| ARTES
& ESPETÁCULOS |
22/08/2001 |
Toque
de gênio
Mark
Twain romanceia história de Joana D’Arc
Luiza
Pastor
| AP |
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Twain: pesquisa minuciosa
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O que levou o escritor americano Mark Twain em pleno século
XIX e já consagrado por obras do calibre de As aventuras
de Tom Sawyer e As aventuras de Huckleberry Finn
a dedicar parte de sua vida à história da donzela
que, 400 anos atrás, desafiara os invasores ingleses da França
e a própria Igreja, sendo queimada viva em nome da liberdade
de sua pátria? Pois ele fez questão de descartar todas
as pressões contrárias e perpetrou, com o fôlego
de homem maduro, o romance Joana dArc (Record, 490
págs., R$ 45).
Criar algo de novo na trajetória da heroína e pretensa
herege não é tarefa fácil. E este era um dos
pontos que mais atraíam Twain ao desafio. Com farta documentação,
preservada a partir dos anais do processo aberto pela Inquisição
para levar Joana à fogueira, sobrava pouco espaço
para romancear os fatos históricos. Mas que bela obra conseguiu
produzir Mark Twain! Sem sentimentalismos baratos, ele se distancia
da personagem ao introduzir um narrador, não por acaso seu
mais próximo conselheiro, que a acompanhou da infância
ao suplício e que, quando da reabilitação,
seria uma das principais testemunhas.
Com minuciosa pesquisa de todas as fontes bibliográficas
existentes, o autor dedicou-se com afinco a traduzir a fragilidade
da bela menina que mobilizou os abatidos exércitos do rei
Charles VI, sem, todavia, perder o tom irônico que surge naturalmente
ao se pensar no absurdo de os céus precisarem invocar a força
daquela mocinha como último baluarte da coragem e da honra
de uma nação. Curiosamente, a pré-revolucionária
Joana, mesmo sendo filha do povo, não era das figuras mais
populares entre os próceres da Revolução Francesa.
Talvez por este motivo, os intelectuais contemporâneos de
Mark Twain tenham torcido o nariz para o livro publicado em 1895
e que o autor referendaria, até o fim de sua vida, como sua
melhor obra.
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