| ARTES
& ESPETÁCULOS |
20/06/2001 |
Livros
II
Nau
a pique
Aventura
marítima só trata de obviedades
Luiz
Pastor
|
AFP
|
 |
|
Pérez-Reverte:
herói ingênuo
|
Poucas coisas mexem tanto com os sentimentos dos povos ibéricos
quanto o mar. Foi por ele que seus reis de outrora alcançaram
o poder e a riqueza. Ironicamente, foi também do mar que
veio a decadência, com a avassaladora supremacia dos eternos
rivais ingleses. Curiosamente, apesar desta paixão pela navegação
e pelos mistérios dos oceanos, são raras as obras
ibéricas e, em particular, espanholas que têm no mar
o personagem principal. Algumas tentativas de resgatar a antiga
paixão soaram falsas, pastiches de algo cujo manejo ficou
esquecido no tempo. É o caso do recém-lançado
A carta esférica, do espanhol Arturo Pérez-Reverte
(Companhia das Letras, 536 págs., R$ 34,50). Trabalhado como
um típico romance noir, o livro parte de um enredo minúsculo,
no qual o oficial da Marinha Mercante Manuel Coy, punido por um
erro que alega não ter sido seu, mas do seu superior, amarga
em terra a suspensão da autorização para navegar
por dois anos. Comprovando a velha tese das vovós, de que
o ócio é a mãe de todos os vícios, ele
acaba se envolvendo numa trama canhestra, atrás de um misterioso
navio espanhol afundado em algum lugar da costa espanhola.
Os personagens de Pérez-Reverte são tão óbvios
quanto caricatos. Não é casual a constante citação
do pernóstico Tintin o herói francês
dos quadrinhos criado por Hergé e seus colegas de
aventuras colonialistas. É quase automática a associação
dos perfis dos vilões de A carta esférica com
os que insistem em atrapalhar os planos de exploração
do repórter intrometido de topete ruivo. Ali está
o malvadíssimo caçador de tesouros que, tendo como
assecla um ex-torturador argentino, inferniza a vida do herói
ingênuo, que só pensa no melhor jeito de levar para
a cama mais próxima a loira misteriosa que o fez meter-se
na estranha empreitada. Loiras, quase toda a literatura confirma,
são sempre um perigo para os homens de bem. A carta esférica
seria uma leitura despretensiosa para uma noite de chuva, se o autor
não insistisse em entupir o texto com tantas e tão
minuciosas citações técnicas que acabam com
a paciência de qualquer um. A menos, claro, que o leitor já
tenha vestido uma farda branca e cantado: Qual cisne branco
em noite de lua... 
|