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 ARTES & ESPETÁCULOS 20/06/2001
Cinema I continua...


Um estranho no ninho
O corajoso Bicho de sete cabeças consagra Rodrigo Santoro numa história que denuncia com vigor as mazelas do sistema manicomial brasileiro

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Ivan Claudio

Fotos: Marlene Bérgamo/Ed. Viggiani
Santoro ...

No papel de seda azul-claro, garranchos quase ilegíveis expressam uma revolta curta e grossa. “Pai, as coisas ficam muito boas quando a gente esquece, mas acontece que eu não esqueci a sua covardia. Você me fez menor que você, estou te mostrando a porta da rua para que saia sem lhe bater.” O bilhete, que faz eco ao livro Carta ao pai, de Franz Kafka, e usa trechos da música Judiaria, de Lupicínio Rodrigues, é lido com perplexidade e arrependimento por Seu Wilson, personagem vivido por Othon Bastos na abertura do filme Bicho de sete cabeças, um dos lançamentos brasileiros mais aguardados do ano, em cartaz nacional na sexta-feira 22. Foi escrito pelo jovem Neto, emocionante papel que deu a Rodrigo Santoro o prêmio de melhor ator nos mais recentes festivais de cinema de Brasília e do Recife. A razão de tanta mágoa – que a diretora paulistana Laís Bodanzky mostra com tanto vigor e segurança no seu longa-metragem de estréia – é que uma vida foi praticamente roubada. Flagrado com um cigarro de maconha, Neto é internado pelo pai num manicômio e passa a viver uma via crucis da qual só se livra depois de três anos, muitos coquetéis de sedativos e uma série de eletrochoques. Entrou naquele inferno na terra cheio de juventude e saiu o tal bicho-de-sete-cabeças.

Fotos: Marlene Bérgamo/Ed. Viggiani
...Cassia e Bastos: interpretações precisas

A história é real. Foi baseada no livro O canto dos malditos, assombroso relato autobiográfico do ator e escritor paranaense Austregésilo Carrano, 43 anos, hoje um dos mais ativos militantes do movimento antimanicomial. Laís, 31 anos, filha do cineasta Jorge Bodanzky, tomou conhecimento do livro quando integrava um grupo de pesquisa sobre a questão dos manicômios no Brasil, onde ainda existem 70 mil pacientes entregues a procedimentos psiquiátricos abomináveis. “Tinha uma visão preconceituosa do assunto e ao ler o livro tomei contato pela primeira vez com a visão de quem viveu o problema na pele”, conta Laís. “Muitos não conseguem, mas Carrano deu a volta por cima e soltou um grande grito para que outros não passem pelo mesmo.”

Ao adaptar o livro para as telas, o objetivo de Laís foi o mesmo de Carrano. Por isso, fez questão de trazer para os dias de hoje o drama vivido pelo autor nos anos 70: “Muita gente pensa que o problema dos hospitais manicomiais acabou com o fim da ditadura. Não é verdade. Estes verdadeiros campos de concentração, que Carrano chama de depósitos humanos, continuam aí.” Para que a denúncia desta realidade fosse eficiente, Laís optou por uma linguagem seca, quase documental. Filmou tudo com câmera na mão e usou como cenário dois hospitais desativados de São Paulo, ambos fechados recentemente por maus- tratos aos internos.

Angústia – A sensação de urgência e angústia é permanente no filme. Em cortes rápidos, a diretora situa o espectador no universo classe média baixa de Neto, um adolescente sem muita perspectiva, que usa o skate e a pichação para se fazer notado pela sociedade. Aí acontece o episódio do cigarro de maconha. Como se tragado por um pesadelo, Neto vai descendo degrau por degrau em direção ao inferno.

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