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 BRASIL
12/09/2001
Especial continua...

O último clandestino - continuação

Claudio Camargo e Alan Rodrigues

Prisão, torturas e banimento – Otávio foi preso em São Paulo num sábado pela manhã, poucos dias depois da morte de Marighella, em 4 de novembro de 1969. “Devo ter sido o último militante a se reunir com Marighella. Estive com ele das 19h às 19h30, num ponto no Tatuapé, ao lado da avenida Celso Garcia (São Paulo). Às 20h15, ele foi assassinado. Minha prisão deve ter sido lá pelo dia 11 de novembro”, relembra. “Fui levado para a Operação Bandeirantes (Oban), organização paramilitar da repressão, embrião dos DOI/Codi), na rua Tutóia. Eles me puseram no pau-de-arara às 11 horas da manhã. Eu anotava os pontos numa caderneta que eles pegaram. A primeira sessão durou até a meia-noite. Aí, para ganhar tempo, entreguei o depósito onde guardávamos armas, que estavam enterradas num quintal de um aparelho na zona leste de São Paulo.” Otávio ficou 30 dias na Oban e outros 20 dias no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, o mais famoso facínora do regime militar. Depois, ele foi para o Presídio Tiradentes, considerado um “purgatório”, porque lá os presos políticos não eram mais torturados e podiam receber visitas. Em 14 de março de 1970, Otávio e outros quatro guerrilheiros presos foram libertados e banidos para o México, em troca da libertação do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, sequestrado por um comando da VPR três dias atrás.

Antes de partir, ele sofreria novas torturas. “Me levaram outra vez para o Dops. Apanhei muito, levei socos, chutes, ‘telefone’ (tapas nos ouvidos). Depois, me mostraram uma gravação com vozes de mulheres, que pareciam ser minhas irmãs, chorando, implorando para eu ficar. Aquilo foi terrível. Quase desisti”, conta Otávio.

No dia em que o cônsul japonês foi sequestrado, “Helga” (Tereza Ângelo), viajou do Rio de Janeiro para São Paulo em companhia de “Jamil” (Ladislau Dowbor), que era o comandante da operação de sequestro. Era uma manobra de despiste. “Nós fizemos o papel de marido e mulher. Mas eu não participei do sequestro e não sabia que meu irmão estaria na lista dos cinco libertados”, conta Tereza. Até hoje, Otávio Ângelo desconhecia as razões pelas quais seu nome tinha sido incluído na lista, uma vez que ele já se encontrava no Tiradentes e, portanto, teoricamente, estava livre de novas torturas. Somente agora a razão foi revelada. “A inclusão dele não foi um acaso. Otávio Ângelo tinha contatos do Marighella, principalmente no campo, que nos interessava preservar”, disse a ISTOÉ o ex-guerrilheiro Ladislau Dowbor, hoje professor da PUC de São Paulo. “Estávamos mantendo contatos no campo para o início da guerrilha rural”, admite Otávio.

 

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