|
Sem-terra em Washington
Darci
Frigo, membro da Comissão Pastoral da Terra,
recebe no Senado dos EUA prêmio de direitos humanos
da Fundação Robert Kennedy
Adriana
Souza e Silva
|
Ricardo
Giraldez
|
|
|
|
Darci Frigo: “A terra precisa ter uma destinação social” |
Demorou, mas a causa chegou ao Primeiro Mundo. No próximo
dia 20, a luta pela democratização da terra no Brasil
entrará na pauta do Senado americano pela porta da frente.
O advogado catarinense Darci Frigo, membro da Comissão Pastoral
da Terra, receberá em Washington o Prêmio Robert F.
Kennedy depois de ter sido eleito entre 30 indicações
de todo o mundo a pessoa que mais se destacou na defesa dos
direitos humanos. Pela primeira vez, um brasileiro é condecorado
pelo instituto da família Kennedy, uma das mais importantes
organizações de direitos humanos do planeta. A conquista
representa um empurrão e tanto na busca de soluções
para os problemas agrários do País. Desde 1984, quando
a premiação teve início, a homenagem vem garantindo
repercussão internacional às causas escolhidas. Neste
ano, será a vez de temas como trabalho escravo, grileiros
e violência no campo fazerem parte da cerimônia. Há
15 anos o advogado se dedica à defesa dos trabalhadores sem-terra
e sem direitos. Darci Frigo, 39 anos, soube da notícia por
Kerry Kennedy Cuomo, filha do senador assassinado em 1968 e sobrinha
do presidente John Kennedy. Por telefone, Kerry elogiou seu engajamento
nas lutas populares bandeira que o advogado carrega desde
os tempos de militância na Pastoral da Terra da Igreja Católica.
Só acreditei que era ela quando minha secretária
passou a ligação, contou a ISTOÉ antes
de embarcar para os Estados Unidos no domingo 11. Na viagem, também
estão agendados encontros no Departamento de Agricultura
dos Estados Unidos, na Comissão de Direitos Humanos do Senado,
além de audiências com o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Filho de pequenos agricultores de Capinzal (SC), Darci acumula uma
enorme vivência na luta contra a repressão policial,
mas não controla as lágrimas quando lembra de amigos
que viraram vítimas. Já foi ameaçado de morte,
preso e impedido de exercer sua profissão por se envolver
em conflitos com a polícia nas ações de despejo.
Hoje mora em Curitiba. De lá, coordena a Rede Nacional de
Advogados Populares grupo de profissionais, criado por ele,
que defende aqueles que não podem pagar assessoria jurídica
e de onde sairão os futuros Darcis Frigo.
ISTOÉ No Brasil de hoje, qual o papel de advogados
como o sr.?
Darci Frigo Historicamente, tudo o que foi
considerado mínimo para a sociedade é visto como grande
conquista no campo. O salário mínimo na cidade é
sempre o ganho máximo no meio rural. Toda vez que acontece
a degradação das relações de trabalho
no País, os primeiros a ser atingidos são os trabalhadores
do campo. Desse modo, o trabalho do advogado é extremamente
importante. Muitas vezes, nós nem visamos uma sentença
final favorável, mas sim o tempo ganho para negociar com
o dono da terra. Numa ação de reintegração
de posse, por exemplo, esse tempo pode significar o prazo que os
trabalhadores têm para se livrarem do conflito armado. O Brasil
tem uma carência enorme de centenas e centenas de defensores
dos direitos humanos no campo. São cerca de 100 advogados
populares na rede de profissionais que estamos organizando para
cuidar de quatro milhões e meio de famílias sem direito
à terra. É muito pouco.
|