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 ARTES & ESPETÁCULOS 10/10/2001
Cinema  

Circo de caninos
A sombra do vampiro faz leitura divertida dos bastidores das filmagens do clássico Nosferatu

 Veja trecho do filme A sombra do vampiro
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Celso Fonseca

Divulgação
Greta e Dafoe: chiliques e interpretação impressionante

Nenhum vampiro havia saído da literatura para se materializar no cinema até o diretor expressionista alemão Friedrich Wilhem Murnau (1888-1931) resolver filmar o clássico Drácula, de Bram Stoker. Acontece que a família do escritor negou os direitos de filmagem, forçando Murnau a mudar o nome da fita para Nosferatu. Lançado em 1922, o admirável filme que se tornaria um clássico do cinema mudo e seria a obra premonitória do surgimento de Hitler teve seus negativos originais destruídos. Só 50 anos depois é que uma cópia restaurada veio resgatar sua importância. A história encantou o diretor nova-iorquino E. Elias Merhige – mais conhecido por seus trabalhos com videoclipes –, que criou um enredo amalucado e bem divertido para contar os bastidores da produção de Nosferatu em A sombra do vampiro (Shadow of vampire, Estados Unidos, 2000), em cartaz na sexta-feira 12 no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. A estréia em São Paulo está prevista para 16 de novembro.

No circo de caninos imaginado pelo diretor americano, Murnau – papel do sempre surpreendente John Malkovich – é um obcecado pela sua arte. Quer o melhor e para tal não mede esforços em gastar dinheiro, chicotear a equipe com seu charme pérfido e assim trazer para as telas o máximo de realismo. As filmagens já estão em curso com a estrela Greta Schroeder (Catherine McCormack) dando seus chiliques e o produtor Albin Grau (Udo Kier) arrancando os cabelos porque Murnau ainda não apresentou o ator principal. Olímpico, Murnau diz que seu Nosferatu – transformado em conde Orlock e não em conde Drácula, por causa dos direitos autorais – será interpretado por Max Schreck, um ator formado pelo método Stanislavski de teatro, ou seja, o tipo que mergulha totalmente no papel com a intenção de trazer toda a verdade do personagem à tona. Para respeitar as vontades de Schreck – nome verdadeiro do ator do filme de 1922 –, as cenas devem ser rodadas somente à noite, com ele já maquiado e imerso no papel.

Divulgação
O verdadeiro Max Schreck, ator do filme de Murnau, ressurge como personagem de ficção

Algo de estranho está acontecendo. Todos sentem calafrios diante da presença de Schreck, magistralmente interpretado por Willem Dafoe. Afinal, é Stanislavski demais não tirar as orelhas pontudas, as unhas tão grandes quanto as do Zé do Caixão, não se misturar com o resto da equipe e, de repente, catar um morcego em pleno vôo para sugar-lhe o sangue como quem sorve o final de um picolé. É isso mesmo, Schreck é um vampiro de verdade, um mercenário do sangue, que trocou seu trabalho no filme em troca de várias jugulares. “Se você quiser comer o autor, seja meu convidado”, ironiza Murnau, já furioso com a impaciência do ser noturno. Entre um e outro corte alternando o colorido da história contada por Merhige com o branco-e-preto do filme dentro do filme, dão-se boas risadas. Principalmente com as tiradas de Dafoe, que deixa a verdadeira impressão de ser exatamente daquele jeito. “Eu vivi uma transformação física concreta. Quando me olhava no espelho, a idéia de mim mesmo havia desaparecido e sobrava apenas Max Schreck”, conta Dafoe. É verdade. Para quem assistiu à fita muda, tem-se a impressão de que o ator alemão ressuscitou e foi incorporado por Willem Dafoe. Stanislavski perde.

 


Por Maurício Bernis
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