminho certo. Antes, os melhores estilistas trabalhavam com mais de 60% de tecidos importados. Agora é possível produzir uma coleção inteira só com tecidos nacionais. Isso sem falar de marcas populares como a C&A ou a Hering, que cada vez mais apresentam peças e tecidos de bom gosto.

ISTOÉ – Você é a favor da democratização da moda ou acha que ela é uma espécie de arte que só pode ser compreendida por poucos?
Costanza
– Em Nova York, Milão, Londres e Paris, a moda é pensada, elaborada e viabilizada por um grande grupo de pessoas, que têm isso como cultura. Costumo chamá-las de “intelectuais da moda”. No Brasil, esse grupo não enche barriga de estilista. Precisamos democratizar a moda para engordar nossa indústria. A democratização é sem dúvida minha principal busca para a Santa Constancia. Essa saia que você está usando, por exemplo, é feita com um tecido meu. Onde você comprou?

ISTOÉ – Na Hering.
Costanza – Então, você percebe o que eu quero dizer? Quero que meus tecidos estejam tanto na Hering quanto nas butiques chiques. O que importa para o empresário é o lucro, não só o status de elite. Dá perfeitamente para investir no “médio bom” e abranger uma maior quantidade de consumidores. O Brasil é muito amplo e o consumo de moda no País também. Este ano teve gente que não viajou com medo dos atentados. Logo, a Daslu vendeu como nunca. Já os consumidores de menor poder aquisitivo migraram todos para lojas como as do Bom Retiro. Não adianta achar que estamos na Europa, nossa realidade é outra. Temos que trabalhar com tecidos caros e com os acessíveis também.

ISTOÉ – E quais são os tecidos e os modelos que vão vingar neste inverno?
Costanza – Desde a coleções de verão 2002, da Europa, as batas estão com tudo. Tecidos leves e confortáveis, como a seda e o chifon, são a cara das estações quentes. Já o inverno é mais formal. Continua essa história da moda hippie, grandes brincos como este que estou usando e tecidos sobrepostos. Mas o inverno será sempre vitoriano, ou seja, terá tecidos mais trabalhados, mais pesados, como o couro. No frio, teremos a sensualidade do Dolce & Gabbana com um lado selvagem das peles e do couro como no filme Mad Max. Costuras mais desfiadas simularão o mau acabamento, será um desleixo de luxo. As barras das calças não precisam ser feitas. São soltas e dobradas para parecer casual. Terá também muita saia sobreposta a leggings.

ISTOÉ – O que você acha de a Globo ter feito uma parceria com a agência Mega para premiar a vencedora do concurso de modelos com um papel na novela Desejos de mulher?
Costanza – É evidente que a moda está cada vez mais na moda. Nossos estilistas são bons, os tecidos também e nós fomos premiados com a beleza de Gisele Bündchen e de outras beldades. Também evoluímos comercialmente nos últimos anos. Agora a novela da Globo fala de uma coisa que não deixa de ser o sonho dos jovens brasileiros. Tudo o que eles querem é ser modelo ou ator, concorda? A Globo e a Mega conseguiram juntar as duas coisas. Isso é uma tacada certa, na medida em que atinge exatamente o que o público jovem almeja. Eles sabem brincar com sonhos. Agora vamos ver se a novela é boa.

ISTOÉ – É verdade que você foi chamada para fazer parte do elenco e teria recusado por ser contra essa forma de falar da moda?
Costanza – O Euclydes (Marinho, autor da novela Desejos de mulher) me chamou para fazer uma ponta, meio que comentando um dos desfiles deles, mas eu acho que não tem nada a ver. Sabemos que a Globo é mestra em formar opiniões, em pautar a moda das ruas, as conversas das pessoas, mas não me interessa colaborar com isso.

ISTOÉ – Você acha que eles passam para a massa uma leitura errada do que é moda?
Costanza – Sempre foi assim, só que antes eles copiavam o modelo antigo, estereotipando o Clodovil. Tripudiavam em cima da figura do homossexual que adora dar alfinetadas, que é esnobe. É tão comum essa visão distorcida que até o Robert Altman, que considero um gênio, fez aquela droga de filme Prêt-à-porter. O público achou engraçado, mas para nós, que realmente entendemos de moda, aquilo é horroroso. Ele errou total e é um gênio. Imagine então o que pode virar o suposto mundo da moda nas mãos da Globo. A própria Sílvia Pfeifer, que foi modelo do Armani, destoa daquele cenário. É tudo muito falso, mas perfeito para saciar o sonho da grande massa. Fui prestigiar a festa de lançamento, mas jamais poderia participar da novela.

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Por Maurício Bernis
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