| ARTES
& ESPETÁCULOS |
06/06/2001 |
Livros
Aqui
sobra luz
São
lançadas A gênese do Dr. Fausto
romance sobre um romance e
Duas novelas A lei e
A enganada, obras inéditas de Thomas Mann no Brasil
Luiza
Pastor
Poucos escritores, em toda a história da literatura universal,
exibiram de forma tão notável uma densidade cultural
e uma ironia fina da qualidade do autor alemão Thomas Mann.
Em tempos de mediocridade generalizada, escândalos e apagões,
é um alívio constatar que a obra de Mann, inteligente,
culta e deliciosamente envolvente, não foi esquecida e está
cada dia mais atual. O bálsamo para a mesmice está
sendo viabilizado em pequenas, mas delicadas, porções
inéditas no Brasil de três obras não tão
conhecidas do autor de A montanha mágica e da tetralogia
José e seus irmãos. Duas novelas A lei e
A enganada (Mandarim, 174 págs., R$ 25), bem como
o autobiográfico A gênese do Dr. Fausto romance
sobre um romance (Mandarim, 180 págs., R$ 25), são
um colírio cultural para os tempos difíceis.
 |
Nascido em Lübeck, em 1875, Mann criou sua primeira obra de
fôlego, Os Buddenbrooks, com pouco mais de 19 anos.
No livro, a história de uma provinciana família alemã
que tenta manter-se à tona em meio ao turbilhão das
mudanças do momento histórico, é possível
detectar o embrião de praticamente toda a obra que Mann construiria
sempre com os mais sólidos alicerces de uma cultura surpreendentemente
vasta e abrangente. Uma obra que, em 1929, lhe valeu um dos mais
merecidos Prêmios Nobel da história da Academia Sueca.
 |
Quatro anos depois do Nobel, confessando-se enojado com a pequenez
identificada em seu próprio povo, imerso em ilusões
de grandeza e conquista territorial, Mann deixaria a Alemanha e
se auto-exilaria na Suíça, que adotou como lar até
morrer, em 1955. Humanista e crítico como poucos, o escritor
foi execrado pelos dirigentes do nazismo crescente. Mas nem por
isso obrigou-se a poupar da ironia aqueles que o incensavam, como
os intelectuais americanos, que o chamaram para assumir uma cátedra
na Universidade de Princeton. A ingenuidade autocomplacente detectada
por ele na América é, por sinal, o mote da novela
A enganada.
O tema é a paixão tardia de uma ainda atraente viúva
do interior da Alemanha por um bem-apessoado jovem americano que
quer conhecer melhor a Europa à custa de algumas aulas de
inglês para senhoras entediadas. O contraste entre os dois
mundos não podia ser mais gritante e irônico. A viúva
Rosalie von Tümmlerr, no ocaso de sua juventude, reúne
em si todas as amarras de um mundo engessado nas tradições,
verdadeiro fascínio para o jovem arrivista. Este, o musculoso
e sedutor Ken Keaton, soldado que optou por ficar pela Europa ao
final da Primeira Grande Guerra, com seus bíceps bronzeados
e a irreverência das camisas pólo, representa o choque
do novo, de uma sociedade que começava a atropelar o velho
com sua irresponsável e alegre ambição. A paixão
é inevitável. Até compreensível, como
refletem os atordoados filhos da viúva. Mas Thomas Mann
no fundo, ele também um irremediável europeu de pura
e rígida cepa não perdoa o desfrute. E o amor,
que se ameaça inconsequente, tropeça e sucumbe à
dura e cruel realidade de um corpo decadente.
Coerente com a absoluta independência do autor em relação
à sua criatividade, a outra novela, A lei, escrita
em 1944, em plena efervescência do anti-semitismo alemão,
trata de dar nada menos que uma nova versão cética
e científica para a história de Moisés e sua
fuga do Egito com o povo judeu em busca da Terra Prometida. Sem
medo de ser criticado, justamente durante o auge do holocausto,
Mann faz questão de mostrar um Moisés de sangue mestiço,
herança da jovem filha do faraó com um escravo judeu,
morto após servir aos caprichos da luxúria da moça.
Na visão de Mann, ele praticamente arrasta o que escolheu
como seu povo para o sonho de uma nova terra. Mas precisa enfrentar
pelo caminho os percalços da desconfiança.
Em A lei não há a menor tolerância
para com a rabugice do populacho, que, em meio à busca do
destino divino, não poupa Moisés da mesquinharia,
da fofoca e da ingratidão. Este é o caráter
leviano das massas, grita Mann no respeitoso silêncio de observador.
Em qualquer momento e circunstância elas passam ao largo da
divindade e exigem para ontem o que só se obtém investindo
no amanhã. Não por acaso, o outro livro que está
sendo lançado, A gênese do Dr. Fausto, faz tantas
menções ao filósofo Theodor Adorno. Ele mesmo
um crítico da cultura de massas, figura carismática
da chamada Escola de Frankfurt, que assentou algumas das mais sólidas
bases para a revolução cultural que se estenderia
até o final dos anos 70.
Luz de velas Ao contar a motivação que o levou
a criar Doutor Fausto inspirado em Fausto,
de Goethe , provavelmente a obra mais complexa e erudita de
Mann, o autor diz que aos 70 anos se obrigou a estudar profundamente
os mistérios da teoria musical, já que o personagem
principal é um apaixonado pela música. Assim, Mann
faz sua autocrítica e exorciza seus próprios fantasmas
ao esparramar seu amor pelo neto Frido e escancarar o suicídio
de suas irmãs. Muito mais se pode dizer de Thomas Mann. Mas
melhor mesmo é ler sua obra, nem que seja à luz de
velas. E que as musas abençoem quem teve a genial idéia
de lançar estes dois livros por aqui. 
|