| ARTES
& ESPETÁCULOS |
08/08/2001 |
Observador
mordaz
A
veia crítica de Henry James atinge o auge nas novelas
de A vida privada e outras histórias
Luiza
Pastor
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A sociedade do século XIX sobreviveu à ironia fina do escritor
e ao seu charme irresistível de verdadeiro dândi
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Crítica da crítica em seu melhor momento poderia
ser uma definição do autor americano Henry James,
se sua obra coubesse em uma única frase. Não cabe.
James, que antes de mais nada foi um homem do mundo efervescente,
social e elitizado do final do século XIX, era também
um observador mordaz dos costumes dos salões que frequentava
e que conseguiram sobreviver à sua ironia fina e ao charme
irresistível de verdadeiro dândi. Sua veia crítica,
mas principalmente autocrítica, se mostra mais evidente em
A vida privada e outras histórias (Nova Alexandria,
206 págs., R$ 23). São apenas três novelas,
o gênero favorito de James. Entre elas uma inédita
no Brasil, justamente a que dá título ao livro.
A tônica comum é a figura do escritor misterioso,
que conquista seus pares com segredos inomináveis. Na primeira,
A lição do mestre, James promove o encontro
de um autor consagrado com outro iniciante, que lhe bebe avidamente
os conselhos até deparar-se com a traição suprema,
quando o mestre arrebata a mulher de seus sonhos. Embora deixe no
ar, em nome da piedade para com a dor alheia, a possibilidade de
tudo ter sido cometido para favorecer a ação da musa,
ele não esconde a crueldade do mundo dos grandes egos. Cabe
ao leitor o julgamento final.
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Em O desenho do tapete, a segunda e mais fascinante das
três histórias, James frustra o leitor num ato de puro
masoquismo criativo. A novela mostra mais um escritor famoso, Hugh
Vereker, que desafia seus críticos a identificar na teia
de sua obra o fio comum que, segundo ele, é reproduzido em
cada livro como chave de toda a criação. Alguém
localiza, ou pensa ter localizado, o enigma. James deixa o leitor
aflito até a última linha, na esperança de
que lhe seja finalmente revelado o segredo.
A novela inédita, A vida privada, mostra um lado
da vivência artística que o próprio James enfrentou
ao tornar-se uma estrela da sociedade da época. Para estar
no maior número possível de lugares ao mesmo tempo,
o autor inventado por ele acaba não tendo mais tempo para
dedicar-se à sua obra. Como solução do conflito,
cria um duplo, um clone de si mesmo. Em público, Clare Vawdrey
se mostra um ser banal, fútil, incapaz de pronunciar algo
criativo, que intriga o observador em busca de um brilho intelectual
digno da sua fama. Enquanto seu ghost-writer é tudo
o que de sua imagem se espera, embora preserve a solidão
e o sossego necessários à inspiração.
Não deixa de ser um libelo delicioso para quem algum dia
sonhou com o estrelato e a badalação.
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