EDIÇÃO Nº 1677
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 BRASIL
21/11/2001
CAPA continua...

Novela mexicana - continuação

Mario Simas Filho e Ricardo Miranda

Ricardo Stuckert
José Gregori acreditou na piada da PF

A investigação comandada pelo delegado Francisco de Assis Sobrinho descartou a hipótese de um “serviço interno” por um motivo simplório: ninguém viu nada, ninguém ouviu nada. Os agentes que cuidavam das celas no período em que Gloria engravidou só foram procurados informalmente. Mais grave ainda: as duas companheiras de cela de Gloria, de quem ela não desgrudava, sua secretária mexicana Maria Raquenel Portillo, e a brasileira Renata Aparecida dos Santos, nem sequer foram ouvidas. Embora dezenas de câmeras de vídeo acompanhem cada passo dos presos, nenhum plantonista viu nada e, pior ainda, nada foi gravado. As conclusões foram baseadas apenas nos depoimentos de alguns presos, entre eles Fernandinho Beira-Mar, intimidados pela polícia que garante sua sobrevivência na carceragem.

Rebelião suspeita – Cartas de presos, como Marcelo Borelli, interceptadas pela polícia afirmam que era impossível haver relações sexuais dentro da carceragem da PF. E em outras dependências? “Se algum agente pegou a Gloria fora da área onde ficam as celas da custódia não tenho como saber. Não tenho bola de cristal”, desconversa o delegado Sobrinho. No meio da papelada, pistas importantes foram desprezadas. Borelli diz numa carta que existem suspeitas de que Maria Raquenel, aquela que nunca foi ouvida, tinha “relações sexuais com policiais”. Em outra carta interceptada, o preso José Carlos Carlini resume o que até as grades da PF sabem. “Moral da história: a polícia come e o preso leva a fama.”

Jornal de Brasília/Reuters
Pliego, dono da TV Azteca (acima), e Salinas, ex-presidente do México: Gloria sabe muito

Nas cartas obtidas por ISTOÉ, o traficante que escreve ao amigo já transferido de Brasília revela também como a polícia insuflou a rebelião da carceragem em setembro. Sem sujar as próprias mãos, a polícia teria provocado o linchamento de Borelli, que havia se indisposto com os companheiros de cadeia quando ameaçou matar um deles. “O mistério aconteceu de esquecerem todas as celas abertas. Na verdade, era pra dar um pau ‘light’, mas saiu do controle”, relata o preso ao colega. “Aí ocorreu outro mistério: todos os rodos e vassouras estavam no pátio.” Borelli teve o couro cabeludo arrancado, traumatismo e hematomas por todo o corpo.

Quando o ferido voltou do hospital, segundo a carta, “outro mistério: a única cela trancada, ou melhor, as únicas, eram as do Boreli e das meninas”. Os demais presos ficaram livres para agir. “O pessoal encheu a cela dele com colchões, jornais e tudo o que pudesse pegar fogo, mas, tal qual a surra, fugiu do controle e pegou fogo em tudo. Quase morre todo mundo!”, diz a carta. O delegado Rômulo Menezes, ex-delegado regional policial, teria conhecimento do atentado anunciado. “Nós já havíamos avisado o Dr. Rômulo que não aceitaríamos ele (Borelli) novamente e, caso insistisse, colocaríamos fogo na cadeia com o Borelli dentro! Ora, bolas, não é que ele pagou pra ver?”, conta o preso.

Poder político – Com medo, Gloria Trevi, no sexto mês de gestação, não fala quem é o pai de seu filho, gerado nas dependências da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Interrogada pela polícia, disse o que considerava seguro. Negou que a gravidez tenha sido “consensual”, desmentiu a versão de inseminação artificial, disse que não é sequer amiga de Borelli e resumiu o caso como uma “irregularidade”. A PF preferiu considerar o que ela não disse e desconsiderar o que ela disse. Transferida no dia 27 de setembro com seu empresário e sua secretária para uma nova ala do Presídio da Papuda, em Brasília, Gloria aguarda que o governo decida sobre seu pedido para permanecer no Brasil. Com seu silêncio, espera não ter problemas com a polícia brasileira. Prefere isso a voltar para o México, onde, acredita ela, terá destino pior: ser morta na cadeia. Gloria diz que sabe demais sobre falcatruas de gente poderosa no México, como o empresário Ricardo Salinas Pliego, dono da TV Azteca e testa-de-ferro do ex-presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari. Sobre esse assunto, Glória quer falar. Mas isso a polícia não quer ouvir.

Leia mais nas próximas páginas:

Primeira carta dos presos: "Se a moda pega..."
Segunda carta dos presos: "Uma boa idéia..."
"Se voltar, vou ser morta"

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