EDIÇÃO Nº 1661
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 ENTREVISTA
01/08/2001
continua...

“Deus é brasileiro”

Em agosto, o rabino Henry Sobel completa 31 anos
de Brasil e fala sobre a comunidade judaica, sexo,
drogas e homossexualismo

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  OUÇA TRECHOS DA ENTREVISTA
ANOS 60 EM NY PAÍS MODELO FILHA QUERIDA
ENCONTRO NA PISCINA CONTINUIDADE JUDAICA PODER FAZ PARTE
PRECONCEITO NO BRASIL VIDA DE CLASSE MÉDIA CABELOS LONGOS
RABINO TRICOLOR DIA-A-DIA CORRIDO PROCESSO DE PAZ

Flavio Sampaio

Max G Pinto

Sobel: “Sou vaidoso, conhecido pelo nó largo da gravata, colarinho alto e pela kipá púrpura”

O rabino mais conhecido do Brasil não é brasileiro. É filho de belgas, português de nascimento, mas cidadão americano. Seu famoso sotaque pode ser reconhecido a distância. Vaidoso, Sobel faz questão de manter as suas marcas registradas: o colarinho alto da camisa, o nó largo da gravata, a kipá (solidéu) púrpura e os cabelos longos, já grisalhos, após 57 anos de vida. Em quase 31 anos de Brasil, o rabino se tornou a voz mais ativa da comunidade judaica, empenhou-se nas atividades ecumênicas e quase perdeu seu emprego no final do ano passado por uma briga de poder e egos. Não sabe onde é mais perigoso viver, se em São Paulo ou em Israel. Sabe, porém, que a solução para a paz no Oriente Médio só deve acontecer a longo prazo, cerca de 20 anos. Apesar de não ser partidário do primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon, Sobel acredita que ele seja “o homem certo, na hora certa”. Entre várias xícaras de café, que jura também tomar com mendigos da rua onde trabalha, Henry Sobel concedeu a seguinte entrevista a IstoÉ:

ISTOÉ – O sr. é um rabino muito popular, desembaraçado, moderno. No seu curso de rabinato, o sr. tinha aulas de marketing ou relações públicas?
Henry Sobel – Nem uma nem outra. Entrei no seminário rabínico por gostar do judaísmo. Sempre gostei de gente, todas elas. Pode ser uma alta autoridade em Brasília ou um mendigo para tomar um café no bar da esquina. A possibilidade de me relacionar com elas me dá satisfação.

ISTOÉ – Já aconteceu de o sr. tomar um café com mendigo?
Sobel –
Já, com frequência! Há um bar na esquina da Congregação Israelita Paulista (CIP) onde tomo café regularmente com amigos que são também mendigos de rua. Eu gosto, pois levo as pessoas muito a sério.

ISTOÉ – O sr. sempre está atrelado ao poder. Tem canal direto com prefeitos, governadores e até com o presidente. Como é lidar com o poder?
Sobel –
O poder faz parte. Não fico deslumbrado. Tenho facilidade de relacionamento, trafego bem com pessoas de todas as classes sociais. Com ricos e pobres, poderosos e não-poderosos.

ISTOÉ – Quando o titã Marcelo Frommer, que era judeu, morreu em junho, houve uma polêmica em relação à doação de órgãos. Afinal, os judeus podem doar os seus órgãos?
Sobel –
O judaísmo considera fundamental o respeito pelos mortos. A integridade do corpo deve ser mantida. Porém, uma das leis mais importantes do judaísmo é o dever de salvar uma vida. Não pode haver maior tributo aos mortos do que utilizar seus restos mortais para salvar ou prolongar outra vida humana. Ou seja, é permitido.

ISTOÉ – Como foram seus 30 anos de Brasil?
Sobel –
Completo 31 anos em agosto. Houve momentos bons e ruins, aprendi muito desde que recebi o convite para vir para cá. Sinto-me privilegiado em poder servir a mesma congregação (a Congregação Israelita Paulista), algo raro no rabinato.

ISTOÉ – O sr. enfrentou uma crise junto à diretoria da CIP no final do ano passado, que culminou com sua demissão e, posteriormente, readmissão. O que realmente ocorreu?
Sobel –
Acredito que o problema todo foi pessoal. Não foi ideológico nem operacional. Sem dúvida, tivemos problemas de vaidades, uma luta pelo poder. A diretoria achava importante “encaixar”, “enquadrar” o rabino em vez de trabalhar com ele. Mas no final deu tudo certo. Temos uma nova diretoria, mais dinâmica, ativa e acredito que há males que vêm para o bem. Estou profundamente aborrecido com o que aconteceu.

ISTOÉ – O sr. é presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, uma entre outras congregações. Como o sr. é remunerado?
Sobel –
Sou contratado pela CIP e recebo salário como rabino.

ISTOÉ – O sr. ganha bem? Fala-se em US$ 25 mil por mês. É verdade?
Sobel –
Mentira, muito mentira! (risos)

ISTOÉ – O sr. é um gastador? O que faz com seu dinheiro?
Sobel –
Vivo modestamente. Gasto aquilo que é necessário, não me considero um materialista. As minhas extravagâncias não são materiais. Quero proporcionar um nível de vida confortável para a minha esposa, para a minha filha. Minha esposa, Amanda, é modesta.

 

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