|
O
último clandestino
- continuação
Claudio
Camargo e Alan Rodrigues
Prisão, torturas e banimento Otávio
foi preso em São Paulo num sábado pela manhã,
poucos dias depois da morte de Marighella, em 4 de novembro de 1969.
Devo ter sido o último militante a se reunir com Marighella.
Estive com ele das 19h às 19h30, num ponto no Tatuapé,
ao lado da avenida Celso Garcia (São Paulo). Às 20h15,
ele foi assassinado. Minha prisão deve ter sido lá
pelo dia 11 de novembro, relembra. Fui levado para a
Operação Bandeirantes (Oban), organização
paramilitar da repressão, embrião dos DOI/Codi), na
rua Tutóia. Eles me puseram no pau-de-arara às 11
horas da manhã. Eu anotava os pontos numa caderneta que eles
pegaram. A primeira sessão durou até a meia-noite.
Aí, para ganhar tempo, entreguei o depósito onde guardávamos
armas, que estavam enterradas num quintal de um aparelho na zona
leste de São Paulo. Otávio ficou 30 dias na
Oban e outros 20 dias no Departamento de Ordem Política e
Social (Dops), onde foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos
Fleury, o mais famoso facínora do regime militar. Depois,
ele foi para o Presídio Tiradentes, considerado um purgatório,
porque lá os presos políticos não eram mais
torturados e podiam receber visitas. Em 14 de março de 1970,
Otávio e outros quatro guerrilheiros presos foram libertados
e banidos para o México, em troca da libertação
do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi,
sequestrado por um comando da VPR três dias atrás.
Antes de partir, ele sofreria novas torturas. Me levaram
outra vez para o Dops. Apanhei muito, levei socos, chutes, telefone
(tapas nos ouvidos). Depois, me mostraram uma gravação
com vozes de mulheres, que pareciam ser minhas irmãs, chorando,
implorando para eu ficar. Aquilo foi terrível. Quase desisti,
conta Otávio.
No dia em que o cônsul japonês foi sequestrado, Helga
(Tereza Ângelo), viajou do Rio de Janeiro para São
Paulo em companhia de Jamil (Ladislau Dowbor), que era
o comandante da operação de sequestro. Era uma manobra
de despiste. Nós fizemos o papel de marido e mulher.
Mas eu não participei do sequestro e não sabia que
meu irmão estaria na lista dos cinco libertados, conta
Tereza. Até hoje, Otávio Ângelo desconhecia
as razões pelas quais seu nome tinha sido incluído
na lista, uma vez que ele já se encontrava no Tiradentes
e, portanto, teoricamente, estava livre de novas torturas. Somente
agora a razão foi revelada. A inclusão dele
não foi um acaso. Otávio Ângelo tinha contatos
do Marighella, principalmente no campo, que nos interessava preservar,
disse a ISTOÉ o ex-guerrilheiro Ladislau Dowbor, hoje professor
da PUC de São Paulo. Estávamos mantendo contatos
no campo para o início da guerrilha rural, admite Otávio.
|