| ARTES
& ESPETÁCULOS |
04/07/2001 |
Livros
I
Questão
de fé
Cristo
é obviamente analisado por Juan Arias
Luiza Pastor
| Divulgação |
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Arias:
pretendendo esmiuçar cientificamente o mito religioso
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As muitas décadas de dominação franquista
e, com ela, de absolutismo católico deixaram na Espanha algumas
heranças indeléveis. Uma, moral, na repressão
educacional de que tanto custou às gerações
mais novas se livrar, de modo a poderem entrar definitivamente no
mundo da modernidade. Outra, cultural, que na prática divide
os que crêem dos descrentes, estabelecendo códigos
próprios de comunicação que raramente se misturam.
Com o passar dos anos democráticos, os dois lados deixaram
de lado os chavões e buscaram argumentos para reforçar
suas respectivas posições. Tudo muito civilizado,
como convém a um país da Europa unificada. Um bom
exemplo desta manifestação consciente
da religiosidade é o mais novo livro de Juan Arias, Jesus,
esse grande desconhecido (Objetiva, 232 págs., R$ 23,90).
É o livro de um especialista. Arias estudou teologia, filosofia,
psicologia, línguas semíticas e filologia comparada
na Universidade de Roma. De tanto pesquisar, acabou localizando
na biblioteca do Vaticano o único códice existente,
escrito no que seria o dialeto de Jesus, que estava perdido havia
séculos. Arias é um obcecado pelo mundo da religiosidade.
Entre suas muitas obras se inclui até um inesperado As
confissões de um peregrino, resultado de longas conversas
com o brasileiro Paulo Coelho. Há, contudo, trabalhos mais
sérios como este Jesus. Nele, o autor pretende esmiuçar
cientificamente o que existe de concreto e palpável
historicamente falando no mito cristão.
Mas ao longo da leitura as conclusões são desanimadoras:
a figura em questão é infinitamente maior que seus
registros. Não há relatos fidedignos da vida real
do homem que viria a ser o embrião do cristianismo e que
Arias frequentemente nega que seja a mesma instituição
hoje conhecida. Nota-se erudição em cada página,
mas o saldo final é pífio. Fica-se sabendo exatamente
o mesmo de antes de se ler a primeira linha. Ou seja, Jesus não
é objeto de história e sim única e exclusivamente
de fé. E a fé, manipulada com boas ou más intenções,
não deixou uma história digna deste pesado substantivo.

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