“Deus é brasileiro”
Em
agosto, o rabino Henry Sobel completa 31 anos
de Brasil e fala sobre a comunidade judaica, sexo,
drogas e homossexualismo
OUÇA
TRECHOS DA ENTREVISTA |
|
|
Flavio Sampaio
|
Max
G Pinto
|
|
|
|
Sobel: “Sou vaidoso, conhecido pelo nó largo da gravata, colarinho
alto e pela kipá púrpura” |
O rabino mais conhecido do Brasil não é brasileiro.
É filho de belgas, português de nascimento, mas cidadão
americano. Seu famoso sotaque pode ser reconhecido a distância.
Vaidoso, Sobel faz questão de manter as suas marcas registradas:
o colarinho alto da camisa, o nó largo da gravata, a kipá
(solidéu) púrpura e os cabelos longos, já grisalhos,
após 57 anos de vida. Em quase 31 anos de Brasil, o rabino
se tornou a voz mais ativa da comunidade judaica, empenhou-se nas
atividades ecumênicas e quase perdeu seu emprego no final
do ano passado por uma briga de poder e egos. Não sabe onde
é mais perigoso viver, se em São Paulo ou em Israel.
Sabe, porém, que a solução para a paz no Oriente
Médio só deve acontecer a longo prazo, cerca de 20
anos. Apesar de não ser partidário do primeiro ministro
de Israel, Ariel Sharon, Sobel acredita que ele seja o homem
certo, na hora certa. Entre várias xícaras de
café, que jura também tomar com mendigos da rua onde
trabalha, Henry Sobel concedeu a seguinte entrevista a IstoÉ:
ISTOÉ O sr. é um rabino muito popular,
desembaraçado, moderno. No seu curso de rabinato, o sr. tinha
aulas de marketing ou relações públicas?
Henry Sobel Nem uma nem outra. Entrei no seminário
rabínico por gostar do judaísmo. Sempre gostei de
gente, todas elas. Pode ser uma alta autoridade em Brasília
ou um mendigo para tomar um café no bar da esquina. A possibilidade
de me relacionar com elas me dá satisfação.
ISTOÉ Já aconteceu de o sr. tomar um
café com mendigo?
Sobel Já, com frequência! Há um bar
na esquina da Congregação Israelita Paulista (CIP)
onde tomo café regularmente com amigos que são também
mendigos de rua. Eu gosto, pois levo as pessoas muito a sério.
ISTOÉ O sr. sempre está atrelado ao
poder. Tem canal direto com prefeitos, governadores e até
com o presidente. Como é lidar com o poder?
Sobel O poder faz parte. Não fico deslumbrado.
Tenho facilidade de relacionamento, trafego bem com pessoas de todas
as classes sociais. Com ricos e pobres, poderosos e não-poderosos.
ISTOÉ Quando o titã Marcelo Frommer,
que era judeu, morreu em junho, houve uma polêmica em relação
à doação de órgãos. Afinal, os
judeus podem doar os seus órgãos?
Sobel O judaísmo considera fundamental o respeito
pelos mortos. A integridade
do corpo deve ser mantida. Porém, uma das leis mais importantes
do judaísmo é o dever de salvar uma vida. Não
pode haver maior tributo aos mortos do que utilizar seus restos
mortais para salvar ou prolongar outra vida humana. Ou seja, é
permitido.
ISTOÉ Como foram seus 30 anos de Brasil?
Sobel Completo 31 anos em agosto. Houve momentos bons
e ruins, aprendi muito desde que recebi o convite para vir para
cá. Sinto-me privilegiado em poder servir a mesma congregação
(a Congregação Israelita Paulista), algo raro no rabinato.
ISTOÉ O sr. enfrentou uma crise junto à
diretoria da CIP no final do ano passado, que culminou com sua demissão
e, posteriormente, readmissão. O que realmente ocorreu?
Sobel Acredito que o problema todo foi pessoal. Não
foi ideológico nem operacional. Sem dúvida, tivemos
problemas de vaidades, uma luta pelo poder. A diretoria achava importante
encaixar, enquadrar o rabino em vez de trabalhar
com ele. Mas no final deu tudo certo. Temos uma nova diretoria,
mais dinâmica, ativa e acredito que há males que vêm
para o bem. Estou profundamente aborrecido com o que aconteceu.
ISTOÉ O sr. é presidente do rabinato
da Congregação Israelita Paulista, uma entre outras
congregações. Como o sr. é remunerado?
Sobel Sou contratado pela CIP e recebo salário
como rabino.
ISTOÉ O sr. ganha bem? Fala-se em US$ 25 mil
por mês. É verdade?
Sobel Mentira, muito mentira! (risos)
ISTOÉ O sr. é um gastador? O que faz
com seu dinheiro?
Sobel Vivo modestamente. Gasto aquilo que é necessário,
não me considero um materialista. As minhas extravagâncias
não são materiais. Quero proporcionar um nível
de vida confortável para a minha esposa, para a minha filha.
Minha esposa, Amanda, é modesta.
|