| MEDICINA
& BEM ESTAR |
20/06/2001 |
Coração
Sempre
cabe mais um
Cirurgia rara salva paranaense, que agora tem dois corações
Lia
Bock
| Jaelson
Lucas |
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Biazetto: Só o órgão do doador não daria conta |
O médico põe o estetoscópio no peito do paciente
e, em vez de escutar o convencional tuntum do coração,
ouve praticamente uma sinfonia. São os dois corações
do paranaense José Paulo Biazetto, 52 anos, técnico
em segurança do trabalho. Ele é o quinto brasileiro
a receber um coração transplantado sem a retirada
do órgão original. A cirurgia, feita no dia 16 de
maio, é chamada de eterotópica. Não se trata
de uma opção à cirurgia convencional (a ortotópica),
que substitui um coração por outro. O recurso só
é adotado em casos extremos. É uma cirurgia
de exceção, explica Fernando Bacal, cardiologista
da unidade de transplante do Instituto do Coração
(Incor), em São Paulo. Tanto é assim que, dos
mais de mil transplantes de coração feitos no Brasil,
apenas cinco foram desse tipo, completa.
A cirurgia é feita quando há algum empecilho para
a retirada do coração. Se o paciente tem, por exemplo,
hiper-resistência pulmonar (pressão no pulmão
que obriga o coração a trabalhar mais do que o habitual
para bombear o sangue para o órgão), o novo músculo
cardíaco pode não suportar o esforço, já
que não está acostumado com esse ritmo. Nesse caso,
faz-se o transplante e o velho coração é mantido.
Juntos, eles conseguem dar conta do recado, apesar de ser totalmente
independentes. Outro motivo para a cirurgia eterotópica é
a incompatibilidade de pesos entre doador e receptor. Foi o que
ocorreu com Biazetto, que sofria de insuficiência cardíaca.
Ele tem 104 quilos e o doador pesava 70. É muito provável
que o novo coração não aguentasse sozinho,
conta Gualter Pinheiro Júnior, cirurgião cardíaco
da Santa Casa de Londrina (PR), onde foi realizada a intervenção.
| Hélcio
Nagamine |
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Mabel Fonseca: “Só lembro que tenho dois corações quando coloco
as mãos no peito” |
Antes da cirurgia, Biazetto teve duas chances de fazer o transplante
de coração. Elas acabaram descartadas justamente porque
o peso do doador não era compatível com o do robusto
técnico em segurança. Tentamos esperar por um
doador com peso semelhante para fazer a cirurgia convencional, mas
não dava mais para esperar. Ele já estava numa situação
complicada e preferimos deixá-lo com dois corações,
afirma Pinheiro. A indicação deve ser cautelosa. Mas
para quem encontra poucas saídas para recuperar-se de problemas
cardíacos, o procedimento pode ser a salvação.
O caso bem-sucedido da estudante baiana Mabel Fonseca, 14 anos,
mostra que, apesar disso, há esperanças de uma vida
saudável. Há três anos, ela recebeu um segundo
órgão numa cirurgia no Hospital das Clínicas
de São Paulo. A menina tinha um vírus desconhecido
que afetava o funcionamento do músculo. Hoje, Mabel está
bem. Nem percebo a diferença, conta Mabel, que
diz só lembrar que tem dois corações quando
coloca as mãos no peito e sente as batidas dos órgãos.
Ela também se recorda da sua condição especial
quando faz os exames de rotina no hospital paulista.
Como Mabel, Biazetto terá de se habituar a fazer consultas
periodicamente. A cada 15 dias, ele vai ao hospital checar se há
sinal de rejeição do novo órgão. Ele
brinca com a situação, que deve ser seguida para sempre:
Agora, é rezar para não haver briga. Eu sou
palmeirense. Imagina se esse coração novo é
corintiano? Aí é que vai complicar. 
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