| ARTES
& ESPETÁCULOS |
04/07/2001 |
Cinema
Outono
ensolarado
Carla
Camurati retrata o lado alegre da velhice na deliciosa comédia Copacabana
Ivan
Cláudio
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Divulgação
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Myriam
e Nanini: a solteirona e o fotógrafo bon-vivant, que passa
a vida em revista
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Curante muito tempo, a cineasta carioca Carla Camurati acreditou
numa história do pai que, quando criança, jurava ter
presenciado uma recepção ao então primeiro-ministro
britânico Winston Churchill. Na ocasião, o premier
teria avançado faminto sobre um bolo feito por Enrico, avô
da cineasta e confeiteiro-chefe do Hotel Copacabana Palace, e arrancado
uma grande fatia. Que Enrico fazia bolos maravilhosos é pura
verdade. Mas a vinda de Churchill nunca aconteceu. Mesmo assim,
Carla decidiu homenagear o pai e o avô, contando o episódio
na deliciosa comédia Copacabana, com estréia nacional
na sexta-feira 6. A lenda familiar é uma das passagens divertidas
do filme, que reconstrói momentos gloriosos do famoso bairro
carioca, através das recordações de Alberto
fotógrafo solteirão e bon-vivant , às
vésperas de completar 90 anos.
Numa interpretação detalhista, Marco Nanini encarna
o velhinho com medo da morte, no seu cotidiano acostumado a cruzar
com prostitutas, travestis e garotos do morro. Suas memórias,
contudo, são bem mais agitadas. Incluem jogatinas e bailes
no Copa, carnavais à luz do dia, noitadas no cabaré
de Mère Louise, a passagem do Zeppelin e até o resgate
de um elefante em plena areia. À exceção do
vôo do dirigível e outras cenas documentais raríssimas,
as reminiscências do personagem Alberto foram reconstituídas
também em preto-e-branco com o esmero permitido por um orçamento
de R$ 2,7 milhões. Mas o objetivo de Carla foi mais longe
que o olhar nostálgico sobre o bairro que, no passado, polarizou
a vida nacional. Somos um país ligado na juventude.
Quis falar da velhice de forma saborosa, mostrando seu lado ensolarado,
afirma a cineasta.
Como em Carlota Joaquina, princesa do Brazil, o humor é
onipresente. Se faz sentir já no prólogo, quando Alberto
narra sua história em off, direto do caixão, com ironia
bem machadiana. Numa grande sacada, Carla filma o ponto de vista
do defunto, mostrando um céu infinito semelhante a uma nave
de igreja. Esta foi igualmente a primeira imagem que marcou Alberto,
ao ter sido abandonado pela mãe e depositado por Nossa Senhora
de Copacabana isso mesmo! no altar da antiga igrejinha
que deu nome ao bairro. Ao redor do caixão, está reunida
sua divertida turma da terceira idade, formada por irmãs
solteironas, viúvas fogosas e velhinhos de língua
afiada, todos representados por um elenco admirável, incluindo
Myriam Pires, Laura Cardoso e Renata Fronzi, sem falar do antológico
travesti Rogéria, encarnando a própria. Eles emendaram
a noite do aniversário com o velório, já que
Alberto resolveu bater as botas no mesmo dia. Entre reminiscências
e várias surpresas, vai sendo contada a história do
bairro e dos amigos através da irreverência, marca
registrada de Carla. A vida não é drama, mas
comédia e tragédia. Deve ser levada a sério
só até a página seis, diz Carla.

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