|
Vovô transviado
Em
entrevista exclusiva a ISTOÉ, Mick Jagger fala de
seu quarto disco solo, Goddess in the doorway,
da
família e (pouco) do filho brasileiro
Álbum
de fotos
Osmar
Freitas Jr - Nova York
|
Divulgação
|
|
|
|
A maturidade como ponto de referência do novo CD longe dos Stones |
Aos 58 anos, Mick Jagger não enfrenta a crise da meia-idade.
É ele mesmo quem afirma nesta entrevista exclusiva a ISTOÉ.
Com inabalável bom humor, ele calcula que não alcançará
uma idade muito alta. Mas os percalços e excessos lendários
do vocalista dos Rolling Stones a maior e mais duradoura
banda de rock do planeta não parecem ter diminuído
sua energia. Depois de exaustiva turnê do álbum Bridges
to Babylon, dos Stones, Jagger não foi colocar os pés
de molho no conforto da vida doméstica. Aproveitou o tempo
livre para gravar no seu fantástico estúdio caseiro
o CD Goddess in the doorway, seu quarto vôo solo depois de
Wandering spirit, lançado em 1993. E deixou de lado
a segurança de seus companheiros de banda para juntar-se
a uma constelação de amigos famosos entre eles
Lenny Kravitz, Pete Townshend e Bono, vocalista do grupo irlandês
U2 , num trabalho que mescla guitarras vigorosas com letras
reflexivas e biográficas de alguém que há muito
tempo ancorou no porto da maturidade. Tudo empacotado em ritmos
capazes de colocar para dançar seus fãs, jovens e
cinquentenários.
Também usou o cenário do lar, tendo a própria
prole como coadjuvante no documentário Being Mick
para a televisão americana. Álbum e vídeo são
complementares e guardam inesperado ineditismo. Pela primeira vez
exibem o Mick Jagger pai. Uma intrusão consentida em sua
privacidade. Não tenho problema em mostrar minha família,
desde que eu possa controlar o que vai ser mostrado, justifica.
Assim, colocou para trabalhar as filhas Elizabeth e Georgia May
cuja mãe é a ex-mulher Jerry Hall , criando
a pedido delas uma participação especial nos backing
vocals da canção Brand new set of rules. São
as mesmas crianças para quem papai Jagger diz não
impor nenhum conjunto de regras fixas de conduta. O cantor e compositor
acha difícil falar com elas sobre sexo e drogas. Ou seja,
do tripé que definiu sua geração sobra apenas
o rocknroll a ser compartilhado. Determinações
de um senhor roqueiro.
Goddess in the doorway, o álbum, reflete esta maturidade.
Nada da rebeldia ainda adolescente e presente nas músicas
dos Stones. A ausência da guitarra subversiva de Keith Richards
permite que Jagger retire a fantasia extravagante de bad boy do
rock, para vestir roupas mais discretas. Em Hide away, por
exemplo, ele fala de alguém que tem sucesso, dinheiro, mulheres
mas reconhece que o acúmulo não é tudo na vida.
Soa autobiográfico? Todas as canções,
de certo modo, são autobiográficas, mas poderiam ser
cantadas por qualquer pessoa, afirma. Hide away, cujo ritmo
está mais para world music, fala de uma história familiar.
Só que ninguém como Jagger envergaria o traje completo
de grande burguês. Na faixa Joy um gospel ,
ele canta com Bono sobre alguém em busca de Buda... mas no
volante de um carro possante. E em God gave me everything,
composta em parceria com Kravitz, apesar do agradecimento ao Todo-Poderoso,
recorda a velha pauleira do início dos Stones. A prestigiada
revista americana Rolling Stone considerou o álbum
um clássico. Não é. Trata-se apenas de um bom
CD cujo autor trocou o costumeiro salto alto por um confortável
e sensato chinelo de ficar em casa.
A pequena abertura para revelação de sua intimidade,
porém, obedece a limites individuais bem estabelecidos. Primeiro,
sua assessoria avisou que a vida privada do astro estava fora de
questão. Mas, diante das circunstâncias de um disco
e documentário tão reveladores, quem poderia deixar
de lado os detalhes íntimos? Nas duas vezes em que Mick Jagger
foi entrevistado por ISTOÉ sua gentileza discordou da figura
de mito. Desta vez foi igual. Jagger só entronizou a estrela
numa última pergunta: a inevitável sobre seu polêmico
filho caçula, o brasileiro Lucas, que ele teve com a modelo
e apresentadora Luciana Gimenez. A resposta não só
veio curta, como encerrou de vez a conversa.
|