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 ENTREVISTA
25/07/2001
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‘‘FHC faz chantagem’’

Garotinho acusa o presidente de usar a Receita Federal contra ele por temer o crescimento de sua candidatura e diz que já ganhou a eleição

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Anthonny William Matheus de Oliveira era um garoto obstinado. Aos 12 anos ganhou a eleição para o Grêmio Estudantil Nilo Peçanha do Liceu de Humanidades de Campos (RJ), disputando com meninos mais velhos de 16 e 17 anos. No discurso de posse, o petiz afirmou que ali começava uma carreira que iria até o Palácio do Planalto: “Vou ser prefeito, governador e presidente da República.” Uma parte da caminhada já foi alcançada. Prefeito duas vezes e governador do Rio de Janeiro aos 38 anos, Anthonny Garotinho continua com a mesma fé da infância. “Já ganhei a eleição”, deixa escapar um ano e três meses antes de os votos serem contados. Cercado de denúncias, sem perspectivas de alianças eleitorais – o que deve restringir sua candidatura ao pequeno PSB – e à frente de um projeto inédito, no qual mistura política com a religião evangélica, Garotinho já escolheu os adversários para a pré-campanha. “Fernando Henrique faz chantagem”, acusa, ao dizer que a Receita Federal está por trás da quebra de sigilo dele, de sua mulher, Rosinha, e da sua empresa no caso da acusação de sonegação fiscal. “Ciro Gomes é o pai do desemprego,” ataca, ao lembrar que o ministro da Fazenda de Itamar Franco foi responsável pela abertura econômica que “acabou com a empresa nacional”. Disposição para campanha ele tem. Dedica boa parte de seu dia a entrevistas para rádios de todo o Brasil, nas quais, além de falar dos projetos que tem adotado no Rio, planta as sementes de uma candidatura que propõe “um choque de crédito”. Durante a entrevista à ISTOÉ pediu licença para conversar com Eli Corrêa, comunicador da Rádio América de São Paulo. Bom de papo, Garotinho desfila seus planos dirigindo-se diretamente às donas-de- casa, atualizando a lição de seus tempos de radialista. As soluções para o País crescer também estão na ponta da língua. Muitos números. Pudera, nas horas vagas, o governador está tendo aulas de economia com os professores Carlos Lessa e Luciano Coutinho.

ISTOÉ – De onde o sr. tirou a informação de que o governo federal pagou R$ 1 milhão pelas fitas com gravações de suas conversas?
Anthonny Garotinho –
Eu não disse que o governo pagou. Eu disse que essas fitas foram oferecidas no mercado por R$ 1 milhão na época de minha eleição para o governo do Estado. Essa informação foi publicada na coluna de Ricardo Boechat (então no jornal O Globo). Supunha-se à época que Cesar Maia (prefeito do Rio) as tenha adquirido porque usou uma dessas fitas num programa de debates na CBN, em que ele me acusava de comprar uma rádio. E foi desmentido no ato pelo Ary de Carvalho, que disse que eu estava falando em nome dele, porque naquele momento eu trabalhava na implantação da FM O Dia. O que eu disse eu repito: O governo federal está utilizando a Receita Federal para fazer política. Isso é inadmissível.

ISTOÉ – Mas o sr. acusou o governo de deixar vazar o conteúdo das fitas para a imprensa.
Garotinho –
O governo, se não está por trás, tem de provar. Tem de abrir um inquérito na Receita para saber quem vazou, quem quebrou o sigilo fiscal da dona Rosinha, o meu e o da Garotinho Editora Gráfica Ltda. Desarquivaram um processo de 1995 para fazer toda essa onda de calúnias. Agora eu quero dizer que se houve essa diferença que eles estão dizendo, e pode ter havido porque era o contador que cuidava disso, eu faço questão de pagar porque o problema não é fiscal, é moral e político.

ISTOÉ – O sr. disse que não se lembrava de ter se referido às tais “500 pratas”, que seriam oferecidas ao fiscal da Receita para abafar o caso. Já se lembrou?
Garotinho –
Não, mas vou afirmar: não houve suborno a ninguém, nem tentativa. Não autorizei ninguém a subornar fiscal da Receita. O lamentável é que o sr. Fernando Henrique Cardoso permita que a Receita Federal esteja servindo de instrumento político. Seria o mesmo que eu aqui chamasse meu secretário de Fazenda e dissesse: “Sabe fulano, beltrano e sicrano? São meus adversários políticos. Bote os fiscais da Receita estadual dentro da empresa e vamos descobrir um débito de ICMS deles de qualquer jeito porque precisamos incriminá-los. Enquanto isso, abasteça a imprensa de informações para eles ficarem acuados”. Isto em política se chama chantagem. E é o que está sendo feito.

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