EDIÇÃO Nº 1668
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 ENTREVISTA
19/09/2001
continua...

Uma nova guerra
O cientista político Clóvis Brigagão afirma que os atentados nos EUA transformaram o terrorismo numa outra forma de conflito internacional

Francisco Alves Filho

Renato Velasco

Clóvis Brigagão: “Seria preciso que a ONU se afirmasse mais”

A experiência de mais de 25 anos no acompanhamento dos conflitos internacionais não ajudou a amenizar a perplexidade do cientista político Clóvis Brigagão, 59 anos, ao ver pela televisão as explosões das torres do World Trade Center, em Nova York, e no Pentágono, em Washington. “Vivi por três anos em Nova York e foi difícil acreditar que dois aviões pudessem fazer aquelas torres, símbolos de poder, desabar daquela forma”, diz. Ele não tem dúvida: as imagens são um marco na história da humanidade. “Tive a certeza de que o mundo estava pior.” Na sua avaliação, está inaugurado um novo tipo de conflito mundial. O embate de um Estado contra grupos terroristas, que perdura há muito tempo no caso de Israel e palestinos, ampliou-se e virou um paradigma planetário. Um novo tipo de guerra. Todo o aparato de segurança sobre o qual sempre esteve baseado o poderio mundial americano se mostrou incapaz de enfrentar o terrorismo – o que deverá levar a uma reformulação profunda no sistema. “Mas a questão é: como abolir o terrorismo?”, questiona Brigagão.

Além do confronto, o atentado causou uma ruptura na lógica política internacional, avalia o cientista político, que já foi secretário-geral da Associação Internacional de Pesquisas para a Paz e é diretor-adjunto do Centro de Estudos das Américas. A partir de agora, cria-se um ambiente propício às radicalizações e ao nacionalismo. A esperança na construção de um mundo melhor fica mais frágil. Todo esse estrago, acredita Brigagão, foi motivado pela exacerbação do fundamentalismo e do endurecimento da política externa do governo de George W. Bush. “Os Estados Unidos também têm agido como fundamentalistas. Esse é o governo mais radical que os americanos já tiveram”, afirma. Ao desrespeitar as rodas de negociações internacionais e deixar de cumprir em seu país as determinações acertadas em conferências internacionais, Bush estaria acabando com as possibilidades de pacificação. Por outro lado, o fortalecimento de mecanismos irracionais, como o domínio do Afeganistão pelo Taleban ou o confronto de israelenses e palestinos, se transformam em estopim prestes a queimar. Apesar de tantas más notícias, Brigagão tenta entrever algo de positivo para o mundo. “Esse pode ser o momento propício para se discutir um modelo mais justo. Essa deveria ser a prioridade das grandes potências, do G7 e da ONU”.

ISTOÉ – Estamos às portas da Terceira Guerra Mundial?
Clóvis Brigagão – Acho que uma nova guerra se estabeleceu, que é o confronto entre grupos terroristas e o Estado. Não é uma guerra clássica, não é uma guerra de guerrilha ou de longa duração, mas um confronto de ataques tópicos, uma espécie de acupuntura. Enquanto os poderosos americanos são visíveis, os inimigos são invisíveis, utilizam ataques de surpresa que põem o sistema internacional e a convivência humana em perigo. Isso já existe no Oriente Médio, onde Israel enfrenta os palestinos. Não é Estado contra Estado, mas Estado contra o terrorismo. Esse modelo de conflito se tornou um novo fator de desequilíbrio mundial. Pode inclusive estabelecer uma nova espiral armamentista não convencional.

ISTOÉ – O que levou a esse atentado?
Brigagão – Desde o início do governo de George W. Bush há uma escalada na direção do enfrentamento dos Estados Unidos em relação ao mundo, às instituições internacionais. Toda a agenda dos regimes internacionais, quer na área de desarmamento, de não-proliferação, de direitos humanos, da questão do racismo, tiveram dos Estados Unidos uma postura não só de isolacionismo, mas de unilateralismo. O isolacionismo é quando você se fecha, fica dentro da sua casa e não quer saber de ninguém. O unilateralismo é mais do que isso, impõe ao resto do mundo padrões e valores que são naturais da sua casa. Isso distingue o governo Bill Clinton e os governos democratas do governo Bush, que também tem base fundamentalista. Nós, que também condenamos o fundamentalismo islâmico e o terrorismo, devemos ser críticos em relação a essa postura americana. Na medida em que os Estados Unidos se fecham e impõem suas regras de uma maneira superior, fica difícil para o resto do mundo. Na questão do Oriente Médio, Bill Clinton chegou a colocar em Camp David as duas partes. George W. Bush se fechou.

 

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