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Uma nova guerra
O
cientista político Clóvis Brigagão afirma que os atentados nos EUA
transformaram o terrorismo numa outra forma de conflito internacional
Francisco
Alves Filho
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Renato
Velasco
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| Clóvis
Brigagão: “Seria preciso que a ONU se afirmasse mais” |
A experiência de mais de 25 anos no acompanhamento dos conflitos
internacionais não ajudou a amenizar a perplexidade do cientista
político Clóvis Brigagão, 59 anos, ao ver pela
televisão as explosões das torres do World Trade Center,
em Nova York, e no Pentágono, em Washington. Vivi por
três anos em Nova York e foi difícil acreditar que
dois aviões pudessem fazer aquelas torres, símbolos
de poder, desabar daquela forma, diz. Ele não tem dúvida:
as imagens são um marco na história da humanidade.
Tive a certeza de que o mundo estava pior. Na sua avaliação,
está inaugurado um novo tipo de conflito mundial. O embate
de um Estado contra grupos terroristas, que perdura há muito
tempo no caso de Israel e palestinos, ampliou-se e virou um paradigma
planetário. Um novo tipo de guerra. Todo o aparato de segurança
sobre o qual sempre esteve baseado o poderio mundial americano se
mostrou incapaz de enfrentar o terrorismo o que deverá
levar a uma reformulação profunda no sistema. Mas
a questão é: como abolir o terrorismo?, questiona
Brigagão.
Além do confronto, o atentado causou uma ruptura na lógica
política internacional, avalia o cientista político,
que já foi secretário-geral da Associação
Internacional de Pesquisas para a Paz e é diretor-adjunto
do Centro de Estudos das Américas. A partir de agora, cria-se
um ambiente propício às radicalizações
e ao nacionalismo. A esperança na construção
de um mundo melhor fica mais frágil. Todo esse estrago, acredita
Brigagão, foi motivado pela exacerbação do
fundamentalismo e do endurecimento da política externa do
governo de George W. Bush. Os Estados Unidos também
têm agido como fundamentalistas. Esse é o governo mais
radical que os americanos já tiveram, afirma. Ao desrespeitar
as rodas de negociações internacionais e deixar de
cumprir em seu país as determinações acertadas
em conferências internacionais, Bush estaria acabando com
as possibilidades de pacificação. Por outro lado,
o fortalecimento de mecanismos irracionais, como o domínio
do Afeganistão pelo Taleban ou o confronto de israelenses
e palestinos, se transformam em estopim prestes a queimar. Apesar
de tantas más notícias, Brigagão tenta entrever
algo de positivo para o mundo. Esse pode ser o momento propício
para se discutir um modelo mais justo. Essa deveria ser a prioridade
das grandes potências, do G7 e da ONU.
ISTOÉ Estamos às portas da Terceira
Guerra Mundial?
Clóvis Brigagão Acho que uma
nova guerra se estabeleceu, que é o confronto entre grupos
terroristas e o Estado. Não é uma guerra clássica,
não é uma guerra de guerrilha ou de longa duração,
mas um confronto de ataques tópicos, uma espécie de
acupuntura. Enquanto os poderosos americanos são visíveis,
os inimigos são invisíveis, utilizam ataques de surpresa
que põem o sistema internacional e a convivência humana
em perigo. Isso já existe no Oriente Médio, onde Israel
enfrenta os palestinos. Não é Estado contra Estado,
mas Estado contra o terrorismo. Esse modelo de conflito se tornou
um novo fator de desequilíbrio mundial. Pode inclusive estabelecer
uma nova espiral armamentista não convencional.
ISTOÉ O que levou a esse atentado?
Brigagão Desde o início do
governo de George W. Bush há uma escalada na direção
do enfrentamento dos Estados Unidos em relação ao
mundo, às instituições internacionais. Toda
a agenda dos regimes internacionais, quer na área de desarmamento,
de não-proliferação, de direitos humanos, da
questão do racismo, tiveram dos Estados Unidos uma postura
não só de isolacionismo, mas de unilateralismo. O
isolacionismo é quando você se fecha, fica dentro da
sua casa e não quer saber de ninguém. O unilateralismo
é mais do que isso, impõe ao resto do mundo padrões
e valores que são naturais da sua casa. Isso distingue o
governo Bill Clinton e os governos democratas do governo Bush, que
também tem base fundamentalista. Nós, que também
condenamos o fundamentalismo islâmico e o terrorismo, devemos
ser críticos em relação a essa postura americana.
Na medida em que os Estados Unidos se fecham e impõem suas
regras de uma maneira superior, fica difícil para o resto
do mundo. Na questão do Oriente Médio, Bill Clinton
chegou a colocar em Camp David as duas partes. George W. Bush se
fechou.
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