| ARTES
& ESPETÁCULOS |
20/12/2001 |
Coração
satânico
Apocalypse
now redux chega às telas numa excelente versão estendida,
que dá um caráter mais existencial e perverso ao épico de Francis
Ford Coppola
Celso
Fonseca
| Divulgação |
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Sheen (acima) e com Aurore numa das sequências extras: cena
clássica e momento raro de romance em meio à barbárie da Guerra
do Vietnã
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Foram necessários 22 anos para que Apocalypse now,
um dos maiores filmes da história do cinema, pudesse ser
finalmente visto em sua versão integral. Apocalypse now
redux, o trabalho que Francis Ford Coppola sempre quis mostrar
ao mundo desde que, em 1979, concluiu sua insana odisséia
cinematográfica nas selvas úmidas das Filipinas, estréia
em São Paulo e no Rio de Janeiro, na sexta-feira 21, com
49 minutos adicionais, o que lhe dá uma duração
de 3h16. À época, Coppola tinha motivos para apresentar
uma versão mutilada e mais acessível comercialmente.
Quando terminou sua adaptação do clássico literário
Coração nas trevas, de Joseph Conrad, ele não
era mais o milionário prodígio que havia dirigido
O poderoso chefão I e II, mas um artista cercado
de descrédito, com uma casa hipotecada e um excedente de
produção de US$ 16 milhões. Preferiu, então,
não arriscar. Curvou-se aos interesses do mercado, cumpriu
um grande sucesso de bilheteria e ainda assim apresentou um filme
arrebatador, quase insuperável no seu gênero. Ganhou
a Palma de Ouro do Festival Internacional do Filme de Cannes e teve
oito indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme.
Neologismo A versão redux neologismo
criado pela indústria com o significado de reeditado, relido,
refeito atribui ao épico de guerra um caráter
mais existencialista. Neste aspecto, se aproxima da obra de Conrad,
recentemente relançada pela editora Nova Alexandria numa
edição que traz um alentado prefácio do ensaísta
e crítico literário Otto Maria Carpeaux. O livro relata
a viagem de barco do capitão Marlow pelo rio Congo em busca
do enigmático mercador Kurtz. Mas no caminho ele se depara
com um mundo regido pela barbárie. No cinema, Marlow foi
rebatizado de Willard e transformado num oficial da inteligência
americana vivido por Martin Sheen. Ele persegue Kurtz papel
do irascível Marlon Brando , oficial brilhante que
vive na selva do Vietnã e paira como divindade intocável
sobre uma tribo de lunáticos e assassinos. Com as novas cenas,
o percurso de Willard é visto como uma atormentada viagem
interior. É uma sequência enorme, que cobre sua chegada
e de seu grupo numa fazenda francesa. O diálogo, durante
um requintado jantar em plena selva, entre Willard e os franceses,
verdadeiros colonizadores do lugar, é um show à parte
permeado de reflexões sobre a guerra e a estúpida
presença americana no Vietnã.
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