As pessoas querem estar
ricas, bonitas e gostosas - continuação
Marina
Caruso
ISTOÉ O consumidor brasileiro reclama muito
que não se reconhece nos modelos expostos nos desfiles. Isso
é universal?
Costanza É. O consumidor padrão,
que mobiliza a indústria, não tem interesse no processo
de criação, quer saber do produto final. Eu vi muita
gente comprar loucuras conceituais nos anos 80. Isso mudou. No Brasil,
as pessoas querem estar bonitas, ricas e gostosas.
ISTOÉ Você acha que atingimos essa pequena
porcentagem da população que tem o hábito de
consumir e pensar a moda de elite no Brasil?
Costanza Sim. Mas a mostra desse consumidor é
infinitamente menor do que nos países onde a cultura de moda
é estabelecida há tempos. Hoje, por exemplo, eu estava
voltando da ginástica e vi uma moça simples falando
ao orelhão. Ela estava com uma blusa coreana dessas que a
gente vê aos montes no Bom Retiro e que são superbem-feitinhas,
bem-acabadas, não amassam. Você acha que o brasileiro
com menos grana não vai comprar roupas no Bom Retiro? Claro
que vai. Lá, as coisas contrabandeadas são baratas
e de qualidade. E isso detona com a indústria têxtil
nacional. Estados Unidos, França e Itália, além
de cultura de moda, têm um protecionismo maior. Lá
não entram tantos produtos ilegais como aqui.
ISTOÉ Até que ponto essa distância
entre a massa consumidora e os estilistas é fruto do fracasso
da economia nacional ou do elitismo da criação?
Costanza Os dois. Há quem faça moda
para o brasileiro, para aquele nicho que quer atingir, seja ele
de alta, seja de baixa renda. O problema é o que está
correndo solto por fora, que acaba minando o processo de criação.
ISTOÉ Esse marasmo da economia brasileira e
a entrada em excesso de mercadoria estrangeira chegam a reverter
o crescimento que a indústria têxtil nacional teve
nos últimos anos?
Costanza Houve uma refreada, mas a nossa
indústria está no caminho certo. Antes, os melhores
estilistas trabalhavam com mais de 60% de tecidos importados. Agora
é possível produzir uma coleção inteira
só com tecidos nacionais. Isso sem falar de marcas populares
como a C&A ou a Hering, que cada vez mais apresentam peças
e tecidos de bom gosto.
ISTOÉ Você é a favor da democratização
da moda ou acha que ela é uma espécie de arte que
só pode ser compreendida por poucos?
Costanza Em Nova York, Milão, Londres e Paris,
a moda é pensada, elaborada e viabilizada por um grande grupo
de pessoas, que têm isso como cultura. Costumo chamá-las
de intelectuais da moda. No Brasil, esse grupo não
enche barriga de estilista. Precisamos democratizar a moda para
engordar nossa indústria. A democratização
é sem dúvida minha principal busca para a Santa Constancia.
Essa saia que você está usando, por exemplo, é
feita com um tecido meu. Onde você comprou?
ISTOÉ Na Hering.
Costanza Então, você percebe
o que eu quero dizer? Quero que meus tecidos estejam tanto na Hering
quanto nas butiques chiques. O que importa para o empresário
é o lucro, não só o status de elite. Dá
perfeitamente para investir no médio bom e abranger
uma maior quantidade de consumidores. O Brasil é muito amplo
e o consumo de moda no País também. Este ano teve
gente que não viajou com medo dos atentados. Logo, a Daslu
vendeu como nunca. Já os consumidores de menor poder aquisitivo
migraram todos para lojas como as do Bom Retiro. Não adianta
achar que estamos na Europa, nossa realidade é outra. Temos
que trabalhar com tecidos caros e com os acessíveis também.
ISTOÉ E quais são os tecidos e os modelos
que vão vingar neste inverno?
Costanza Desde a coleções de verão
2002, da Europa, as batas estão com tudo. Tecidos leves e
confortáveis, como a seda e o chifon, são a cara das
estações quentes. Já o inverno é mais
formal. Continua essa história da moda hippie, grandes brincos
como este que estou usando e tecidos sobrepostos. Mas o inverno
será sempre vitoriano, ou seja, terá tecidos mais
trabalhados, mais pesados, como o couro. No frio, teremos a sensualidade
do Dolce & Gabbana com um lado selvagem das peles e do couro
como no filme Mad Max. Costuras mais desfiadas simularão
o mau acabamento, será um desleixo de luxo. As barras das
calças não precisam ser feitas. São soltas
e dobradas para parecer casual. Terá também muita
saia sobreposta a leggings.
ISTOÉ O que você acha de a Globo ter
feito uma parceria com a agência Mega para premiar a vencedora
do concurso de modelos com um papel na novela Desejos de mulher?
Costanza É evidente que a moda está
cada vez mais na moda. Nossos estilistas são bons, os tecidos
também e nós fomos premiados com a beleza de Gisele
Bündchen e de outras beldades. Também evoluímos
comercialmente nos últimos anos. Agora a novela da Globo
fala de uma coisa que não deixa de ser o sonho dos jovens
brasileiros. Tudo o que eles querem é ser modelo ou ator,
concorda? A Globo e a Mega conseguiram juntar as duas coisas. Isso
é uma tacada certa, na medida em que atinge exatamente o
que o público jovem almeja. Eles sabem brincar com sonhos.
Agora vamos ver se a novela é boa.
ISTOÉ É verdade que você foi chamada
para fazer parte do elenco e teria recusado por ser contra essa
forma de falar da moda?
Costanza O Euclydes (Marinho, autor da novela
Desejos de mulher) me chamou para fazer uma ponta, meio que
comentando um dos desfiles deles, mas eu acho que não tem
nada a ver. Sabemos que a Globo é mestra em formar opiniões,
em pautar a moda das ruas, as conversas das pessoas, mas não
me interessa colaborar com isso.
ISTOÉ Você acha que eles passam para
a massa uma leitura errada do que é moda?
Costanza Sempre foi assim, só que
antes eles copiavam o modelo antigo, estereotipando o Clodovil.
Tripudiavam em cima da figura do homossexual que adora dar alfinetadas,
que é esnobe. É tão comum essa visão
distorcida que até o Robert Altman, que considero um gênio,
fez aquela droga de filme Prêt-à-porter. O público
achou engraçado, mas para nós, que realmente entendemos
de moda, aquilo é horroroso. Ele errou total e é um
gênio. Imagine então o que pode virar o suposto mundo
da moda nas mãos da Globo. A própria Sílvia
Pfeifer, que foi modelo do Armani, destoa daquele cenário.
É tudo muito falso, mas perfeito para saciar o sonho da grande
massa. Fui prestigiar a festa de lançamento, mas jamais poderia
participar da novela. 
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